
Diante do início da vigência do tarifaço de 50% imposto pelo governo Donald Trump a produtos importados do Brasil, empresas gaúchas que exportam para o mercado norte-americano já planejam medidas de reação.
A despeito das incertezas que ainda pairam sobre o tema e das expectativas por negociações que revertam o cenário atual, empresário já colocam no horizonte, se necessário, dispensa de funcionários, antecipação de férias e redução de margens de lucro, entre outras ações que possam mitigar os efeitos das perdas.
Para entender o impacto da medida imposta pelo governo norte-americano sobre empresas e indústrias do Rio Grande do Sul, a reportagem ouviu representantes dos setores calçadista, madeireiro, eletrônico e de pescado.
Apesar da diversidade de negócios com clientes dos Estados Unidos, os empresários ouvidos por Zero Hora são unânimes ao apontar dificuldades na substituição de mercados. Argumentam que não se trata de simplesmente remanejar a venda da produção para outros países, uma vez que a relação com clientes norte-americanos foi construída ao longo de anos.
— É a maior classe média do mundo e com poder aquisitivo. A Europa está numa situação difícil, a Ásia é autosuficiente, a África não tem o que fazer e, na América do Sul, todas as economias estão em ponto de estagnação. Não tem outro mercado — afirma Marcos Huff, CEO da Calçados Killana, com matriz em Três Coroas.
Com 20 anos de relação comercial com os Estados Unidos, o empresário antecipou o maior volume possível de entregas para os Estados Unidos, de modo a escapar da vigência do tarifaço. Uma estratégia que garantiu um fôlego de algumas semanas.
— Se a situação não se resolver em um cenário de, no máximo, 20 ou 30 dias, vai começar uma onda de demissões — alerta o empresário.

Calçados Killana
- Matriz: Três Coroas
- Funcionários: 90
- Relação com EUA: 20 anos
- O que vende: sapatos em couro
- Peso do mercado: 20% do faturamento
Férias coletivas
Outro setor impactado pelas novas tarifas é o madeireiro. Maior empregadora de Cambará do Sul, nos Campos de Cima da Serra, a Reflorestadores Unidos possui uma relação comercial de 40 anos com os Estados Unidos. Vende cercas de madeira para famílias norte-americanas, um mercado responsável por 80% da sua produção.
— Estamos dando férias por setores. A gente não para 100% pois, para isso, exige-se um caixa que não temos. E também trabalhamos para outros mercados — explica o diretor-presidente, Cassiano de Zorzi.

Reflorestadores Unidos
- Matriz: Cambará do Sul
- Funcionários: 340
- Relação com EUA: mais de 40 anos
- O que vende para os EUA: madeiras para cercas
- Peso do mercado: 80% da produção destinada aos EUA
Redução na margem de lucro
Com 20 anos de relação com clientes norte-americanos, a Novus Produtos Eletrônicos tem matriz em Canoas e deve a esse mercado 10% do seu faturamento. Fabrica controladores de temperatura usados em máquinas para a indústria alimentícia, em estufas e esterilizadores da área de saúde.
Para o diretor-geral da Novus, Marcos Dillenburg, o cenário mais pessimista no momento é de manutenção da tarifas em 50%. Mas ele acredita que, passado o que entende ser uma "confusão político-ideológica entre os dois países", deve haver um recuo das tarifas para um patamar entre 20% e 25%. Enquanto isso, diz que prefere esperar antes de tomar medidas mais drásticas:
— Vamos encolher margens ou, se necessário, zerar a margem de lucro das exportações do Brasil para a nossa unidade nos Estados Unidos. E, lá, manter uma margem mínima, suficiente para suportar a estrutura. Queremos reter os clientes existentes, apostando que teremos um cenário um pouco melhor ali adiante — explica Marcos Dillenburg.

Novus Produtos Eletrônicos
- Matriz: Canoas
- Funcionários: 230
- Relação com EUA: 20 anos
- O que vende: controladores de temperatura, usados em máquinas para a indústria alimentícia, em estufas e esterilizadores para a área de saúde
- Peso do mercado dos EUA: 10% do faturamento
Transferência de planta para os EUA
A possibilidade de transferência de pelo menos parte da planta de produção para solo norte-americano é um cenário em análise na empresa Fueltech, com matriz em Porto Alegre. Especializada na produção de equipamentos de tecnologia automotiva para carros de alta performance, como injetores, ignição, eletrificação, sensores e válvulas, a empresa adiantou o envio de cargas, garantido um estoque no Exterior para vendas até o final do ano.
— Fizemos hora extra na produção, trabalhamos final de semana, pegamos produtos que já estavam em estoque e transformamos tudo em produtos para o mercado norte-americano. Conseguimos enviar três grandes pedidos que chegaram a tempo lá — diz Leonardo Fontolan, CEO Brasil da Fueltech.
Segundo o empresário, o "plano A" da Fueltech é produzir o mínimo necessário do hardware no Brasil e enviar para os Estados Unidos, onde seria feita a montagem final do produto:
— Agrega mais valor e o produto passar a ser considerado o "Made in USA". É a primeira opção.
Fontolan não descarta, contudo, produzir em outros países, que tenham relação política e econômica melhor com os Estados Unidos.

Fueltech
- Matriz: Porto Alegre
- Funcionários: 220 (40 deles em uma unidade nos Estados Unidos)
- Relação com EUA: 16 anos
- O que vende: equipamentos de tecnologia automotiva para carros de alta performance, como injetores, ignição, eletrificação, sensores e válvulas
- Peso do mercado: cerca de um terço do faturamento
Vendas zeradas
A crise é considerada "sem precedentes" por empresários que vendem há muitos anos para os Estados Unidos. Com uma das relações mais longevas do Rio Grande do Sul com o mercado norte-americano, a Torquato Pontes Pescados vende seus produtos para lá desde 1964. Uma carga foi despachada antes do início da vigência do tarifaço, portanto deve ficar de fora da taxação. No momento, novas vendas para os Estados Unidos estão zeradas.
— Imagina chegar no supermercado e encontrar um produto que está sendo vendido com valor 50% mais alto. Não tem como. Não existe consumidor no mundo que vai continuar utilizando — lamenta Torquato Pontes Neto, diretor-presidente da companhia.
Torquato Pontes Pescados
- Matriz: Rio Grande
- Funcionários: 220
- Relação com EUA: 61 anos
- O que vende: pescado congelado inteiro, pescado congelado eviscerado e pescado fresco
- Peso do mercado: 30% do faturamento total e 50% das vendas externas
O tarifaço de 50%
O tarifaço imposto pelo governo norte-americano para produtos importados do Brasil entrou em vigor na última quarta-feira (6). No Rio Grande do Sul, o impacto é estimado em até R$ 1,5 bilhão no PIB estadual.
Relatório elaborado pelo comitê de crise da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) aponta que as tarifas adicionais incidem sobre 85,7% das exportações gaúchas para os EUA. Os setores mais prejudicados incluem produtos de metal (45,8% das exportações), máquinas e materiais elétricos (42,5%), madeira (30,1%), couro e calçados (19,4%) e tabaco (8,9%).
No mesmo dia do início da vigência, o governo brasileiro acionou os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC).





