
A Advocacia-Geral da União (AGU) encaminhou à Polícia Federal, na terça-feira (25), notícia-crime pedindo a instauração de inquérito para apurar a disseminação do que chama de fake news contra o Sistema Financeiro Nacional.
Segundo o órgão, publicações em redes sociais têm “potencial de fomentar uma verdadeira corrida bancária para retirada de valores dos bancos” e gerar prejuízos à economia do país.
O caso ganhou força após o Banco do Brasil (BB) denunciar, na última sexta-feira (22), a circulação de informações classificadas como de “extrema gravidade”. Essas mensagens associavam o banco estatal às sanções impostas pelos Estados Unidos com base na chamada Lei Magnitsky.
De acordo com a Procuradoria Nacional da União de Defesa da Democracia (PNDD), desde 19 de agosto perfis em redes sociais passaram a vincular o Banco do Brasil às medidas do Departamento do Tesouro americano, sugerindo que a instituição estaria prestes a perder relações internacionais e, consequentemente, poderia quebrar.
As mensagens levaram a AGU a alertar para uma ação articulada de disparos em massa, com a intenção de gerar caos no sistema financeiro e pressionar o Judiciário.
Repercussão imediata no mercado
O clima de incerteza coincidiu com a decisão do ministro Flávio Dino, em 18 de agosto, de declarar que sanções estrangeiras unilaterais — como a Lei Magnitsky — não têm validade no Brasil.
A fala foi interpretada por parte do mercado como um risco de conflito com os Estados Unidos e levou as ações do Banco do Brasil a caírem 6,03% em um único dia. Na sequência, houve recuperação parcial, indicando que o impacto inicial refletiu mais a volatilidade do noticiário do que mudanças estruturais na instituição.
— Notícias mexem com a percepção do investidor. Isso gera oscilações, mas não muda os fundamentos de longo prazo — avalia o economista Guilherme Jung, professor da Universidade de Passo Fundo e economista-chefe da Alta Vista Investimentos.
Risco de corrida bancária é improvável
Uma das principais preocupações apontadas pela AGU foi a possibilidade de que correntistas corressem aos bancos para retirar dinheiro. Esse movimento, conhecido como corrida bancária, pode colocar em xeque até mesmo as instituições mais sólidas, como o BB.
No entanto, no caso brasileiro, especialistas consideram o risco muito baixo.
— Já passamos por crises pesadas, como em 2008, Lava-Jato e a pandemia, e nada disso ocorreu. Nosso sistema é concentrado em poucos e grandes bancos, muito mais difícil de quebrar. Além disso, temos mecanismos como o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que dão segurança adicional — explica Jung.
Ele reforça que o sistema bancário nacional possui camadas de proteção suficientes para evitar o colapso. O mestre em finanças pela Universidade de Sorbonne, Hulisses Dias, reforça esse argumento, acrescentando:
— O sistema financeiro brasileiro é um dos mais sólidos do mundo. Conta com um modelo de liquidação centralizada, elevada regulação prudencial, mecanismos de compulsórios robustos e um histórico de rápida intervenção do Banco Central em situações de estresse. Esses fatores reduzem substancialmente a probabilidade de uma corrida bancária se consolidar.
Subsidiária nos EUA e riscos externos
No plano internacional, a discussão envolve o alcance da Lei Magnitsky e a possibilidade de sanções americanas atingirem instituições brasileiras. A dúvida central é se o Banco do Brasil poderia sofrer restrições em suas operações internacionais.
Segundo Dias, o risco maior estaria restrito à filial nos Estados Unidos.
— O risco se restringiria às operações da subsidiária nos EUA. Isso não se estenderia automaticamente à matriz no Brasil, que é regida pela legislação nacional e supervisionada pelo Banco Central. O risco maior é indireto: interrupções em transações em dólar e repercussões reputacionais — afirma.
Contudo, os especialistas avaliam que a probabilidade de restrições ao dólar é pequena e iria em direção oposta aos interesses americanos.
— Entendemos que isso traria um choque severo, mas não acredito que vá acontecer. Caso ocorresse, os Estados Unidos perderiam um grande parceiro comercial e ainda fortaleceriam o processo de "desdolarização" já fomentado pela China, justamente o que os EUA menos desejam. Precisamos adotar uma ótica mais racional — completa Jung.
Confiança do sistema
Mais do que um risco jurídico concreto, os ataques em redes sociais podem abalar a percepção de confiança, como ficou evidenciado na nova queda de 2% que as ações do Banco do Brasil sofreram na segunda-feira (25).
Contudo, os especialistas amenizam a situação e reforçam que, a longo prazo, há robustez econômica para mitigar os impactos.
— Fake news podem até gerar ruídos momentâneos, mas o sistema brasileiro tem solidez regulatória que funciona como amortecedor. A confiança está ancorada em décadas de estabilidade e supervisão rigorosa — avalia Dias.
Jung segue a mesma linha e reforça que, apesar da turbulência no noticiário, a estrutura do sistema financeiro brasileiro não deve ser afetada.
— Precisamos olhar para o racional. O ruído de curto prazo pode afetar preços de ações e gerar ansiedade, mas não ameaça a estrutura do sistema financeiro — afirma.
Papel central do Banco do Brasil
Apesar do ruído político e jurídico, o peso do Banco do Brasil na economia segue como um dos principais fatores de resiliência. O banco tem mais de dois séculos de história e ocupa funções estratégicas que vão além do setor privado.
Atualmente, o BB é responsável pela folha de pagamento do funcionalismo público federal, responde por cerca de 60% do crédito agrícola e é líder em operações de comércio exterior e financiamento do Plano Safra. Também figura entre os maiores bancos da América Latina em ativos.
— O Banco do Brasil é uma peça chave no sistema financeiro nacional. Foi assumindo funções além de um banco comercial e hoje é um dos pilares do crédito agrícola, além de ser responsável pela folha de pagamento do funcionalismo federal. É um player muito relevante e com papel de Estado — conclui Jung.
Banco do Brasil em números
- Ativos totais (dezembro de 2024): R$ 2,43 trilhões — o segundo maior banco do país em volume de ativos
- Lucro líquido ajustado (2024): R$ 35,44 bilhões
- Carteira de crédito agrícola: R$ 404,9 bilhões no final do 2º trimestre de 2025
- Plano Safra 2025/26: alocação prevista de R$ 230 bilhões em crédito rural, mantendo a liderança no financiamento agrícola
- Empregados (dezembro de 2024): aproximadamente 86.574 funcionários
- Base de clientes (final de 2024): cerca de 85,8 milhões de clientes
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