
Em meio ao agravamento da tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou nesta quarta-feira (30) que o governo brasileiro tem buscado o diálogo com Washington, mas não tem obtido resposta. Em entrevista ao New York Times, o presidente foi questionado sobre as tentativas e estratégias brasileira de negociação.
— O que está impedindo é que ninguém quer conversar — disse Lula.
O presidente detalhou o histórico recente das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, ressaltando que foram realizadas 10 reuniões com o Departamento de Comércio dos EUA e o envio de uma carta, no dia 16 de maio, que ainda não foi respondida diretamente.
— Pedi para fazer contato. Designei meu vice-presidente, meu ministro da Agricultura, meu ministro da Economia, para que cada um conversasse com seu respectivo par. Até agora, não foi possível — disse.
Lula lamentou o tom da comunicação, afirmando que a postura do governo americano demonstra falta de disposição para o diálogo.
— O tom da carta é claramente de alguém que não quer conversar — afirmou o presidente, reforçando o desejo de restabelecer a civilidade nas relações bilaterais.
Sem contato direto, o presidente brasileiro foi perguntado o que gostaria de falar ao par norte-americano:
— Quero dizer ao Trump que brasileiros e americanos não merecem ser vítimas da política, se o motivo pelo qual o presidente Trump está impondo essa tarifa ao Brasil for o caso contra o ex-presidente Bolsonaro. O povo brasileiro pagará mais caro por alguns produtos, e o povo americano pagará mais caro por outros. E, na minha opinião, essa causa não justifica isso.
Entenda
A declaração ocorre semanas após o ex-presidente americano Donald Trump, que busca retornar à Casa Branca, anunciar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos EUA. A medida foi divulgada no dia 9 de julho por meio de uma carta publicada na rede Truth Social, associando a sanção comercial ao tratamento dado pela Justiça brasileira ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Além da nova tarifa, o governo americano abriu uma investigação formal contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA — instrumento já utilizado anteriormente em disputas com países como China e França.
"Respeito e soberania"
Durante a entrevista, Lula voltou a afirmar que não há espaço para misturar questões políticas internas com temas comerciais internacionais.
— Se ele (Trump) quer ter uma briga política, que seja uma briga política. Se quiser discutir comércio, vamos sentar e discutir comércio. Mas não dá para misturar tudo — criticou o presidente brasileiro.
O petista também se disse preocupado com os impactos econômicos da medida, mas reforçou que o Brasil não aceitará imposições.
— O Brasil vai negociar como um país soberano. Na política entre dois Estados, a vontade de nenhum dos lados deve prevalecer. Sempre é preciso encontrar um ponto de equilíbrio — afirmou.
Tentativas de negociação
Na tentativa de conter os danos do tarifaço, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que também comanda o Ministério do Desenvolvimento, tem mantido conversas com representantes dos EUA. Segundo ele, houve contato com o secretário de Comércio norte-americano, Howard Lutnick, com quem propôs dobrar a relação bilateral nos próximos cinco anos.
Além disso, uma missão de senadores brasileiros está nos Estados Unidos nesta semana para tentar destravar as negociações e buscar um caminho diplomático que possa adiar ou reverter as tarifas.
Mesmo diante da pressão, Lula afirmou que o Brasil não se curvará.
— Se os Estados Unidos não quiserem comprar algo nosso, vamos procurar quem queira. Temos uma relação extraordinária com a China. Não temos preferência ideológica, temos interesse em vender para quem quiser pagar mais — disse.
Críticas diretas e pragmatismo
Conhecido por sua retórica direta, Lula também fez críticas a Trump, mas evitou confrontos pessoais.
— Nem meu pior inimigo poderia dizer que o Lula não gosta de negociar. Aprendi política negociando. Não tenho nada contra a ideologia do Trump. Trump é um problema do povo americano. Eles votaram nele, fim de papo — disse o presidente:
— Não vou questionar o direito soberano do povo americano, porque não quero que eles questionem o meu.
Sobre os motivos por trás da medida americana, o presidente brasileiro voltou a destacar que Bolsonaro responde a um processo dentro da legalidade.
— O Brasil tem uma Constituição, e o ex-presidente está sendo julgado com pleno direito à defesa. Essa causa não justifica prejudicar brasileiros e americanos com tarifas — declarou.
Prazo mantido
Trump reafirmou que o prazo de 1º agosto, data prevista para a entrada em vigor as tarifas impostas pelo republicano, "permanece firme" e não será prorrogado, em publicação na Truth Social, nesta quarta-feira, 30. "O prazo de primeiro de agosto é o prazo de primeiro de agosto", escreveu. Poucos minutos depois, em outra postagem na rede social, ele acrescentou: "primeiro de agosto, um grande dia para a América!!!".



