
Se por um lado a febre das barbearias gourmet já passou do auge, um novo tipo de negócio parece ocupar o espaço das “lojas de bairro com pegada moderna” em Porto Alegre: as lavanderias. Em especial, as do tipo self-service, com máquinas à disposição dos clientes em espaços abertos, automatizados e, muitas vezes, sem funcionários no local.
De acordo com dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), 73 lavanderias foram abertas no Rio Grande do Sul somente em 2025 — 17 delas em Porto Alegre.
As lojas com vitrines coloridas, displays digitais e cestos prontos para uso chamam atenção de quem circula pela cidade. Mas, por trás das fachadas limpas e do aroma de sabão, há realidades bem distintas entre os empreendedores do setor.
“É uma ilusão”, diz proprietário

Adriano Vescovi, 37 anos, abriu sua primeira lavanderia na zona sul da Capital depois de conhecer o modelo self-service em uma viagem ao Nordeste. Morador da região da Cavalhada, ele conta que investiu pesado para montar uma operação independente, sem apoio de franquia. Chegou a expandir para cinco unidades, mas hoje avalia que a aposta não deu o retorno esperado.
— Conheci a lavanderia no Nordeste, em um hotel que fiquei, que era self-service. Então quis trazer esse sistema de negócio para Porto Alegre, mas não é uma cidade onde tem tanto turismo. Precisamos pegar o cliente de bairro. No início foi muito bom, mas depois vieram as franquias. Em menos de três meses, abriram sete lavanderias ao meu redor — relata.
Sem a estrutura de uma rede, Vescovi arcou sozinho com o custo de máquinas industriais, produtos, identidade visual e manutenção. Segundo ele, o retorno financeiro veio apenas durante a enchente de maio de 2024, quando a demanda explodiu — mas foi passageiro. Em outras épocas do ano, especialmente no verão, o movimento não cobre os custos.
— É um negócio sazonal. No frio é bom e no calor, não. No fim do ano, sequer se paga. Para me diferenciar, saí do self-service e voltei para o sistema antigo, com atendimento completo — explica.
Além da sazonalidade, ele cita a alta nos preços dos produtos (um galão de sabão pode custar até R$ 1 mil, segundo diz), furtos frequentes nas lojas e instabilidade técnica com as máquinas.
— A loja é automatizada. Se cai a internet, para tudo: pagamento, câmeras, acesso às máquinas. Já tive roubos, clientes reclamando que a máquina trancou com a roupa dentro, e eu lá em Gravataí tendo que voltar correndo para destrancar — conta.
Hoje, Vescovi tenta vender as lojas, sem sucesso. Para ele, a falsa promessa de lucro fácil, aliada à explosão de franquias no mercado, levou a uma saturação precoce do setor.
— Estão vendendo um sonho. Dizem que você só precisa repor produto e ir embora. Mas a realidade é outra. Nem todo mundo vai ficar, tenho certeza — completa.
Franqueado aposta em suporte e localização: “A regra é ter circulação”

Na contramão do pessimismo, o ex-professor de biologia Henrique Acosta Torales, 44 anos, resolveu investir no setor em 2025 e afirma estar satisfeito. Ele comanda uma unidade da rede AquaMagic no subsolo do Shopping João Pessoa, em Porto Alegre. É o único franqueado da marca na cidade.
— Eu tinha uma grana para investir, mas não tinha experiência. Por isso, optei pela franquia. Eles nos dão suporte, estudam concorrência, oferecem marketing, suporte técnico e acompanhamento. Para quem está começando, isso faz muita diferença — diz.
Torales destaca que a localização da lavanderia é estratégica: dentro de um centro comercial, com grande circulação de pedestres e estacionamento gratuito, o que atrai clientes que já têm máquina em casa, mas preferem pagar pela conveniência.
— A regra é ter circulação. Um bairro só de casas, por exemplo, não sustenta uma lavanderia. O cliente precisa estar por perto, de passagem. Aqui, a demanda dobra ou triplica em dias de chuva, e conseguimos operar com liberdade, vindo uma ou duas vezes por dia — conta.
Sobre a concorrência, ele tem uma visão diferente de Vescovi. Para Torales, a presença de várias unidades próximas pode, inclusive, beneficiar os negócios.
— Muitas vezes, duas ou três lavanderias próximas não tiram clientela uma da outra. Pelo contrário, criam um polo, como acontece com oficinas ou restaurantes. Claro, não pode haver discrepância de preços. Mas, com equilíbrio, todo mundo cresce — comenta.
Ele reconhece que há períodos difíceis, como janeiro e fevereiro, quando o movimento costuma cair, mas afirma que o planejamento já prevê essa sazonalidade.
— Não dá para achar que todo mês vai ter o mesmo lucro. A gente se programa. O suporte da franquia ajuda a manter o controle — diz.
Praticidade na rotina

Além dos empreendedores, quem impulsiona o crescimento das lavanderias em Porto Alegre são pessoas como Fernanda Nery da Silva Trindade Bela Vista, 45 anos, usuária frequente do serviço.
Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, ela se mudou temporariamente para a Capital e encontrou nas lojas de autosserviço uma solução prática para a rotina atribulada.
— Como eu não sou daqui, ainda estou me adaptando ao clima e à rotina. Porto Alegre é muito úmida, e eu não tenho muito tempo para ficar em casa lavando e secando roupa. Como estou acompanhando meu filho nos treinos no Grêmio, passo boa parte do dia fora. Então, aderi a esse modelo pela praticidade — explica.
Para ela, o uso do serviço tem sido simples e intuitivo, com o diferencial de estar perto da escola do filho, o que facilita ainda mais o dia a dia.
Fernanda conta que já tinha testado lavanderias self-service em outra região da cidade, mas agora escolhe pela comodidade da localização. Ainda assim, avalia que o hábito deve se restringir à sua estadia em Porto Alegre.
— Em Natal, o clima é completamente diferente. A gente tem sol o ano inteiro, então é mais fácil lavar e secar roupa em casa. Lá eu vi pouquíssimas lavanderias assim. Aqui, mesmo quando faz sol, é difícil secar tudo, principalmente no inverno — compara.
Mercado em ebulição: entre oportunidade e saturação

A combinação entre baixo custo operacional, fácil replicação do modelo e proliferação de franquias tem atraído investidores de diferentes perfis — de aposentados com capital disponível a profissionais que deixaram outras áreas durante ou após a pandemia.
Para Jociane Ongaratto, administradora e analista de competitividade setorial no Sebrae-RS, esse movimento reflete mudanças de comportamento do consumidor e uma valorização crescente da conveniência.
— A expansão do setor de limpeza está ligada à transformação no estilo de vida das pessoas. O consumidor entende que terceirizar essa tarefa também é um investimento em qualidade de vida. E o modelo de autosserviço tem ganhado maturidade, especialmente no pós-pandemia, quando buscamos mais praticidade — afirma.
Segundo ela, o crescimento é puxado principalmente pelas franquias, e o perfil mais comum entre os franqueados é de quem busca uma segunda fonte de renda ou uma operação com gestão remota. Mas alerta: o negócio exige presença, mesmo que à distância.
— Existe essa ideia de que vai colocar uma franquia e ela vai se tocar sozinha, mas não é 100% isso. Por mais automatizado que seja o modelo, o fator humano precisa estar presente. O Sebrae orienta que o crescimento seja planejado, e que o empreendedor entenda bem o plano da franqueadora, o perfil do público e o mercado — destaca.
Ela também enfatiza que o franqueado é, acima de tudo, um empresário:
— O empreendedor precisa entender que, ao adquirir uma franquia, ele se torna empresário. Tem obrigações de gestão e acompanhamento do negócio, e deve avaliar bem seu perfil e os termos do contrato. A operação pode ser repassada, mas isso depende da franqueadora.
"Mudança de estilo de vida"

Para o professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e doutor em administração Lucas Roldan, o "boom" tem razões estruturais, como o encolhimento das famílias, a verticalização das moradias e a redução de espaços como áreas de serviço nos apartamentos.
— É uma mudança de estilo de vida. Em Porto Alegre, realmente houve um "boom". O ponto é crucial. Se você não tiver volume de gente passando, não tem retorno. As pessoas buscam praticidade. E essas máquinas industriais, com ciclos rápidos, são melhores do que as domésticas — avalia.
Roldan reforça que o mercado ainda está em formação e que o crescimento desordenado pode levar à saturação.
— É um setor que atrai muita gente que está no primeiro negócio. Parece simples, mas tem sazonalidade, custos com manutenção e exige capital de giro. O risco maior é entrar sem conhecer bem a região ou sem planejamento de marketing e parcerias. Não é um modelo para todos, embora tenha vindo para ficar — detalha.
Segundo ele, o ideal é que o empreendedor tenha capital de giro para seis a nove meses de operação, considerando que o retorno pode demorar.
— No verão, o faturamento despenca. Se você não se planejar, não aguenta. A vantagem é que, em geral, não há funcionários fixos. Mas ainda assim, exige organização e dedicação. Além disso, o modelo de franquia oferece benefícios, mas voltar atrás pode ser complicado se o ponto estiver mal escolhido — conclui.
Como funciona uma lavanderia self-service:
- Escolha uma máquina de lavar disponível e coloque as roupas dentro
- Realize o pagamento via aplicativo, QR Code, cartão ou moedas
- Aguarde o sinal de liberação (luz verde ou aviso na tela)
- Selecione o tipo de lavagem: baixa, média ou alta sujidade
- Pressione "Iniciar" — a porta trava automaticamente e o ciclo começa
- O tempo de lavagem varia entre 35 e 40 minutos
- Ao final, a máquina emite um aviso sonoro indicando que terminou
- Transfira as roupas para uma secadora disponível
- Escolha a temperatura de secagem: baixa, média ou alta
- Pressione "Iniciar" e aguarde cerca de 45 minutos
- Retire as roupas após o ciclo e finalize o uso
- Valor médio por ciclo: R$ 15 para lavar e R$ 15 para secar
Tipos de lavanderia: do autosserviço à assinatura
O mercado de lavanderias em Porto Alegre hoje apresenta três formatos principais:
Self-service
Modelo no qual o cliente realiza todo o processo — da lavagem à secagem — de forma autônoma, utilizando máquinas industriais mediante pagamento por ciclo. Normalmente, essas lojas funcionam em esquema 24 horas, com monitoramento remoto e mínima presença de funcionários.
Convencional ou mista
Unidades que combinam autosserviço com atendimento tradicional, onde o cliente pode deixar a roupa e buscar depois. É a alternativa de empreendedores que, como Adriano Vescovi, migraram para esse modelo ao perceber limitações do self-service puro.
Franquias e delivery
Redes operam com padronização visual, sistemas de gestão e, em alguns casos, serviços de coleta e entrega. Algumas oferecem planos mensais por peso de roupa ou ciclos fixos — modelo que começa a ganhar espaço em áreas de alta densidade populacional.
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