
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quarta-feira (30) o decreto que estabelece tarifas de 50% sobre produtos importados do Brasil. A medida está prevista para entrar em vigor a partir de 6 de agosto. O documento que oficializa o tarifaço traz uma lista com 694 exceções — itens específicos que não serão tarifados.
Governador em exercício do Rio Grande do Sul, Gabriel Souza, afirma que, mesmo com as exceções, a medida "causa impacto significativo na economia do Estado" e é recebida "com muita preocupação".
— A hora não é de ideologia, seja para que lado for, e sim de defender os interesses do Rio Grande do Sul, em especial os empregos dos gaúchos, já que são quase 150 mil famílias que dependem de setores que possam vir a ser atingidos pelas tarifas — destaca o vice-governador.
O Piratini anunciou na semana passada uma linha especial de crédito de R$ 100 milhões para apoiar as empresas gaúchas diretamente atingidas pelo tarifaço.
— É importante que a gente consiga suportar os efeitos da crise e, além disso, claro, esperamos que o governo federal tenha também medidas de mitigação dos problemas, do ponto de vista de apoio e suporte às empresas atingidas, para manter os empregos e, ao mesmo tempo, diplomaticamente trabalhar com seriedade para que a gente tenha essa condição de renegociar essa tarifação — complementa.
Setores atingidos se manifestam
Antes da divulgação das exceções, estudos da Fiergs estimaram que o impacto do tarifaço podia gerar prejuízo de até R$ 1,92 bilhão no PIB do Rio Grande do Sul. Pela vocação exportadora, o Estado seria um dos mais atingidos pelas tarifas.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) destaca que, mesmo com exceções, a taxação prejudica a competitividade do produto brasileiro. "Não há justificativa técnica ou econômica para o aumento das tarifas, mas acreditamos que não é hora de retaliar. Seguimos defendendo a negociação como forma de convencer o governo americano que essa medida é uma relação de perde-perde para os dois países, não apenas para o Brasil”, afirma o presidente da CNI, Ricardo Alban, segundo nota divulgada pela entidade.
Calçados
O setor calçadista está entre os mais impactados. A indústria gaúcha representa 22% da produção nacional e 50% do valor gerado de exportação. O Estado é o segundo maior produtor nacional de calçados, atrás apenas do Ceará, e o maior exportador, em valores, do Brasil.
— A confirmação da assinatura do decreto é uma tragédia para o nosso setor calçadista, para as empresas e para os trabalhadores, impacta completamente nossa competitividade. Estamos ainda mais mobilizados depois desse anúncio, em articulação com os atores do setor, com a Fiergs, para continuar defendendo nossos interesses setoriais — afirma Renato Klein, presidente do sindicato da Indústria de Calçados do Estado do Rio Grande do Sul (Sicergs).
A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) pontuou que os Estados Unidos são o principal destino internacional do calçado brasileiro, respondendo por mais de 20% do valor total gerado pelas exportações do setor. No primeiro semestre de 2025, conforme a entidade, o Brasil exportou US$ 111,8 milhões, equivalentes a 5,8 milhões de pares de calçados, aos Estados Unidos.
Tabaco
Outro setor fortemente impactado pelo tarifaço é a indústria do tabaco. O Brasil exporta cerca de 38 mil toneladas do produto aos Estados Unidos, dos quais aproximadamente 90% saem do Porto de Rio Grande. O país norte-americano é o terceiro maior destino do tabaco brasileiro tanto em volume quanto em valor.
— Situação ficou extremamente preocupante para a cadeia produtiva do tabaco. Já estamos com alto volume de embarques suspensos. Estamos marcando uma reunião de emergência com as empresas associadas para avaliar o cenário e planejar os próximos passos — comenta o presidente do Sinditabaco RS, Valmor Thesing.
Móveis de madeira
Por meio de nota, a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) informou "está fazendo uma análise detalhada para identificar quais dos segmentos que representa estão incluídos nas possíveis exceções à tarifa de 50% e quais efetivamente serão impactados". A entidade representa diversos segmentos do setor de madeira processada, incluindo compensados, molduras, painéis, pisos e portas.
A Associação das Indústrias de Móveis do Estado do Rio Grande do Sul (Movergs) lembrou que "o mercado norte-americano responde por cerca de 17% dos móveis vendidos para fora do Brasil" e que "caso continue o mesmo direcionamento dos 50%, o impacto é maior nas empresas que têm os EUA como principal destino das exportações".
Madeira
A madeira, até o momento, está entre as exceções ao tarifaço pelo decreto desta quarta-feira. Contudo, Leonardo de Zorzi, presidente do Sindimadeira RS, principal entidade representativa do setor no Estado, destaca que alguns itens produzidos com madeira, como cercas, não escapam da nova taxação.
— Nosso setor também foi gravemente impactado pelo tarifaço, porque muitos produtos feitos com madeira aqui no Estado e que são exportados aos Estados Unidos entraram na lista das tarifas de 50%. Além disso, a madeira como um todo ainda não foi taxada porque está sob uma investigação comercial específica, e ainda deverá receber uma tarifa setorial especial, assim como ocorreu com o aço — explica.
Carne
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), os Estados Unidos são o segundo maior mercado para a carne bovina brasileira. A aplicação da taxa adicional de 50%, conforme nota da entidade, "compromete a viabilidade econômica das exportações ao mercado norte-americano".
Questionado em coletiva à imprensa sobre a possibilidade de outros mercados absorverem a perda das vendas aos EUA, o presidente da Abiec, Roberto Perosa, respondeu:
— O Brasil exporta para diversos países, mas nessa quantidade, cerca de 400 mil toneladas que nós íamos exportar nesse ano, e o produto específico que nós estamos pensando em exportar (aos Estados Unidos), não existe nenhum mercado que absorva tudo isso. Então, uma parte ficará no mercado interno, uma parte nós reenviaremos a outros destinos, mas com dificuldades de preço, de logística, que era um mercado tão atrativo como era os Estados Unidos.
Zero Hora também procurou o Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados no Estado do Rio Grande do Sul (Sicadergs), mas não teve retorno até esta publicação.
Armas
A reportagem também buscou o posicionamento da Associação Nacional das Indústrias de Armas e Munições (Aniam), mas não obteve resposta até o momento.
O setor também deve ser pesadamente impactado no RS, principalmente por meio da Taurus, empresa sediada em São Leopoldo, no Vale do Sinos, que exporta 82,5% de sua produção aos EUA.
Lula convoca reunião de emergência
Após o anúncio da assinatura do decreto do tarifaço, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, convocou uma reunião de emergência com os ministros do governo. A conversa deve ocorrer ainda na noite desta quarta.
O vice-presidente, Geraldo Alckmin, que lidera os esforços de diálogo do governo federal com os norte-americanos, também estará presente. As autoridades brasileiras debaterão como reagir à confirmação da assinatura do decreto.
Em entrevista ao New York Times, publicada nesta quarta, antes da assinatura do decreto por Trump, Lula afirmou que o governo brasileiro seguia buscando diálogo com Washington, sem sucesso. O presidente detalhou o histórico recente das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, ressaltando que foram realizadas 10 reuniões com o Departamento de Comércio dos EUA e que uma carta foi enviada, no dia 16 de maio, que ainda não foi respondida diretamente.
— Pedi para fazer contato. Designei meu vice-presidente, meu ministro da Agricultura, meu ministro da Economia, para que cada um conversasse com seu respectivo par. Até agora, não foi possível — disse.





