
Nos últimos dias antes da entrada em vigor do tarifaço proposto por Donald Trump, autoridades brasileiras seguem tentando negociar a revisão da imposição norte-americana. Anunciada em 9 de julho, a tarifa de 50% sobre produtos importados do Brasil está prevista para começar a valer a partir da sexta-feira (1º).
Desde o fim de semana, uma comitiva de senadores brasileiros, acompanhados por representantes do Itamaraty e do ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, está nos Estados Unidos para tentar avançar nas negociações com as autoridades norte-americanas. Para o senador Nelsinho Trad (PSD‑MS), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, a missão parlamentar busca reverter a imposição tarifária com base na histórica relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos.
— O Brasil quer construir, não confrontar. Estamos aqui para preservar uma relação de 200 anos que é sólida e mutuamente vantajosa — afirmou o senador nesta segunda-feira (28).
Além de Nelsinho Trad, integram a comitiva os senadores Tereza Cristina (PP‑MS), Jaques Wagner (PT‑BA), Fernando Farias (MDB‑AL), Astronauta Marcos Pontes (PL‑SP), Esperidião Amin (PP‑SC), Rogério Carvalho (PT‑SE) e Carlos Viana (Podemos‑MG). Nesta segunda, as atividades começaram com uma reunião na residência da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti, e seguiu à tarde com uma reunião com líderes empresariais norte-americanos na Câmara de Comércio dos Estados Unidos. Segundo o senador Carlos Viana, a entidade publicará uma manifestação contra o tarifaço.
— Eles pretendem fazer um texto, naturalmente, que represente apenas a parte privada, não será um texto político, porque eles não querem o envolvimento político, mas um texto que represente com clareza os prejuízos que os dois países terão, caso nós não consigamos a reabertura do diálogo e o adiamento das sanções, é prejuízo um jogo de perde-perde para norte-americanos e brasileiros — afirmou Viana.
A missão segue nos Estados Unidos pelo menos até quarta-feira (30). Também estão previstas, para os próximos dias, novas reuniões, com senadores e representantes de empresas e instituições norte-americanas. Líder do governo no Senado, Jacques Wagner se mostrou pessimista quanto à possibilidade de adiar a entrada em vigor das tarifas impostas.
— Eu acho que não (é possível adiar a entrada em vigor). O que a gente está fazendo é diplomacia parlamentar. É preciso que os governos se entendam. A gente está aqui para contribuir — disse o parlamentar ainda nesta manhã.
Lula reafirma busca por diálogo, mas governo norte-americano dificulta
O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou nesta segunda-feira que espera uma mudança de postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
— Eu espero que o presidente dos Estados Unidos reflita a importância do Brasil e resolva fazer aquilo que no mundo civilizado a gente faz. Tem divergência? Senta numa mesa, coloca a divergência de lado e vamos tentar resolver. E não de forma abrupta, individual, tomar a decisão de que vai multar, taxar o Brasil em 50% — destacou Lula durante cerimônia de inauguração de uma usina de gás natural no Rio de Janeiro.
No domingo (27), o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, desembarcou nos Estados Unidos. Inicialmente, a ida estava relacionada a compromissos na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, entre esta segunda e a terça-feira (29). Contudo, Vieira espera também uma sinalização do governo norte-americano para ir a Washington e se reunir com representantes da Casa Branca para tratar do tarifaço.
Também no domingo, Trump reforçou que o prazo de 1º de agosto estabelecido para a imposição de novas tarifas sobre seus parceiros comerciais permanecia inalterado. A informação já tinha sido reiterada pelo secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, em entrevista à emissora Fox News.
— Não haverá prorrogação nem mais períodos de carência. Em 1º de agosto, as tarifas serão fixadas. Entrarão em vigor. As alfândegas começarão a arrecadar o dinheiro — declarou Lutnick.
Apesar disso, o secretário reforçou que os países poderão seguir negociando com a Casa Branca mesmo após 1º de agosto:
— As pessoas ainda poderão falar com o presidente Trump. Ele está sempre disposto a ouvir. Se elas podem fazê-lo feliz ou não, é outra questão, mas ele está sempre disposto a negociar.
Indústria gaúcha segue mobilizada
Diversos segmentos da indústria nacional serão fortemente atingidos caso o tarifaço entre de fato em vigor ao fim desta semana. Nesta segunda-feira, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) publicou novo manifesto contra a imposição tarifária por parte dos norte-americanos, pedindo a revogação ou a prorrogação da medida.
"A Confederação Nacional da Indústria (CNI) vem a público reiterar sua posição sobre a provável implantação do expressivo e injustificável aumento das tarifas americanas sobre as exportações brasileiras. Já nos manifestamos, realizamos diversas tratativas e reivindicamos a revogação e até mesmo a prorrogação por 90 dias do chamado tarifaço", diz o texto assinado pelo presidente da CNI, Ricardo Alban, que ainda estuda a possibilidade de enviar uma missão própria aos EUA.
A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) enviou nesta segunda uma comitiva a Brasília, com a presença do presidente Claudio Bier, para reforçar as demandas da indústria gaúcha com relação ao tarifaço. O grupo entregou cartas com as solicitações ao vice-presidente Geraldo Alckmin e à assessoria do presidente Lula.

Para Lula, a Fiergs destacou que o governo deve buscar a priorização da via diplomática e da negociação, a não adoção de retaliações e também a tentativa de prorrogação do prazo de entrada em vigor da medida por pelo menos 90 dias. Para Alckmin, o documento entregue pede medidas compensatórias às indústrias atingidas pela medida. Leia aqui a íntegra dos documentos entregues.
— A finalidade dessas agendas é mostrar ao presidente e ao vice-presidente o drama das empresas, algumas que já estão dando férias coletivas. O segundo passo, infelizmente, é o desemprego, que é a pior coisa que pode acontecer para uma indústria — afirma o presidente da Fiergs, Claudio Bier.
Fiergs e CNI devem ter um encontro para tratar do tema na terça.


