
Dois importantes itens da pauta brasileira de exportações com produção no Rio Grande do Sul entram na mira das incertezas após o tarifaço adicional de 50% sinalizado por Donald Trump. São as carnes bovinas e os calçados, embarcados em volume expressivo para os Estados Unidos.
Os produtos não são os maiores em quantidade exportada, mas têm relevância na pauta pelo valor agregado que abarcam.
A tendência, segundo os setores envolvidos, é de que a elevação das tarifas inviabilize o interesse norte-americano pelo produto brasileiro, forçando a busca por novos mercados.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) demonstrou preocupação com o tarifaço. Segundo cálculos do setor, a taxa de 50% faria o preço médio da carne exportada passar de US$ 5.732 para US$ 8.600 a tonelada.
Já em relação aos calçados, o preço médio do produto exportado hoje para os Estados Unidos é de US$ 20. Com o tarifaço, passaria para US$ 30. A projeção é da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).
Carne com relevância em valor e volume
A exportação de carnes gaúchas para os EUA tem "exposição bem relevante", situa o assessor de relações internacionais da Federação da Agricultura do RS (Farsul), Renan Hein dos Santos. A fatia embarcada para o país representa 14,7% em valor e 12% em volume do total da proteína exportada pelo Estado. Em dólares, são US$ 39 milhões dos US$ 266 milhões totais exportados de carne.
— É um mercado muito importante para a carne gaúcha. Quando olhamos a carne bovina in natura, são 16,6% em valor como destino para os Estados Unidos e 16,4% em volume. Na carne bovina industrializada (enlatada), são 13,5% em valor e 9,3% em volume. É uma tarifa muito danosa, que torna inviável o comércio. São percentuais que dão noção do quão grave é o tarifaço — exemplifica Santos.

"Balde de água fria" nos calçados
A taxação de Trump foi recebida com surpresa e preocupação pelo setor calçadista. A indústria gaúcha representa 22% de toda a produção nacional e 50% do valor gerado de exportação. O Estado é o segundo maior produtor nacional de calçados, atrás apenas do Ceará, e o maior exportador em valores do Brasil.
Em nota, a associação lembrou que as exportações brasileiras do produto haviam crescido 24,5% em junho na comparação anual, justamente puxadas pelo incremento dos Estados Unidos, principal destino do calçado brasileiro. Os norte-americanos ampliaram em 40% as compras do item naquele mês.
— O anúncio do presidente Trump é um grande balde de água fria para o setor calçadista brasileiro — manifestou o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira.

Novos mercados na mira
A elevação das alíquotas pode levar tanto à busca de novos mercados internacionais quanto à maior oferta de produto no ambiente nacional. Na avaliação de Renan Santos, da Farsul, ambos os cenários tendem a acontecer. No caso de uma expansão global, o especialista cita que a investida é uma forma de se proteger:
— O mundo ideal é conseguir abrir novos mercados e diversificar. Os países em geral já têm tentado se tornar menos expostos ao mercado norte-americano. O Brasil deveria aproveitar esta brecha.
Como exemplo, Santos cita acordos já em negociação com Japão e Coreia do Sul. Ambos são grandes importadores de carne bovina e com grande potencial comercial, sobretudo para a carne gaúcha, que consegue vender diferencial de produção.
Dificuldade de realocação
Nos calçados, o presidente-executivo da Abicalçados lembra que há as questões de um mercado diferenciado. O tipo de produto fabricado especialmente no RS é considerado de alto valor agregado e não encontra facilmente outros compradores.
Por isso a realocação não é simples. As compras norte-americanas, em sua maioria, funcionam no modelo "private label". Na prática, é quando uma empresa fabrica um produto direcionado a uma marca específica.
— Esse produto não é fácil de realocar — diz Ferreira.
Os 10 produtos brasileiros mais vendidos aos EUA:
- Óleos brutos de petróleo
- Semiacabados de ferro ou aço
- Café não torrado
- Aeronaves
- Ferro gusa
- Sucos de frutas
- Carne bovina
- Celulose
- Óleos combustíveis de petróleo
- Equipamentos de engenharia




