
Em um cenário com mais restrições para a compra da casa própria, o volume de lançamentos de imóveis novos apresentou queda expressiva em Porto Alegre. O total de unidades lançadas na Capital caiu 58% no primeiro quadrimestre de 2025 ante o mesmo período do ano passado.
De janeiro a abril, foram lançadas 366 unidades na cidade. No mesmo período do ano passado, foram 882 imóveis lançados. A retração ocorre em um momento de vendas estáveis. Com a redução do estoque, os preços tendem a aumentar, apontam analistas do setor (entenda abaixo).
O levantamento faz parte do Panorama do Mercado Imobiliário, produzido pelo Sindicato das Indústrias da Construção Civil no Estado do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS) em parceria com a Alphaplan Inteligência em Pesquisas e a Órulo.
Os motivos da retração
O presidente do Sinduscon-RS, Claudio Teitelbaum, afirma que a redução acentuada nos lançamentos ocorre em um cenário amplo, marcado por novo ciclo de alta no juro básico, aperto na concessão de financiamentos imobiliários e quebra das expectativas em relação ao cenário macroeconômico do país.
Além disso, os efeitos da enchente no setor também têm peso nesse processo, segundo o dirigente:
— Isso tudo gerou uma fuga ainda maior dos recursos da poupança. Aliado a isso, a gente teve a enchente, que acabou freando muito a questão dos lançamentos e também a capacidade de as empresas lançarem. Nesse primeiro quadrimestre, as empresas ainda ficaram um pouco apreensivas na questão da taxa de juros e da restrição dos bancos em liberar financiamento.
Diante desse cenário mais desafiador, algumas empresas também decidem segurar os lançamentos para readequar preços em um ambiente com custos de produção mais elevados.
— A gente já notou, principalmente nesse mês de maio, uma subida de preço em alguns plantões de venda e em algumas ofertas de imóveis. Essa estratégia de segurar, de planejar melhor o lançamento, está vindo também agora para uma subida gradual dos preços dos imóveis. Um pouco para recompor margem, mas principalmente para recompor custos de produção que estão significativamente mais caros do que nos anos anteriores — afirma Teitelbaum.
José Antônio Ribeiro de Moura, economista e professor da Universidade Feevale, destaca a questão do problema de financiamento enfrentado pelo setor, com aperto no acesso ao crédito. Com isso, as empresas lançam de forma mais consciente.
— As construtoras estão sempre de olho em quem está comprando, principalmente se existe uma queda na intenção de compra, porque o comprador está esperando um momento melhor no custo do dinheiro. Isso afeta a estratégia de quem está ofertando. Então, ele vai precisar atacar, vamos dizer assim, aquelas vendas de imóveis que já estão no estoque. Ele tem que fazer dinheiro com isso, porque, na outra ponta, os lançamentos de novos imóveis estão sendo prejudicados — diz o professor.
Vendas estáveis, estoque menor
O levantamento do Sinduscon-RS aponta estabilidade nas vendas. No primeiro quadrimestre de 2025, foram comercializadas 1.501 unidades, exatamente o mesmo volume registrado no mesmo período do ano passado. Já o valor geral de vendas (VGV) teve uma leve retração, passando de R$ 1,57 bilhão para R$ 1,45 bilhão entre os dois períodos.
Nesse cenário com menos lançamentos e vendas no mesmo patamar, o estoque de imóveis registrado no acumulado de 12 meses fechados em abril ficou em 4.352 unidades disponíveis, segundo menor na série histórica, perdendo apenas para o acumulado de 12 meses fechados em outubro de 2024 (4.236). Além disso, o estoque atual é 14% menor do que o observado no mesmo período do ano passado e 6% a menos que a média mensal dos últimos 12 meses.
Tipos de imóveis
- No primeiro quadrimestre de 2025, 52% das vendas, em unidades, foram concentradas nos studios e apartamentos de um dormitório
- Já em VGV, as vendas se concentraram nos apartamentos de três dormitórios (48% das unidades).
Aumento dos preços no horizonte
O presidente do Sinduscon-RS afirma que o mercado ainda está com preços mais favoráveis para os compradores. No entanto, afirma que os preços devem ser mais elevados nos próximos meses. Por isso, informa que essa janela de oportunidade para aquisição de imóveis segue aberta, mas tende a fechar no restante do segundo semestre.
— O que eu estou vendo hoje é que a redução do estoque é uma questão de oferta e demanda. A gente vê que essa redução do estoque, a redução de lançamentos, junto com a necessidade de recomposição de margens, vai provocar, num curto e médio prazo, um aumento do preço dos imóveis. Por isso, a gente vem falando que é uma janela que está se fechando — projeta Claudio Teitelbaum.
Próximos meses
O presidente do Sinduscon-RS afirma que o cenário segue desafiador, com juro alto e algumas mudanças promovidas pelo governo, como aumento do IOF. No entanto, Teitelbaum enxerga espaço para melhora nos próximos meses:
— Acredito que, até o final deste ano, início do ano que vem, a gente vai voltar a ter uma taxa decrescente da Selic e isso aí gera um pouco mais de estabilidade de recursos disponíveis, por isso, acreditamos que o setor deve voltar a crescer em vendas ainda no ano que vem.


