Um dos pais do Plano Real, Pérsio Arida, esteve em Porto Alegre, nesta segunda-feira (23) para rememorar as três décadas da criação da moeda brasileira, em programação da Escola de Negócios da PUCRS. Ex-presidente do Banco Central (BC) e do BNDES, na década de 1990, apesar de abrir o voto em Lula em 2022, o economista continua a não poupar críticas aos governos petistas, aos quais credita a “interrupção de boa parte das funções do Real”.
Na prática, o plano dos planos, como ficou conhecido o modelo monetário implantado em julho de 1994 no país, era uma tentativa que deu certo para enterrar de vez o fantasma da hiperinflação, que então ultrapassava os 45% ao mês e os 1.000% ao ano. Mas tinha — e nenhum de seus criadores esconde — a pretensão de fundar as bases fiscais para uma economia moderna no Brasil.
Para isso, foi necessário fundamentar reformas anteriores e subsequentes. Quebra de monopólios, privatizações e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), para segurar o crescimento das dívidas estaduais, são alguns dos conceitos que emergem deste período. Ali nascia também o respeito pelo chamado tripé macroeconômico, ou seja, câmbio flutuante, taxa de juros perseguindo o sistema de metas e superávit fiscal.
— Era uma batalha de credibilidade para validar o plano e obter a manutenção da inflação baixa no período subsequente — recordou Arida.
"População abraçou"
O convidado desta segunda-feira (23), com um legado na vida pública, na academia e também no setor privado, defende que a contabilidade pública seja regida pelos mesmos princípios da privada e identifica "um interesse muito maior nos 30 anos do Plano Real que nos 10 ou nos 20 anos".
A razão, segundo ele, é a percepção de que o país não caminha no rumo que se deseja, muito em função da polarização política. Em sua avaliação, um sinal de que as coisas não vão bem é que enquanto se debate os trejeitos dos atores políticos e algumas polêmicas, não se consegue discutir sobre um plano de contenção para a crise climática, porque esse nem sequer existe.
E o Real, argumenta, serve de exemplo oposto, ou seja, de um país que combateu um problema. Ao remontar o cenário, Arida situou os diversos planos anteriores e creditou o sucesso do Real a uma espécie de pacto social.
— A população abraçou. Achamos que levaria um ano, mas em três meses todos os contratos estavam em URV — disse.
— É um exemplo de um país que pode dar certo. No mês anterior ao lançamento, a inflação era de 45% ao mês, hoje a gente se pergunta se vai ser 3% ou 4% ao ano. No primeiro ano, sem congelamento de preços, foi para 6% e logo em seguida para 2%, sem gerar desemprego e recessão — comentou, ao rememorar que em 14 anos de governo militar, a inflação saltou de 20% para 200%, em razão de uma tentativa de indexar os preços da economia, reajustando tributos, produtos do mercado financeiro e salários na mesma medida em que a inflação escalonava.
Mas qual o segredo? Segundo ele, politicamente, a corrosão do poder de consumo das famílias contribuiu com a insatisfação da população e, a consequente queda do regime. A percepção era de que a defesa do dinheiro estava associada com a aquisição de bens, a fim de escapar do aumento dos preços.
Na volta da democracia, nas eleições indiretas de 1985, os governantes perceberam, grifa Arida, que quem conseguisse derrubar a inflação estava com as bases políticas feitas. Derrubá-la se tornou imperativo, enquanto não resolvê-la representava uma derrota, salientou o economista.
Ao contrário do congelamento de preços, aplicado sempre que havia algum choque, ou do petróleo, ou do câmbio, e era implantado de surpresa, o Real foi fixado em três etapas, comunicadas com antecedência à população. A primeira envolvia um amplo ajuste fiscal. Em seguida, a mais complexa, dada pela indexação de preços via URV. E, só então, a terceira que era a circulação efetiva da nova moeda.
De acordo com o economista, a figura de Fernando Henrique Cardoso, o quarto ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, que na sequência presidiria o país, teve função crucial nas negociações com o Congresso e no convencimento do Fundo Monetário Internacional (FMI) de chancelar a ideia, após duas décadas de planos econômicos fracassados.
Herança do Cruzado
Durante o Plano Cruzado, a ideia do congelamento de preços e salários se tornou corriqueira. Quando acelerava a inflação, o congelamento ocorria, resumiu Pérsio Arida. Isso fez com que, na avaliação do economista, o imaginário dos vários planos seguintes fosse de tentar corrigir o Cruzado, ou cortando taxa de juro, ou cerceando a liquidez, o que gerou o evento do confisco da poupança, durante o governo Collor.
Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Fazenda, chamou um grupo de liberais do Rio de Janeiro, dedicados a pensar a inflação. Entre eles, estava Arida, que enxergava nas políticas tradicionais, via controle fiscal e taxa de juros, algo insuficiente para ambientes desancorados como os enfrentados pelo Brasil.
A ideia era radical. Em vez de políticas ortodoxas, seria preciso acertar o índice de indexação para que tudo subisse ao mesmo tempo. Era uma espécie de sincronização temporária da economia, para só então lançar uma moeda que pudesse traduzir essa indexação, comparou.
— Quando tudo estiver sob o arcabouço de um único índice, nesse caso a URV, este índice viraria a moeda — sintetizou.
E foi o que aconteceu, em julho de 1994, quando as novas notas de Real começaram a circular, valendo uma URV.
Comparação com a Argentina
Exemplo mais próximo de situação semelhante à enfrentada no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, a Argentina de Javier Milei incorre, avaliou Arida, no erro de querer atacar todas os problemas econômicos de uma só vez. Milei, indicou o economista, tenta produzir reformas e se livrar da moratória internacional enquanto a situação mais grave divide a atenção com outras pautas.
— Reforma trabalhista, administrativa, tributária e outras são importantes para distintas coisas, mas não para controlar a inflação — disse.
Segundo o economista, o fato de o Brasil ter restringido as ações iniciais unicamente ao controle da inflação foi o diferencial responsável pelo sucesso do Plano Real, que, ainda hoje, garante a estabilidade dos preços na economia nacional, apesar de outras questões permanecerem em aberto, acrescentou.





