O fundador e representante da Associação Gaúcha para Desenvolvimento do Varejo (AGV), Vilson Noer, e o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre, Írio Piva, debateram a situação do varejo em meio à pandemia de coronavírus e as alternativas para sobreviver à crise na segunda edição do Painel Atualidade, realizado na Rádio Gaúcha, nesta quarta-feira (22).
No quadro, também estimaram quando o cenário adverso será superado e destacaram quais empresários conseguirão se destacar no processo de retomada, garantindo a viabilidade do negócio.
Nas quartas-feiras, apresentadores da emissora vão ouvir representantes de setores econômicos para provocar o debate e estimular a busca por alternativas para a diminuição do impacto negativo causado pela pandemia na economia do Rio Grande do Sul.
O que é o Painel Atualidade?
Trata-se de um novo quadro semanal dentro do Gaúcha Atualidade, que pretende provocar o debate e estimular a busca por alternativas que ajudem a minimizar o impacto negativo da crise do coronavírus na economia do Rio Grande do Sul. A iniciativa faz parte do projeto de Jornalismo de Soluções proposto pelo Grupo RBS, que busca o debate para enfrentar e resolver os problemas diagnosticados.
Com mais de cinco décadas de atuação no mercado, a CDL Porto Alegre busca contribuir para o crescimento das associadas por meio de soluções “focadas, especialmente, em gestão financeira”.
Fundada em 2012, a AGV informa que nasceu com o propósito de defender e ajudar na condução das entidades regionais. A associação está presente em 130 municípios.
Novos hábitos de consumo
— Os hábitos vão acabar impactando muito no consumo, principalmente na questão da racionalidade. As pessoas vão comprar menos, vão comprar de forma mais cuidadosa. O tráfego e o movimento do varejo antes da covid já vinham sofrendo percalços em função do desemprego, da queda da renda. A gente não pode falar só da covid. Também já vinham consequências da pré-covid. Neste momento, temos de nos preparar muito para essa questão de que teremos um tráfego menor nos shoppings centers ou mesmo na rua, vamos ter uma renda mais baixa. Estamos entrando em um processo não de transformação digital, mas sim de confirmação digital — destacou Noer.
Consumo na internet
— É um hábito que certamente vai mudar. Hoje, o Brasil, na média, vende 5,8% pela internet. A tendência, em cima dessa mudança de hábito, é chegar no final de dezembro em torno de 10% de compras pela internet. A gente percebe claramente que quem agiu rápido, pensou rápido e teve agilidade de pensar praticamente fez uma startup dentro da sua empresa. A pergunta que você tem de fazer para si e para seus colaboradores é se seu modelo atual ainda é viável no futuro. Certamente a resposta será não. Então, você tem de pensar de forma diferente, criar uma empresa quase emergente para que possa atender dentro dessa análise de consumidor que estamos fazendo, de aumento de consumo digital e de uma percepção econômica que teremos no futuro — disse Noer.
Consumo consciente
— A gente está tendo uma aceleração muito grande em todas aquelas coisas que as pessoas já vinham pensando. Então, o consumo consciente é algo que já vinha tomando a mente das pessoas, principalmente daquelas pessoas mais esclarecidas. Como estamos vivendo um processo de aceleração neste momento, acredito, inclusive, na aceleração muito forte desse consumo consciente. Um consumidor muito mais cauteloso, muito mais racional no sentido de querer entender aquilo que ele está consumindo, inclusive a origem, onde o produto foi produzido, que tipo de matéria-prima, como a mão de obra que produziu aquele produto foi alocada. Nessa ideia de as pessoas estarem se tornando mais solidárias, elas estão se tornando também muito mais conscientes — avalia Piva.
— A empresa precisa buscar uma identidade original, criar uma cultura de fazer pensar, com toda a sua equipe, uma nova cara de empresa. O que é essa nova cara de empresa? É apenas ser uma empresa? Um produto? Um serviço como se tem hoje? Não. Isso não bastará. A transformação tem que ser quase radical. É quase disruptiva. Você tem que ser a empresa, ser o produto, ser o serviço diante do mercado. Se você não criar esse posicionamento dentro de uma proposta ou de um propósito de sustentabilidade, de cuidados com a natureza e de preservação de modo geral, você não terá uma identidade original para aquilo que estamos percebendo que o consumidor quer — destacou o fundador da AGV.
Duração da corrida pela recuperação
— Enquanto não tivermos vacina, enquanto não tivermos remédios absolutamente seguros para que a gente possa combater esse vírus, vamos ter muita dificuldade. Estou falando de 2020. Acredito que, a partir de 2021, estaremos partindo para a recuperação, mas a recuperação do prejuízo de 2020. É muito difícil o varejo dar resultado em 2020. A partir de 2021, poderá redirecionar dentro desse modelo de uma empresa disruptiva, de uma empresa diferente — afirmou Noer.
— Para aquele empresário que está enfrentando um momento extremamente difícil, que está pensando em parar, em desistir, queria dizer para que não desistam, não desanimem, porque as pessoas vão continuar consumindo, comendo, se vestindo, passeando. O que entendo é que depois dessa crise, que eu imagino que é lá por 2021, o setor produtivo será totalmente transformado. A crise vai passar em momentos diferentes para empresas diferentes. Vai depender muito da capacidade que cada um de nós tem de se adaptar neste novo momento — disse Piva.
Consumo local
— Tem muito essa coisa de se voltar para o local. Quando eu digo local não é só consumir da loja que está na esquina, mas é o turismo dentro do país. A cabeça das pessoas está sendo transformada — destaca Piva.
Ideia para enfrentar a crise
— O varejo exige agora muita solidariedade das pessoas. Nessa direção, de novo, enfoco na importância do líder, que faça um engajamento cada vez maior da sua equipe com os objetivos da empresa para alcançar desempenhos que consigam trabalhar o ponto de equilíbrio, porque as despesas precisam ser cobertas única e exclusivamente com vendas. O que puder fazer de vendas através dos mecanismos disponíveis, um televendas, a gente consegue vender muito pelo telefone, fazer um carinho com seu cliente é muito importante. O WhatsApp é uma ferramenta fantástica. Avançar nessa questão da tecnologia como ferramenta acho que é fundamental — aconselhou Noer.
— Primeiro é entender este novo momento e ter capacidade de aceitar as mudanças e implementar de maneira muito rápida. Não dá para ficar esperando, porque aqueles que efetivamente conseguirem entender e se adaptar a esse novo momento e agir nesse sentido são os que vão sair na frente com certeza. Não é momento de desistir. É momento de acreditar. Os fortes, não só os que têm condições financeiras, mas os resilientes vão acabar saindo melhor ali na frente. Isso tudo é um anticorpo que estamos adquirindo — pontuou Piva.
