
Basta você ter dado uma volta por Buenos Aires ou visitado os argentinos em Porto Alegre na semana passada. Ao compartilhar um mate e assuntar sobre política, sobressaem amargas convicções. Os dois episódios da História que eles mais abominam são, nesta ordem: 1) o regime militar (1976-1983), que deixou 30 mil mortos desde antes do golpe em si, com o advento da Triple A sob os auspícios do "brujo" López Rega em 1974; 2) a década em que o presidente Carlos Menem (1989-1999) lançou o Plano de Conversibilidade, pelo qual a lei impunha que um peso valia um dólar à custa da dívida projetada geometricamente - ressalve-se que há quem se empanturrou com pizza e champanhe e sinta saudade disso.
Pois o kirchnerismo, que assumiu o país em 2003 com Néstor Kirchner e que segue no poder com sua mulher, Cristina, tem, entre notórios equívocos, méritos que o mais empedernido opositor reconhece. Não deu trégua a repressores e negociou a dívida com os credores para livrar o país do calote, em 2005 e 2010, ensaiando a volta ao cenário internacional. Dívida, aliás, que muitos consideram turbinada já na ditadura.
Contexto dificulta uma ajuda externa
Daí se entende por que os argentinos, mesmo vociferando que dívidas devem ser pagas, fazem coro pela negociação. Sem isso, acreditam, o destino do país é o calote. Mas, como não existe falência de uma nação, a primeira ideia é a de que a ajuda chegará. Aí, pensam: de onde? O Brasil, com a presidente envolvida numa eleição renhida, aplicaria dinheiro em outro país? Difícil. A Venezuela, dependente do petróleo em baixa e em meio ao desabastecimento de um terço da cesta básica? Inviável. Os Estados Unidos, preocupados com o Iraque? Improvável.
Pesquisa do instituto Ibarómetro mostra: 55% dos argentinos estão irados com a decisão da Justiça americana que deu razão aos "abutres" e ao chamado "capitalismo de rapina". É evidente que os 93% dos credores que aceitaram um acordo com o governo em 2005 e 2010 não o fizeram por caridade. Divisavam ganhos polpudos. Aliás, esses fundos especulativos compram títulos com desconto porque sabem do risco. Certamente, com ou sem acordo, saem ganhando.
Quem são os 7% que não abrem mão de receber 100% da dívida, situação com potencial para inviabilizar a Argentina? São os chamados "fundos abutres", que compraram dívidas não honradas por preços baixos, para depois cobrar o valor integral. No dia 16, um grupo venceu disputa com o governo na Suprema Corte dos EUA. Pela decisão, a Argentina tem de pagar o valor integral, juros e multas. Estrago de US$ 1,3 bilhão. Mas pode ser pior. Na negociação com os credores que aderiram à renegociação, ficou estabelecido, contratualmente: se fosse pago valor maior a alguém até o final do ano, seria estendido aos que negociaram. E a decisão da Justiça americana pode se estender a quem topou receber em valores menores, lá em 2005 e 2010. Isso elevaria o desembolso a ser feito pela Argentina a US$ 15 bilhões, algo que esvazia o cofre das reservas em moeda estrangeira, de US$ 28 bilhões.
Prazo vence nesta segunda-feira
A armadilha tem de ser desativada até esta segunda-feira. É quando vence parcela das dívidas reestruturadas com 93% dos credores e também o prazo para pagar os "abutres". Na quinta-feira, a Argentina depositou cerca de
US$ 1 bilhão para honrar o pagamento aos credores que aceitaram a renegociação. No dia seguinte, estava criado o impasse: o juiz Thomas Griesa declarou o pagamento "ilegal" e exigiu quitação da pendência com os "holdouts" (que não aderiram, os "abutres").
- A reação governamental manteve a estratégia tradicional: rejeita negociar com os "abutres" e desqualifica a Justiça americana. O discurso busca inflamar paixões nacionalistas, é pátria ou abutres. Muitos já comparam com a Guerra das Malvinas - diz o historiador argentino Carlos Malamud.
A oposição, seja a direita de Mauricio Macri (prefeito de Buenos Aires) ou a esquerda do cineasta Fernando Solanas, dá respaldo ao governo. Os motivos são de lógica, uma vez que a dívida não nasceu agora. E de ordem prática: em 2015, haverá eleições presidenciais, com favoritismo da oposição. Cristina não conseguiu aprovar a segunda reeleição e, centralizadora, tolheu outros líderes. Caberá a um opositor segurar a onda do país depenado. É a voz do povo e do dinheiro. A opção que surge para empurrar a situação até dezembro é uma triangulação com os "holdouts". Bancos comprariam novos bônus argentino. Os "benfeitores" escalados para a tarefa altamente rentável (o percentual sobre a operação seria altíssimo). Dois deles são o Goldman Sachs e o Bank of America Merril Lynch.
