Na era das redes sociais, quem trabalha com venda de imóveis em Porto Alegre e busca um diferencial no mercado tem aproveitado uma tendência para chamar a atenção de compradores: o uso de vídeos curtos e atrativos, com tour em casas e apartamentos, publicados nos feeds.
No TikTok e no Instagram, esse recurso tem mudado o modo como as pessoas descobrem e acessam as opções disponíveis, escolhendo com quem negociar e facilitando o match entre as partes envolvidas no processo de compra de imóvel.
Seguindo a lógica de oferecer conteúdos buscados pelo usuário, o algoritmo faz parte do trabalho: ele entrega publicações antes mesmo de o cliente ter feito contato formal com uma imobiliária. Sem precisar percorrer listas e aplicar os filtros de sites especializados, os imóveis chegam à tela do celular com um clique — ou uma rolagem.
Foi dessa forma que a corretora Verônica Kreitchmann, 32 anos, conhecida pelo bordão: "olha essa oportunidade!", foi parar nos telefones da gerente de produtos Ana Cláudia Castro de Oliveira, 37, e da servidora pública Amanda Mattioni Prado, 35.
As duas relatam que a busca por um apartamento ganhou ritmo quando passaram a seguir profissionais que apresentam imóveis em vídeo. O conteúdo nas redes foi o ponto de partida para chegar à compra.
— Quando a gente começa a procurar um imóvel, as propagandas começam a aparecer no feed. Na prática, é muito mais fácil ver tudo pelo vídeo do que entrar no site, fazer filtros e abrir anúncio por anúncio. Isso acaba otimizando muito o tempo — avalia Ana Cláudia.
A forma como o vídeo antecipa a experiência de visita ao imóvel economiza tempo. São mostrados ângulos, luz, vista e até detalhes de localização que muitas vezes não aparecem com clareza nos anúncios mais tradicionais.
— Os vídeos são muito bem feitos. Mostram o imóvel com boa iluminação, bons ângulos, sabe? Dá para ter uma noção bem clara de como é de verdade — diz Amanda.
"Trabalho somente com vídeos", diz corretora
Verônica começou no mercado imobiliário há cerca de três anos. Ela diz que, nos últimos dois e meio, viu o perfil "em constante crescimento nas redes sociais".
Vinculada a uma franquia de uma corretora da capital, ela conta que decidiu procurar um caminho próprio para se destacar:
— Eu sempre gostei de fazer as coisas de um jeito diferente e quis me diferenciar daquilo que o mercado oferecia na época.
Sem equipe, ela estima cerca de 30 minutos para gravar cada apartamento e explica que mantém um padrão para evitar queda de visualizações. O bordão, por exemplo, virou parte do que chama de "contrato" com a audiência.
— Se eu posto algum imóvel sem o meu bordão, as pessoas já comentam: "Cadê o teu bordão?". Elas cobram mesmo. E, por dia, eu recebo umas 500, 600 pessoas entrando em contato comigo. É muita gente — celebra.
Clientes chegam pelos vídeos
Verônica relata que, hoje, a maioria dos clientes chega por vídeo. Ela também descreve um alcance que extrapola o Rio Grande do Sul, com mensagens de vários Estados e até de fora do país.
— Já teve gente do Acre me mandando mensagem… e agora eu estou fechando uma venda com um cliente que mora nos Estados Unidos — afirma.
Vender "só pelo vídeo", no entanto, ainda não é a regra, segundo ela. A compra à distância esbarra em insegurança e na necessidade de conhecer bairro e entorno.

Mesmo assim, quando o vídeo acerta o alvo, o efeito pode ser imediato.
— Teve um apartamento com vista para a Catedral, na Duque, que postei num dia e, na manhã seguinte, já tinha pedido de 18 visitas. Vendi para a primeira cliente: o imóvel não chegou a ficar 24 horas ativo no sistema. Ela disse: "É meu. Eu não quero que tu mostre para mais ninguém" — conta.
Aposta em conteúdo "diferente"
A percepção de que apenas a divulgação tradicional não dá conta de atrair atenção também é a visão de Rodrigo Coelho Lima, 38 anos, arquiteto e dono da Coelho Lima Imóveis.
Ele tem uma empresa de arquitetura há 10 anos e criou a imobiliária há pouco mais de um. Para ele, o impulso de produzir conteúdo veio do incômodo com o jeito "engessado" do setor.
— A gente percebe que o mercado é meio engessado, e a divulgação também acaba sendo. Então eu tento sempre fazer alguma coisa diferente — afirma.
Rodrigo diz que roteiriza, grava e edita os próprios vídeos e compara o comportamento das plataformas. Para ele, o ganho do vídeo está em antecipar uma experiência que, antes, só existia na visita presencial.
— O TikTok, especificamente, me parece mais "inteligente" do que o Instagram. Ele consegue identificar o que as pessoas já estão buscando. E, na rede social, tu já consegue se imaginar morando ali: é como visitar o apartamento sem sair de casa — comenta.
"Poupar etapas"
Para Amanda, o vídeo serviu como filtro para poupar etapas. Ela afirma que buscava o máximo de informação possível antes de marcar visita.
No caso do apartamento que comprou, o conteúdo ajudou a formar uma imagem mais "real" do imóvel em relação ao que costuma aparecer em anúncios com fotos mal iluminadas.
— Enquanto eu procurava por um apartamento, eu prezava pelo máximo de informações possível, justamente para já me poupar etapas. Lembro que ela falava até que ia abrir um supermercado na frente e isso acabou me interessando — relembra.
Após acompanhar os vídeos, a servidora pública entrou em contato com Verônica, agendou a visita e afirmou que a apresentação prévia ajudou a encurtar a decisão de fechar negócio.
Ana Cláudia, por sua vez, diz que o algoritmo sugeriu o perfil da corretora enquanto ela buscava apartamento no bairro Bom Fim.
A gerente de produtos conta que chegou a visitar três imóveis no mesmo dia no início da busca, mas que o processo de compra levou meses, com idas e vindas, até aparecer uma opção que atendesse aos critérios.
— Eu passei a ter muito mais clareza sobre os critérios que eu queria e, principalmente, sobre o que eu poderia abrir mão, e o que eu não abria de jeito nenhum — relata.
O desfecho veio em 18 de dezembro de 2025. Foi quando, segundo Ana, Verônica avisou que surgiria um imóvel que "atendia praticamente todos os requisitos" e perguntou se ela conseguia visitar no mesmo dia. À noite, veio a resposta da negociação.
— A primeira pergunta que ela me fez foi: "Tem um espumante aí?"… E logo em seguida veio a confirmação: "Deu tudo certo. O apartamento é seu" — conta Ana.
"Corretor influencer"
A movimentação é acompanhada por empresas do setor. Para Alejandro Abiusi, diretor de marketing, estratégia e inovação da Construtora Tenda, a dinâmica do "corretor influencer" já virou realidade no mercado e ajuda a aproximar a comunicação do público.
— Ao divulgar empreendimentos ou condições comerciais nas suas próprias redes sociais, os corretores conseguem personificar a mensagem, falar uma linguagem mais próxima dos clientes, que eles conhecem melhor do que ninguém — afirma.
A popularização desse tipo de conteúdo não significa, no entanto, que o mercado inteiro tenha mudado de forma homogênea.
Segundo Daniel Claudino, especialista em mercado imobiliário, o peso do vídeo curto varia conforme faixa etária, perfil econômico e padrão do imóvel.
— Essa "virada" existe no mercado, mas não acontece do mesmo jeito em todos os segmentos. Ela aparece com mais força entre o público de 20 a 55 anos e em imóveis de classe média, média alta e alto padrão. No mercado de luxo, por exemplo, esse movimento tende a ser menor e mais personalizado — explica.
Para quem produz esse tipo de conteúdo, o desafio começa em vencer a barreira dos primeiros segundos e segurar a atenção.
Claudino avalia que o que funciona melhor é uma combinação entre contexto e informação. Para ele, uma boa prática é tratar o vídeo como narrativa.
— Em vez de só descrever características, o corretor precisa contar a experiência de ocupar aquele espaço. Quando o vídeo vira apenas uma lista de itens, ele fica com cara de catálogo frio; já quando constrói uma mini-história, o imóvel começa a ganhar vida. A compra raramente acontece "na mídia", mas o vídeo influencia a escolha do profissional e do imóvel que entrará na lista de visitas — afirma.





