
Considerada o segundo melhor destino turístico da América Latina pelo site TripAdvisor, Gramado recebeu em 2024 mais de 8 milhões de turistas. Conforme a prefeitura da cidade, 90% da economia do município é proveniente do fluxo turístico. Entre os motivos que levam milhares de pessoas de todas as idades a visitar a cidade da serra gaúcha estão o clima mais ameno, a gastronomia e a arquitetura com inspiração europeia.
Para preservar sua identidade cultural, Gramado quer regulamentar seu estilo arquitetônico, que utiliza materiais de madeira e pedra na maioria de seus empreendimentos. O arquiteto e sócio da Ownerinc, Jeferson Zatti, é um gramadense que possui forte ligação com a cidade e, por esse motivo, entende a importância que a tradição tem não apenas para seus moradores, mas também para os turistas.
Em entrevista, Zatti explica sua relação com Gramado, como ele preserva a tradição arquitetônica sem deixar a inovação de lado e apresenta o Own Time Home Club Gramado, um condomínio de casas e apartamentos, imersos na natureza e a dois minutos da rua coberta de Gramado. O empreendimento oferece uma estrutura de alto padrão, onde é possível adquirir um imóvel conforme a necessidade de uso e compartilhar os custos com outros proprietários. Uma forma inteligente de viver Gramado.
Suas raízes estão diretamente ligadas à história de Gramado. Como é carregar o sobrenome de uma família que ajudou a fundar a cidade, e de que forma essa origem influenciou seu olhar sobre o lugar?
Gramado tem uma história bastante recente, por isso está ligação com aqueles que iniciaram esta história ainda é muito forte. Meus bisavós, assim como o de outras famílias, migraram para a cidade no final do século XIX e começaram a construir tudo isso que vemos hoje, enfrentando todos os tipos de dificuldades que se pode imaginar. Como um conhecedor desta história e tendo crescido ouvindo os relatos do meu pai e avós, não teria como não dar o máximo valor para o que construíram, o que também deixa uma grande responsabilidade para a preservação desta memória e para a preservação das características que fizeram esta cidade tão especial. É com este olhar, de amor e comprometimento, que encaro os desafios diários por aqui.
Quais elementos da essência local devem ser preservados — e o que pode (ou precisa) se transformar com o tempo?
Em virtude de todo seu sucesso turístico, Gramado vem se transformando com grande velocidade, principalmente nos últimos 20 anos. Como não poderia ser diferente, com a prosperidade econômica também vêm os desafios, que vão desde a infraestrutura até questões menos palpáveis, como a hospitalidade. Esta característica é fundamental e não pode ser perdida, ainda mais em uma cidade como a nossa, que depende do turismo. A arte de receber bem, do acolhimento, da boa educação é um dos maiores ativos que possuímos e não pode ser perdido.
Outras características mais concretas e não menos importantes também são fundamentais que sejam preservadas: nossas paisagens naturais e nossa paisagem construída, em outras palavras, nossa arquitetura. Sem dúvida é um dos grandes diferenciais de Gramado, reconhecida tanto pelos moradores quanto pelos turistas.
Por outro lado, a cidade tem muitos desafios pela frente que precisam de atenção porque estão colocando em cheque a qualidade de vida do morador e a experiência do turista, como melhorias na infraestrutura, saneamento básico e mobilidade urbana. Temos um passivo de décadas com muito pouco investimento nestas áreas e precisamos correr atrás, são obras necessárias que precisam urgentemente sair do papel.
A arquitetura tem papel fundamental na identidade de uma cidade. Como o seu trabalho busca traduzir a alma de Gramado?
-Arquitetura é uma atividade que exige do profissional um olhar macro, mais amplo, que extrapola os limites do terreno que irá receber a edificação. O arquiteto precisa ter a compreensão que aquele prédio vai ficar lá por décadas e vai impactar a vida não só daqueles que vão utilizá-lo diretamente, mas de toda cidade. Quando se fala em arquitetura em Gramado este desafio é maior ainda, pois, nossa arquitetura já faz parte do imaginário do morador e do turista, então o compromisso é muito maior.
Ao mesmo tempo que deve existir esta preocupação, existe a realidade do mercado, que cada vez mais exige a criatividade do profissional para atender as novas tendências e demandas. Eu procuro ter muito respeito pelo entorno e pelas características que nos destacam, mas entendo também que é possível conciliar isto com novas tendências e tecnologias. Também faz parte do papel do arquiteto propor inovações, afinal a arquitetura também precisa evoluir.
O empreendimento Own Time nasce como uma síntese dessa visão: o encontro entre tempo, pertencimento e arquitetura. Como esse projeto expressa a conexão entre tradição e modernidade?
Quando concebemos o Own Time imaginamos exatamente isso, uma arquitetura que remetesse às nossas raízes, às montanhas, ao frio, à integração com a natureza, mas que, por outro lado, fugisse do comum. Se por um lado utilizamos materiais consagrados da nossa arquitetura como pedra e madeira, por outro utilizamos materiais contemporâneos como o aço e o vidro.
Na forma também procuramos fugir do convencional e isto fica bem evidente na concepção dos telhados: são os elementos mais marcantes na nossa arquitetura, porém, neste projeto utilizamos telhados com baixa inclinação e grandes balanços, trazendo leveza e um ar mais contemporâneo ao conjunto.
Acredito que o resultado que atingimos se tornará um marco arquitetônico na cidade, pela qualidade do projeto, pela qualidade da obra e obviamente pela localização ímpar do empreendimento, que fica a 250 metros da Rua Coberta de Gramado.
Olhando para o futuro, como você imagina o desenvolvimento de Gramado nos próximos anos — e qual o papel da arquitetura na preservação dessa herança?
Gramado, como um “case” de sucesso, irá crescer e expandir, como vem acontecendo nos últimos anos. Esse crescimento acontece naturalmente e é fruto do sucesso da cidade. Gramado atrai muita gente em busca de qualidade de vida e oportunidades e isto traz desafios. Em 2017, quando fui secretário de Planejamento, iniciei um processo de planejamento estratégico e urbanístico a longo prazo, o que culminou em 2019 com a Agenda Estratégica e Plano de Mobilidade Urbana e, mais recentemente, em 2022, com a revisão do Plano Diretor.
Ainda em 2025, ou início de 2026 será finalizada uma lei específica que regrará o regime urbanístico numa área de 900 hectares ao norte do centro de Gramado onde foi feita a expansão do perímetro urbano prevista no novo Plano Diretor, ou seja, o planejamento existe e ele está sendo constantemente aperfeiçoado. Por isso, se temos de crescer, que cresçamos de forma sustentável.
A arquitetura e o arquiteto têm papel preponderante neste desenvolvimento, desde a escala macro (planejamento urbanístico) até a pequena escala arquitetônica, cujo papel de preservação de nossas raízes é fundamental. Nossa paisagem construída é tão importante quanto nossa paisagem natural e se consolidou como um grande diferencial da nossa cidade, para o turista e principalmente para o gramadense.





