São oito horas da noite, os portões estão fechados e ninguém mais entra no parque da Expointer. Mas para quem fica, uma outra feira se revela. É a hora do descanso, da prosa e dos ajustes na lida. Mas também da festa, dos encontros e dos causos do dia.
A noite é de contrastes no parque Assis Brasil, em Esteio, onde se instala uma das maiores feiras do agronegócio na América Latina. Depois de receber milhares de visitantes ao longo do dia, o parque se volta para os serviços que não param.
Do cabanheiro que não dorme ao segurança que vigia, muita gente vive o contraturno da feira como jornada de trabalho. Outros vão embora só quando o baile termina.

Na folga dos bichos, a troca de guarda dos cabanheiros
No pavilhão do gado de corte, por exemplo, onde os animais da elite pecuária exibem o melhor de sua genética, o cair da noite é de descanso. Mais para os bichos do que para os seus cuidadores. Para quem segue na lida, é o momento de deixar a baia limpa, de dar um trato na tosquia e de acomodar os animais depois de um dia intenso de visitas.
Diego de Matos, 44 anos, é o responsável pelos bichos da Reserva do Cambará, de Guaíba. Nem enquanto fala com a reportagem o cabanheiro tira os olhos dos três machos e das três fêmeas da raça braford que ficam sob sua guarda.
É só quando chega o plantonista que lhe rende, por volta das 23h, que a tarefa dá uma folga. Antes disso, quando a feira fecha e o movimento entre as baias diminui, o profissional se dedica a abastecer o feno no cocho e a ajeitar a cama de palha dos animais, sempre checando se está tudo bem.
— Vai baixando o movimento, os bichos vão se acalmando, e uma certa hora da noite o silêncio chega — diz Matos.
Depois das baias, o cabanheiro encerra a noite em um dos alojamentos de trabalhadores, montados especialmente para os que ficam no parque. No maior deles, são 32 quartos masculinos e 17 femininos. Cada um com cinco camas, além de banheiro com espaço para banho.
Cerca de 450 pessoas se mudam para o parque no período da feira, de peões a servidores do Serviço Veterinário Oficial. Além deles, outros 4 mil trabalham em serviços de manutenção, reparos, limpeza e outras atividades gerais para manter o parque em pé.

"Aqui é bom demais": jantar na baia e conversa fora
O fechamento dos portões, para quem fica no parque, chega também como momento de lazer. É quando os trabalhadores assam um churrasco, fazem videochamada com a família, relaxam e ouvem música. Uma rotina digna de quem se muda para Esteio especialmente para a feira.
Alguns preferem jantar na própria baia, junto aos animais. Outros comem pelo parque. A "boia de sal" é a típica comida de gaúcho: arroz com linguiça, carne de churrasco e carreteiro.
Foi na Expointer que o cabanheiro Fábio Fernandes, 60 anos, natural de Fortaleza (CE), diz ter encontrado a melhor feira para trabalhar. Ancorado há 12 anos em Santa Catarina, veio a Esteio a serviço da Fazenda São Donato, de Urussanga. Sob os seus cuidados, ficam os touros da raça tabapuã.
Fernandes diz que os colegas cabanheiros se ajudam o tempo todo. Mesmo que os animais pareçam tranquilos, não se pode descuidar. Os touros podem brigar ou machucar um visitante mais atrevido com um movimento brusco. Mesmo à noite, não podem ficar só, e quem fica para cuidá-los não pode dormir.
O clima durante a feira é de interação entre os trabalhadores, que viram amigos. Há gente de todos os cantos que só se encontra uma vez ao ano, justamente na Expointer. É a chance de colocar o assunto em dia. Mais na volta dos bichos do que nos alojamentos.
O pessoal chega já cansado, então é deitar e dormir. Mas aqui é bom demais. Foi o melhor lugar que eu encontrei para trabalhar. Todo mundo é amigo. Um limpa aqui, outro limpa ali. Aqui é uma cidade.
FÁBIO FERNANDES
Cabanheiro da Fazenda São Donato.
Prosa e festa até o último causo
Enquanto um trote gauchesco estronda nas caixinhas — a "bagualada" também tem as suas modernidades —, o carreteiro fumega no fogo. No entorno da panela e da prosa, os amigos de Expointer aproveitam para se atualizar e comentar os causos da feira.
— A todo momento tem encontro. Só quando tá muito pesada a lida que a gente não proseia. Quando vai acalmando, os bichos já deitados, é a hora do chimarrão. Bom para contar uns causos — diz Diego de Matos, da cabanha Reserva do Cambará.
Na parte do parque em que o agito se estende, churrascos, remates e eventos fechados vão noite adentro. Para muitos, é quando o baile começa.
A noite na Expointer também é ocasião para celebrações de entidades, associações de raças e marcas expositoras. É nas casas das empresas, fixas no parque, que muitas festas acontecem.
Só depois que o som baixa e o silêncio se espalha é que o parque ganha ares de fim de festa. Em poucas horas, já tem outra alvorada e mais lida por vir.

