Para muita gente, do campo ou da cidade, transitar entre as grandes máquinas que ocupam feiras do porte da Expointer significa o contato com tecnologias inéditas. Tamanho robusto, cabine equipada e operação digital estão entre os pontos que mais chamam a atenção do público, ainda que boa parte da inovação embarcada não seja visível a olho nu.
Muito antes do estande, o projeto de uma tecnologia agrícola pode levar anos para chegar ao mercado e mobilizar centenas de profissionais durante o desenvolvimento. Times de engenharia cada vez mais especializados e atentos às demandas dos produtores estão por trás de cada lançamento que chega aos eventos.
Aumento de produtividade, redução de perdas, eficiência operacional, sustentabilidade e uso inteligente de dados estão entre as frentes priorizadas pelas equipes. Mas nem sempre essas foram as principais urgências.
O conforto e a qualidade viram a base de qualquer grande máquina. Hoje, o foco aponta para a melhor gestão dos recursos disponíveis. Com a tecnologia em mãos, o produtor torna-se um operador de comando.
— Mais do que agricultores, são empresários agrícolas — diz Cristiano Conti, gerente de Marketing Tático da Case IH.
Informação que vem do campo
A participação dos produtores rurais é fundamental no desenvolvimento das máquinas; afinal, é das necessidades do campo que surgem as tecnologias. São as informações coletadas diretamente de quem produz que indicam pontos de melhoria e utilidades práticas a serem sempre implementadas.
— O desenvolvimento é muito balizado pela necessidade dos agricultores. A primeira demanda foi a de mais conforto — ou seja, que, além da produtividade, fosse fácil trabalhar. Hoje, estamos na era da automação, em que o produtor busca ganho operacional para ser mais eficiente, gastar menos e economizar — diz Conti.
Da mesma forma, a performance das grandes máquinas é constantemente monitorada. Depois de colocadas no campo, as tecnologias em funcionamento são analisadas para aperfeiçoar desempenhos e realizar ajustes.
IA acelera desenvolvimento
A evolução das máquinas acompanhou a transformação do próprio agronegócio. Se, antes, mecanizar tarefas braçais era o suficiente, hoje, fazer com que os equipamentos ajam por si próprios é uma tendência.
Enquanto a demanda mundial por tecnologia se torna mais urgente, as soluções que aceleram o seu desenvolvimento ganham espaço. Entre elas, a inteligência artificial, que otimiza a rapidez dos projetos. Nos ambientes virtuais, é possível testar possibilidades antes mesmo dos primeiros protótipos. Isso permite avaliar o comportamento das máquinas em diferentes situações.
Marcelo Faleiro, gerente sênior de engenharia da AGCO, e Alberto Hoher Júnior, diretor de engenharia de colheitadeiras da AGCO — grupo dono das marcas Massey Ferguson, Valtra e Fendt — detalham o que existe por baixo de cada capô.
— Pegamos as necessidades do produtor e desenvolvemos a forma de entregá-las. Às vezes, ele quer uma cabine mais confortável, e isso passa por menos ruído... Hoje, a máquina é projetada em ambientes onde é possível prever até questões de solo. Depois, testes acelerados permitem antecipar eventuais problemas. A IA ajuda com informações, mas o conhecimento do engenheiro ainda é o principal — diz Faleiro.
A engenharia brasileira tem se consolidado nos últimos anos como um polo de desenvolvimento tecnológico. Grande fabricantes têm seus centros de pesquisa instalados no país, inclusive no Rio Grande do Sul, como é o caso da Massey Ferguson. Do centro de pesquisa em Ibirubá, por exemplo, saem tecnologias agrícolas que são exportadas para o mundo todo.
As companhias entendem que ainda há bastante tecnologia para se desenvolver. Sobretudo as que permitem ler melhor os cenários do campo em meio as adversidades no clima. A autonomia total dessas máquinas, sendo elas apenas gerenciadas à distância pelos produtores, é o que deve desenhar a agricultura do futuro.
Cristiano Correia, vice-presidente de Sistemas de Produção da John Deere para a América Latina, lembra que pesquisas apontam a escassez de mão de obra como a maior preocupação dos produtores. Por isso, a fabricante tem trabalhado fortemente para desenvolver autonomia aplicada aos mais diversos sistemas de produção. Um investimento de R$ 75 milhões foi direcionado para a produção de componentes eletrônicos na unidade de Canoas, na Região Metropolitana.
— É um fenômeno global. E essa é a nossa estrela guia: trazer autonomia — diz Correia.

