
Na banca 231 do Pavilhão da Agricultura Familiar, na Expointer, em Esteio, os atendentes alertam cada visitante disposto a experimentar o licor de tom âmbar escuro:
— Não tome direto. Faça um bochecho primeiro, depois engula.
Assim que o líquido desce pela garganta, as reações variam: alguns arregalam os olhos, outros abanam a boca com a mão. O motivo está na composição da bebida oferecida pela primeira vez pela destilaria L'Onore, sob uma placa provocativa: “Venha provar o pior licor do mundo”.
A fórmula leva doses milimetricamente calculadas de grapa, urtiga, pimenta, jambu e bugre — também conhecido como aroeira-brava.
— Se tomar direto, é capaz de adormecer a garganta. Alivia até dor de dente e ativa as papilas gustativas. Faz a língua estalar — garante o produtor rural Anderson Marostica, que lança a bebida nesta edição da feira.
E faz mesmo. Impulsionada pelo jambu, de origem amazônica, uma pequena dose provoca intensa sensação de formigamento e dormência na boca. Apesar do epíteto de “pior licor do mundo” — mais uma estratégia de marketing do que uma descrição literal —, o sabor é suave e pouco alcoólico.
O técnico metalúrgico Tiago Pereira da Silva, 41 anos, ficou curioso ao ver a placa autodepreciativa. Pediu um gole, seguiu as instruções e, após chacoalhar o licor entre as bochechas por cinco segundos, engoliu de uma vez:
— É muito diferente. Parece que meu lábio está tremendo — espantou-se.

Segundo Marostica, a invenção remete a uma antiga tradição familiar. A família trocou o norte da Itália por Nova Pádua há quatro gerações.
— Naquele tempo, na colônia, não havia farmácia. Uma vez, tirei um dente, a gengiva inflamou, e meu avô me deu uma bebida para anestesiar — recorda.
Quando o avô morreu, no início deste ano, a família encontrou uma garrafa misteriosa entre os pertences. Marostica provou e reconheceu o sabor da infância. Mandou uma amostra para análise em um laboratório em São Paulo, anotou as proporções de grapa, pimenta, urtiga e aroeira, incluiu o jambu para “prolongar o efeito anestésico” e lançou na Expointer as garrafas de 750 ml, vendidas a R$ 130, com o nome de Sensations.
— É resultado de uma tradição microrregional dos primeiros colonos italianos que foram para lá — afirma.

Neste domingo (31), milhares de visitantes lotaram o parque, causando congestionamentos nos acessos e enchendo o pavilhão familiar em busca de produtos tradicionais e novidades como o licor de urtiga.
Esta edição da feira reúne um número recorde de 456 expositores familiares de todas as regiões do Estado.

Para quem prefere experiências menos radicais, há outras atrações recém-lançadas, como licor de quindim, mel composto com nozes e um inusitado iogurte de rosas.
— Procuramos por todo o mundo para saber se alguém fazia iogurte de rosas. O mais próximo que encontramos foi na Índia. Mas eles usam essência, e nós usamos geleia de rosas. Não é a mesma coisa — explica Thiago Benetti, sócio do Laticínio Benolle.

A receita combina leite, fermento lácteo importado da Itália e geleia de rosas produzida por uma amiga da família.
— Todos esses anos buscamos lançar algo novo na Expointer. Experimentamos, gostamos e resolvemos fazer o iogurte — conta Benetti, ao lado da filha Maria Angélica, na banca 201.
Cada pote de 180 gramas é vendido por R$ 12. Para a próxima edição da feira, Benetti antecipa:
— Deveremos ter novidades nas áreas de queijo e manteiga.




