
O último dos 12 painéis do Campo em Debate em 2026, durante a 49ª edição da Expointer, reuniu um time de gestoras, pesquisadoras e especialistas de diferentes áreas do agronegócio. No palco da Casa RBS, na sexta-feira (4), lideranças femininas abordaram alguns dos temas centrais para o atual momento e o futuro do setor.
Logo na abertura, Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja, engenheira agrônoma, pós-doutorada e referência em bioinsumos, deu uma aula sobre a fixação biológica do nitrogênio. Explicou que sua pesquisa consiste em encontrar microrganismos capazes de substituir fertilizantes químicos e aumentar a eficiência e a sustentabilidade no campo.
Alguns resultados, hoje aplicados com ganhos ambientais e econômicos, revolucionaram o tema da segurança alimentar no planeta. Trata-se de uma “microrevolução verde” que já lhe rendeu dezenas de reconhecimentos internacionais. Um deles, em especial, o World Food Prize (Prêmio Mundial da Alimentação), é considerado o Nobel da agricultura.
Ao responder sobre o que poderia querer do futuro alguém que já conquistou tantos méritos na carreira, ofereceu outra lição à plateia:
— Eu quero dedicar o término da minha carreira ao problema mais sério que vejo atualmente — rebateu.
Em seguida, explicou que, hoje, existem 160 milhões de hectares de pastagens. A totalidade do que se produz está concentrada em 80 milhões de hectares, mas metade dessa área está comprometida em algum estágio de degradação.
— A solução passa pela pecuária sustentável, a integração lavoura-pecuária-floresta com os micro-organismos que já são úteis ao plantio direto. Há condições de recuperar essas áreas degradadas, dobrar ou até triplicar, se a gente aumentar o rendimento das culturas, sem ter que derrubar uma árvore de floresta — concluiu.
Na esteira do tema, Lívia Padilha, doutora em Economia Comportamental pela Universidade de Adelaide, na Austrália, professora e consultora em comunicação científica, ampliou a discussão sobre pecuária regenerativa e consumo de carne, desmistificando informações equivocadas.
É o caso dos alegados efeitos nocivos oriundos da flatulência do gado ou da quantidade de água necessária para produzir cada quilo de carne. Ambos são temas que afastam pessoas veganas do setor e cujos equívocos poderiam ser diluídos com uma maior aproximação entre o mercado e o consumidor, defende.
Ela explica que a pecuária regenerativa é justamente o oposto. Envolve um sistema capaz de produzir proteína animal, leite e derivados ao mesmo tempo em que melhora as condições do ecossistema no qual está inserido.
— E o esterco do animal fica no solo, fertilizando a terra. Esse ciclo, principalmente em um animal de pasto, é complementar e muito positivo.
Coube a Andrea Veríssimo, diretora de relações internacionais e comunicação da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), médica veterinária e mestre em Administração Rural pela Lincoln University, na Nova Zelândia, rebater outra ideia recorrente e sem validação. Desta vez, a de que a expansão dos biocombustíveis representaria um risco de escassez de alimentos.
Pelo contrário, disse. A prática incentiva cadeias agregadas e gera subprodutos destinados à alimentação de bovinos, suínos e aves, beneficiando preços e oferta.
— No Brasil, temos a maior adição obrigatória de etanol no combustível e quase ninguém se dá conta. Com isso, a gente tem um combustível mais limpo, o ar das nossas cidades é mais limpo, mas também tem mais segurança energética, enquanto outros países sofrem com a crise no Oriente Médio — pontuou.
O futuro demanda qualidades femininas
A provocação, feita ao final do debate, gerou uma construção coletiva. Questionada sobre quais qualidades femininas seriam necessárias para ampliar a eficiência no agro, Celi Webber Mattei, sócia-proprietária da Sementes Webber, produtora rural e empreendedora social, lançou as bases para que as demais participantes do painel acrescentassem novos atributos.
Citou a persistência e a capacidade de executar múltiplas tarefas, além de cumprir aquilo com que se compromete. Lívia Padilha acrescentou o perfeccionismo como uma habilidade feminina capaz de oferecer contornos mais sustentáveis ao agro.
Andrea Veríssimo mencionou a sensibilidade de Mary Temple Grandin, renomada cientista norte-americana autista que revolucionou as práticas de bem-estar animal. Restou a Mariangela Hungria completar a fórmula:
— Desculpem, homens, mas homens também podem ter as características femininas. O cientista do passado, o pesquisador do passado era o solo, tinha uma ideia, trabalhava sozinho, era exótico e mal conversava com as pessoas. E a ciência que eu vejo no futuro é diferente. É feminina, feita em grupo, compartilhada.



