
O Campo em Debate, realizado nesta quarta-feira (2), na Casa RBS, na Expointer, foi marcado por um anúncio aguardado para o futuro da malha ferroviária gaúcha. Trata-se da realização de um amplo estudo técnico envolvendo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, que receberá investimento de R$ 5,4 milhões, via BRDE, para sua elaboração.
A informação foi dada pelo diretor de Planejamento da instituição, Leonardo Busatto. Na mesa de discussões, uma provocação colocou em pauta um dos gargalos que atrasam e encarecem o escoamento da produção: “O agro precisa de trilhos?”. A resposta já era conhecida pelos debatedores, mas as soluções dependiam do anúncio feito pelo executivo do BRDE.
Isso porque o estudo é uma peça fundamental para contrapor a modelagem econômica e a proposta de fatiamento da Malha Sul, que não atende aos interesses do Rio Grande do Sul. O Estado já viu sua infraestrutura férrea encolher de 3,2 mil quilômetros para 880 quilômetros nos últimos 30 anos, além de enfrentar o remanejo de trilhos para o Paraná e a desconexão com a malha nacional desde as enchentes de 2024.
Busatto explica que, de acordo com o modelo do governo federal, o Valor Presente Líquido (VPL) da Malha Sul é fixado em R$ 7 bilhões. Por outro lado, há um superávit previsto de R$ 8,1 bilhões no Paraná. Isso indica que, novamente, a concessão gaúcha seria preterida no que se refere a novos investimentos e à modernização da estrutura.
— Algumas vezes, não se tem a noção da relevância do tema. A decisão de hoje terá reflexo na vida e na economia gaúcha pelos próximos 30 anos — lembrou.
Busatto afirmou ainda que o consórcio vencedor da licitação já está homologado e que, ainda em setembro, deverá ser assinado o contrato que dará início às avaliações técnicas.

Trilhos eficientes
Para o secretário de Logística e Transportes do RS, Clóvis Magalhães, a notícia é um alento, pois permite que os três estados balizem seus critérios e demandas logísticas. Caso o modelo apresentado pela União seja implantado, ao final de três décadas haveria uma diferença de cerca de 600 mil toneladas por ano entre os volumes operados e a atual capacidade já instalada no Porto de Rio Grande.
— O RS quer uma equação econômica correta. O desinvestimento realizado pela concessionária no passado foi uma prática de negócios que beneficiou apenas a empresa. Estamos pagando a conta — garante.
Na prática, o superintendente da Farsul, Fábio Avancini, explica que a situação adiciona um custo logístico estimado em 62% ao preço dos produtos gaúchos. Já o gerente-executivo do Complexo Industrial Soli3, Diego Piotto, dimensiona o potencial desperdiçado pela ausência de condições mínimas no modal.
Segundo ele, o edital prevê a modernização de trilhos no Paraná, o que ampliaria em 25% a capacidade de cargas, mas não contempla a atualização da infraestrutura gaúcha. Mais do que trilhos, são necessários trilhos eficientes, argumenta. E basta olhar para os números para entender a afirmação.
Apenas a Soli3, explica, retira 103 caminhões bitrem das estradas por dia ao utilizar a ferrovia, o equivalente a 33 mil viagens por ano entre Cruz Alta e o Porto de Rio Grande, considerando o transporte de farelo e soja.
A estimativa, diz, é de um ganho de velocidade em torno de 50%. Para isso, alerta, é preciso olhar para o futuro, mas com obrigações claras, que não permitam a desativação de trechos e planeje a inserção de outros troncos essenciais à ferrovia e à economia gaúcha.
O estudo é o primeiro passo nesse sentido, reforçaram o presidente do Sindicato dos Ferroviários do RS, João Calegari Morais, e o vice-presidente da Acergs, Caio Nemitz.






