
A evolução do agronegócio não depende apenas de elevar os volumes de produção. Mais do que isso, o futuro passa pela transformação do conhecimento em tecnologias aplicadas no campo. Em maio de 2024, no auge das enchentes que afetaram 478 das 497 cidades que formam o Estado, uma mobilização de agricultores colocou equipamentos e infraestrutura de drenagem das lavouras a serviço do Rio Grande do Sul e lançou as bases para a criação de um novo ecossistema gaúcho, alinhado ao propósito de incentivar a inovação e a pesquisa de maneira sólida e permanente.
Desse esforço nasceria a Cidade do Agro, uma iniciativa que já reúne 150 empresas com o objetivo comum de estimular novas conexões e negócios ainda em desenvolvimento. O fundador do projeto e diretor da Agropecuária Canoa Mirim, Lauro Soares Ribeiro, detalhou, nesta segunda-feira (31/8), durante painel Campo em Debate, na Casa da RBS, na Expointer, as principais estratégias e metas para o futuro próximo.
Segundo ele, a união dos produtores rurais, iniciada em Pelotas, mas que também promoveu ações de socorro no Aeroporto Internacional Salgado Filho e em diversas cidades ao longo da crise climática de dois anos atrás, deixou uma pergunta: como transformar essa organização em algo duradouro e capaz de contribuir para o desenvolvimento do Estado? A resposta começa pela conexão:
— O campo é onde as coisas começam. É onde plantamos, colhemos e criamos. E a cidade é onde as coisas se encontram. Onde a pesquisa desenvolve tecnologia, cria marcas, industrializa, é onde está quem financia, quem educa. Precisávamos conectar tudo, porque muitas vezes a gente vê que essa história termina muito cedo, na porteira, mas a gente tem como evoluir ainda mais dentro da porteira, e temos como produzir mais.
Por isso, a Cidade do Agro envolve, além de unidades demonstrativas, uma estação de pesquisa agropecuária, um complexo industrial e logístico e um instituto sem fins lucrativos. A proposta inclui ainda um hub de inovação, parque tecnológico, laboratórios, centro de eventos e um Museu do Agro.

O ex-presidente da John Deere Brasil e atual CEO da PH Advisory Group, Paulo Hermann, lembrou que o Rio Grande do Sul perdeu protagonismo econômico para o Paraná e Mato Grosso. Nesse contexto, afirma que a Cidade do Agro “serve de antídoto contra o vitimismo”, sobretudo para a Metade Sul do Estado.
Ao constatar a necessidade de aproximação entre pesquisa, extensão rural e produtores, o presidente do Sistema Farsul, Domingos Velho Lopes, considerou iniciativas como a Cidade do Agro fundamentais para o atual momento do setor e como instrumento de resiliência climática. Para o dirigente, a transição da agricultura brasileira, de importadora de alimentos na década de 1980 para a maior exportadora líquida em volume do planeta, é um dos exemplos do que acontece quando o conhecimento produzido por universidades, Embrapa e centros de pesquisa se torna acessível aos produtores.
Gerente executivo de Tecnologia e Inovação do Sistema Fiergs, Victor Gomes argumenta que diferentes regiões possuem competências distintas e que a articulação entre elas é essencial para extrair o melhor de cada especificidade. Pelotas, por exemplo, diz, apresenta potencial em biossensores; Santa Maria, em satélites; e Rio Grande, em automação, logística e oceanografia. Iniciativas como a Cidade do Agro, portanto, surgem para conectar essas competências em torno de um único ecossistema.
— É preciso a soma de esforços isolados para avançar em projetos coletivos — completa Gomes.

