
Uma pesquisa divulgada pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA) atualizou o perfil do produtor rural no Rio Grande do Sul. Em linha com os novos tempos, os dados mostram que 86% dos agricultores gaúchos acreditam em algum tipo de impacto devido às mudanças no clima.
O dado se repete no recorte nacional, porém, com uma diferenciação importante. A percepção local faz com que a parcela dos que buscam soluções para enfrentar a crise seja maior no Estado do que no restante do país.
Para o presidente da ABMRA, Ricardo Nicodemos, o entendimento geral sobre o problema climático indica que o tema passou a fazer parte da realidade produtiva em diferentes regiões.
— É um pouco da consciência e contradiz o que é voz corrente de que o produtor não estava muito preocupado com a questão da mudança climática. Isso não é verdade — pontua Nicodemos.
Os dados da pesquisa Hábitos do Produtor Rural, realizada há 40 anos, foram apresentados nesta quinta-feira (12) durante a Expodireto, feira referência em tecnologias para o agronegócio realizada em Não-Me-Toque, no norte do Estado.
O Rio Grande do Sul tem sido considerado um dos epicentros das mudanças do clima. Depois das recorrentes estiagens, as enchentes passaram a preocupar em relação à vulnerabilidade da produção. Apesar do reconhecimento do problema, a adoção de novas práticas de manejo para reduzir os impactos do clima ainda não é realidade de todos. No Rio Grande do Sul, apenas 23% dos produtores consideram altas ou muito altas as barreiras para implementar as mudanças. No Brasil, são 31%.
— Entendemos que o produtor gaúcho está mais preparado em razão de todos os episódios que aconteceram nos últimos anos. Ele se tornou mais resiliente com tanta coisa que passou — observa o presidente da ABMRA.
Oportunidade de investimento, acesso a financiamento e falta de assistência técnica estão entre as dificuldades apontadas pelo público que vê entraves para adotar soluções de mitigação aos efeitos vindos do clima.
Economia e sustentabilidade

Nereo Starlick, 59 anos, produtor rural em Tapera e Salto do Jacuí, no norte do Estado, vem implementando algumas estratégias ao longo dos últimos anos. As medidas vão do tratamento da terra à escolha de um maquinário que entregue o melhor desempenho.
— O produtor é muito crente de que o clima vai ajudar toda vez que ele for plantar. Mas não se pode mais contar só com isso. Ele tem que buscar algo que o auxilie — diz.
Starlick cultiva grãos de soja e milho no verão e trigo no inverno, além de produzir sementes. Sua área total soma 2,8 mil hectares. Os plantios nas duas estações mantêm a terra coberta ao longo de todo o ano, o que ajuda na proteção do solo. Além disso, a rotação de culturas contribui para a qualidade das lavouras.
O uso de bioinsumos também está na cartilha de cuidados, buscando redução de custos na adubação, maior produtividade das áreas e sustentabilidade ambiental.
Em outra frente, a tecnologia das máquinas auxilia na otimização dos processos. Há dois anos, o produtor investiu na renovação de parte da frota, apostando em colheitadeiras que operam mais com menos, garantindo a redução nos custos com insumos e combustível. Em visita à Expodireto este ano, o produtor aproveitava para conhecer outras novidades nesta frente apresentadas nos estandes.
A atenção ao bolso é citada como a principal medida adotada entre os agricultores para se proteger dos impactos do clima.
— Uma das coisas que estamos fazendo é redução no custo do plantio. É fazer um controle do custo, que é a única coisa que está na mão do produtor — diz Starlick.
Maduros e escolarizados

A pesquisa também trouxe outras informações sobre o perfil do produtor gaúcho. Em geral, os agricultores do Estado são mais jovens do que a média nacional. O dado indica que uma geração madura e em plena atividade está à frente das propriedades no Estado.
Os gaúchos também possuem escolaridade maior e estão no campo mantendo a sucessão familiar.
Veja os dados:
- A idade média do produtor rural no país é de 48 anos.
- No Rio Grande do Sul, é 44 anos.
- 19% dos produtores gaúchos têm ensino superior completo.
- No Brasil, são apenas 9% com esta formação.
- 61% dos produtores no país dizem ter escolhido a atividade para dar continuidade ao trabalho da família.
- No RS, o percentual é de 51%.




