
A inovação sempre andou lado a lado com o agronegócio do Rio Grande do Sul. O pioneirismo no plantio direto é um dos exemplos mais emblemáticos de uma longa lista de experiências que deram certo.
O aumento da produtividade é uma pauta histórica na indústria, mas nos últimos anos ganhou outro desafio: a crescente dificuldade imposta por eventos extremos, cada vez mais frequentes. Para lidar com a crise climática, há ferramentas como a inteligência artificial, a biogenética e o sensoriamento remoto.
Cultivares que resistem a períodos mais longos de estiagem e raízes que não se deixam levar por chuvas mais intensas colaboram, também, com a produtividade. Mais do que isso: podem ser a diferença entre uma safra boa e a derrocada.
— O futuro da agricultura continua sendo o melhoramento genético, que não deve parar. Ele trabalha a capacidade de suportar os extremos. Depois, temos o manejo de lavoura e a agricultura digital, que pode melhorar muito essa convivência (entre agro e clima) —explica Gilberto Cunha, agrometeorologista da Embrapa Trigo.
Esse trabalho, no entanto, não é simples nem rápido. Segundo o diretor de Agronomia da Syngenta Seeds, Fabrício Passini, uma cultivar leva cerca de oito anos para chegar ao mercado. Após sua concepção, há testes em laboratórios e, depois, no campo.
Tudo começa pela definição do que se busca na nova variedade. Aspectos como a extensão do ciclo de produção e a resistência a determinadas doenças são pensados previamente.
Na sequência, a equipe define onde vai buscar as fontes que contêm o que esse produto precisa. Uma das possibilidades é o trânsito global de germoplasma, que consiste no intercâmbio de material genético vegetal entre países. Mas a solução, muitas vezes, está na cruza com melhoramentos já feitos no Brasil.
— Em paralelo, entram as tecnologias moleculares e avançadas, com predições genômicas, uso de inteligência artificial para tratar os dados, definindo cruzamentos. Assim eu tenho diversidade, melhoramento avançado, edição gênica e consigo incorporar isso em um produto desenhado — conta Passini.
Depois de criada a semente, é hora de testar no campo. São, em média, oito anos de testes e novos cruzamentos, selecionando aquelas plantas que se destacam dentro das características pretendidas no início do projeto. Essa malha de ensaios reúne dados que dizem, em cada fase, quais foram os resultados e em que condições climáticas ocorreram as melhores performances.
A partir dessas informações, os pesquisadores apuram cada vez mais a seleção genética. Mesmo após o lançamento, uma plataforma digital da Syngenta coleta dados e passa orientações sobre janelas de oportunidade para semear, combinando período do ano e condições climáticas, a fim de aumentar as chances de sucesso.
Gestão de riscos
Chegando às lavouras, a agricultura digital lança mão de equipamentos e sistemas para otimizar o emprego de recursos.
Consequentemente, tornam o negócio mais sustentável em todos os sentidos. Drones que pulverizam toda sorte de substâncias e também fazem o monitoramento de cada quadrante do solo ou da plantação já são realidade no campo.
Com a capacidade de observar o que cada fração da lavoura precisa, o produtor consegue contemplar essas variações e abrir mão da média em toda a área.
Essa precisão é interessante em locais onde uma porção precisa de muito suporte de defensivos ou fertilizantes, por exemplo, enquanto outra pode demandar bem menos.
— A tecnologia tem um papel fundamental na convivência da agricultura com essa nova ordem climática. Mais do que tecnologia, é preciso que se ponha em prática a gestão integrada de riscos climáticos — pondera Cunha.
Essa gestão começa pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), desenvolvido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em parceria com a Embrapa.
O instrumento de política agrícola e gestão de riscos no campo considera cerca de 50 culturas no Brasil, com seus respectivos períodos de semeadura — identificando os riscos quando semeadas em determinada época do ano, além do tipo de solo, o local e a variabilidade climática. Considerar as aptidões locais definidas pelo zoneamento é o primeiro passo.
Sistemas de irrigação, bem como a conservação de água para que eles operem, precisam estar na pauta para garantir que a falta de água — ou o excesso — não venha a ser um problema no campo.
Outras inovações ligadas ao manejo e à conservação do solo também integram o conjunto de soluções. Optar pela rotação e integração de culturas ajuda a conservar a água no solo, assim como outros nutrientes.
Análise de dados

Por meio da coleta e do cruzamento de um alto volume de informações, a tecnologia ajuda o produtor a tomar as melhores decisões. Aliás, entidades e governos também bebem dessa fonte.
O professor Nilson Costa, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) — campus Palmeira das Missões, coordena um estudo que mede a área do Estado que conta com irrigação por pivô.
— Nossa pesquisa possui uma abordagem metodológica interdisciplinar e integrada, em que se combinam técnicas de geoprocessamento, ciência de dados e estatística multivariada — explica Costa, doutor em Ciências Agrárias.
As imagens são obtidas principalmente no Catálogo de Imagens do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no U.S. Geological Survey (USGS) e no Copernicus Data Space Ecosystem.
Para o tratamento e análise dessas fotos, os pesquisadores usam o Sistema de Informações Geográficas (SIG), amplamente adotado em pesquisas científicas e aplicações institucionais.
A segunda etapa consiste em avaliar o potencial de expansão da irrigação. São levadas em consideração a complexidade topográfica, a disponibilidade de água superficial (rios) e de açudes que possam ser convertidos em reservatórios.
A análise topográfica é feita com o sistema Shuttle Radar Topography Mission (SRTM), com resolução que permite identificar os imóveis rurais com potencial para receber pivôs de irrigação.
O estudo foi apresentado à Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul, cujo time técnico ficou interessado.
A parceria está em fase de formalização entre governo do Estado e UFSM, contemplando a elaboração de um geoportal da irrigação, onde será disponibilizada a base de dados para que toda a cadeia produtiva tenha acesso, além de promover novos estudos.
Soluções personalizadas

Em função das mudanças climáticas e do papel do agro nesse debate, a Bayer criou uma divisão chamada Negócio de Carbono, em nível global.
O conjunto de soluções desenvolvidas tem como pano de fundo a chamada agricultura regenerativa, que aumenta a eficiência de áreas agrícolas e reduz a emissão de gás carbônico na produção de grãos.
Entram nesse rol técnicas como o plantio direto e a rotação de culturas. Elas ajudam a recuperar a qualidade do solo, que, quanto mais rico em matéria orgânica, mais sequestra dióxido de carbono do ar.
— O agricultor brasileiro já olha com carinho para essa questão, mas a conversa não é sobre o mercado de carbono, já que o acesso a benefícios extras (como a compra e venda de créditos de emissão) é secundário. Quando ele olha para o solo e pratica de fato a agricultura regenerativa, o impacto é em produtividade e estabilidade — explica a diretora do Negócio de Carbono da Bayer para a América Latina, Marina Menin.
O desenvolvimento de produtos, nesse contexto, segue a lógica de produtividade e resiliência.
O que vai mudar significativamente nos próximos anos é a capacidade de definir parâmetros de aplicação de insumos de acordo com informações cruzadas entre a propriedade e o produto.
Na prática, as empresas ajudam o produtor a tomar decisões estratégicas e personalizadas. Para isso, contam com sistemas de análise e cruzamento de dados, apoiados por inteligência artificial e outras tecnologias que andam na mesma direção.
Crise e oportunidade
Gilberto Cunha, da Embrapa, defende que a agricultura brasileira precisa, sobretudo, reconhecer a crise climática.
— Negar que está em curso uma mudança de clima no mundo, como uma parte costuma fazer em diversos segmentos da sociedade, não auxilia em nada na convivência com a condição climática que já está presente — alerta.
No sul do Brasil, os sinais são evidentes. Seguindo a tendência mundial, verifica-se o aumento da temperatura, em especial a média das mínimas aferidas. É uma prova do aquecimento global, diz Cunha.
A umidade é outro fator que evidencia a crise. As séries históricas, marcadas em períodos de 30 anos, apontam o aumento das chuvas. Em regiões do Sul onde chovia 1,3 mil milímetros por ano, hoje os índices estão ao redor de 1,6 mil, por exemplo.
Apesar do desafio, a busca por soluções sustentáveis pode chegar a alternativas interessantes — e rentáveis. É o caso dos biocombustíveis, cujo debate cresceu pela necessidade de reduzir o uso de combustíveis fósseis.
Hoje, é um mercado que vai movimentar cifras em torno de R$ 1 trilhão até 2034, segundo a Empresa de Pesquisa Energética, ligada ao Ministério de Minas e Energia.
— A pesquisa tem papel fundamental na solução e nas novas tendências para as cadeias agroalimentares e agroenergéticas. E o Rio Grande do Sul começa a se posicionar como um importante Estado — aponta o diretor técnico da Emater-RS, Claudinei Baldissera.
Mais do que um problema, é hora de ver a relação entre a produção e o meio ambiente como uma oportunidade.



