
Investir ainda é visto por muita gente como algo reservado a especialistas ou a quem tem muito dinheiro sobrando. Mas essa ideia está cada vez mais distante da realidade. Investir com pouco dinheiro é possível, e o que os bancos digitais fizeram foi democratizar o acesso: tornaram o processo mais fácil, mais rápido e sem burocracia para qualquer pessoa. Com R$ 50 ao mês já dá pra começar.
Segundo o professor Marcelo Perlin, da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), R$ 50 é um valor suficiente para começar a investir. O professor afirma que, para quem está dando os primeiros passos, ele recomenda começar pelos ativos de renda fixa, categoria que inclui produtos como o Tesouro Direto, CDB e as caixinhas dos bancos digitais.
— É um erro muito comum para quem está começando partir direto para a renda variável. A renda fixa não tem tantas variações e tem menos risco — explica o professor.
Renda fixa: entendendo ativos básicos
O Tesouro Direto é um programa do governo federal que permite a qualquer pessoa comprar títulos públicos. Aplicativos de banco costumam oferecer essa modalidade de investimento.
Na prática, é como emprestar dinheiro ao governo e receber juros em troca. O CDB (Certificado de Depósito Bancário) funciona de forma parecida, mas com bancos: o investidor empresta dinheiro à instituição financeira e recebe uma remuneração combinada.
Através de uma simulação, considerando o tesouro SELIC, um tipo de investimento do tesouro direto, com a taxa atual de 14,25% ao ano, R$ 50 investidos mensalmente durante um ano (ao todo, R$ 600), resultaria em cerca de R$ 636, já com os descontos de imposto de renda.
Já as caixinhas são funcionalidades oferecidas pelos bancos digitais que aplicam o dinheiro guardado, geralmente em CDB ou em produtos atrelados ao CDI, com liquidez imediata. Na prática, o CDI (Certificado de Depósito Interbancário) é a taxa de juros que os bancos cobram entre si e que serve como termômetro para o rendimento desses investimentos.
Já a liquidez imediata significa que você pode resgatar o seu dinheiro de volta para a conta a qualquer momento, inclusive nos finais de semana, sem perder nada por isso.
Conforme o investidor for ganhando confiança e conhecimento, o professor indica que é possível avançar para a renda variável, como os fundos imobiliários, que permitem investir em imóveis de forma indireta e com valores acessíveis, por exemplo. Nessa categoria, no entanto, os riscos são maiores e os resultados, menos previsíveis.
Atenção aos detalhes: taxa, rentabilidade e liquidez
Antes de escolher onde aplicar o dinheiro, Perlin destaca três pontos que precisam ser avaliados com atenção.
- O primeiro é a taxa: o custo cobrado pela corretora ou plataforma para intermediar o investimento, que pode consumir uma parte relevante do rendimento, especialmente em valores pequenos
- O segundo é a rentabilidade: o quanto o dinheiro vai render no período, geralmente expresso como um percentual do CDI ou da taxa Selic
- O terceiro é a liquidez: a facilidade ou o tempo que leva para resgatar o dinheiro de forma rápida e sem penalização no preço.
Armadilhas dos investimentos e expectativas
Como em qualquer tipo de transação financeira, também existem armadilhas. O professor aponta as principais para quem está começando. Uma delas é a escolha de corretoras pouco conhecidas, por isso ele sugere começar por uma instituição grande e consolidada. Outra armadilha são as ofertas de taxas baixas que parecem muito vantajosas, mas têm prazo de validade: depois de determinado período, a taxa volta ao patamar normal.
Há ainda um detalhe tributário importante que costuma passar despercebido: quem resgata o investimento em menos de um mês paga uma alíquota de imposto muito elevada. Segundo o professor, não vale a pena investir por menos de 30 dias.
E quem espera que R$ 50 mensais gerem renda passiva suficiente para a aposentadoria vai precisar rever as expectativas.
É um valor muito baixo para conseguir criar um montante e viver dessa renda. O ganho, nesse caso, é outro: a experiência. Investir R$ 50 vale mais como parte do aprendizado.
MARCELO PERLIN
Professor da escola de Administração da UFRGS
No fim das contas, investir não é um processo tão complexo quanto parece. Entender as siglas do mercado e ficar atento às armadilhas já são passos suficientes para aumentar as chances de não perder dinheiro e de fazê-lo render.
Produção: Caroline Goulart*
*Estudante de jornalismo sob orientação e supervisão de Caue Fonseca

