
Durante gerações, mulheres aprenderam a contar os dias no calendário, observar o próprio corpo e fazer contas para tentar evitar uma gravidez — a famosa “tabelinha”. O método, hoje considerado um contraceptivo comportamental, ganhou versões digitais: aplicativos usam dados biométricos e algoritmos para tentar prever o período fértil com mais precisão. Apesar da alta tecnologia, ainda está sujeito a falhas.
— É a mistura do que existe de mais antigo no mundo da medicina, que era entender o ciclo menstrual para evitar engravidar, misturado com a inovação e com tudo que a gente tem de tecnologia, inteligência artificial, algoritmo e devices que a gente pode trazer para facilitar a vida — afirma Aline Marques, ginecologista e consultora da Natural Cycles Brasil, dispositivo com esse propósito.
A empresa, que se apresenta como "único contraceptivo digital do Brasil aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)", foi fundada em 2013, na Suécia, e já está presente em mais de 30 países. O contato com as usuárias brasileiras, porém, começou há poucos meses.
A Anvisa aprovou o software na categoria de dispositivo médico, com registro de autorização de funcionamento em março de 2025 e permissão válida até março de 2035. Conforme a agência, a indicação de uso regularizada é de aplicativo "destinado a mulheres maiores de 18 anos que desejam monitorar sua fertilidade".
Saúde e Bem-Estar
Como funciona a “tabelinha”?
Em um ciclo menstrual típico de 28 dias, o primeiro dia da menstruação é considerado o dia 1. A ovulação costuma acontecer aproximadamente 14 dias antes da próxima menstruação, por volta da metade o ciclo neste caso.
Como os espermatozoides podem sobreviver alguns dias no trato reprodutivo feminino e o óvulo permanece viável por cerca de 12 a 24 horas após a ovulação, considera-se uma janela fértil de aproximadamente seis dias ao redor da ovulação.
A medição da temperatura basal, que corresponde à temperatura corporal em repouso, pode complementar o acompanhamento do ciclo. Após a ovulação, a elevação da progesterona provoca um aumento sustentado desse indicativo, em torno de 0,2°C a 0,5°C.
Essa variação pode ajudar a identificar retrospectivamente que a ovulação provavelmente ocorreu. Quando acompanhada ao longo de vários ciclos, contribuir para compreender o padrão individual e estimar períodos de maior ou menor probabilidade de gravidez.
— Há muito tempo, antes de termos os métodos contraceptivos que temos hoje e que são amplamente conhecidos, as pessoas faziam assim, em casa, observando e anotando tudo — relata a ginecologista Laetitia Trindade.
A médica ressalta que a tabelinha convencional tem limitações porque parte da ideia de que o ciclo menstrual segue um padrão relativamente previsível. Com o avanço das pesquisas, ficou claro que a duração dos ciclos pode variar bastante entre mulheres e de um ciclo para outro.
Estresse, doenças, alterações hormonais e outros fatores podem antecipar ou atrasar a ovulação, fazendo com que uma previsão baseada apenas em datas tenha uma margem de incerteza que pode comprometer a eficácia do método.
Por que o aplicativo é diferente?
A Natural Cycles combina a temperatura basal, medida durante o sono por dispositivos inteligentes como pulseira, relógio, anel ou termômetro compatível, com informações sobre o ciclo menstrual. Esses dados são enviados ao app e analisados pelo algoritmo, que também leva em conta o histórico de cada usuária.
Com base nesse conjunto de informações, o aplicativo estima os dias férteis e atualiza diariamente a classificação de fertilidade:
- Dias Verdes: a usuária pode ter relações sem método adicional para evitar a gravidez
- Dias Vermelhos: a orientação é usar preservativo ou evitar relações com risco de gravidez

— A eficácia para a paciente de uso típico é de 93%. O que é uso típico? É quando o método falou que é um Dia Vermelho e que é para ter algum tipo de bloqueio e a paciente ignora e tem relação no dia. No uso perfeito, é 98% de eficácia, então é muito comparável ao uso da pílula. É moderado, não é igual ao dispositivo intrauterino (DIU) e ao implante, que são métodos de altíssima eficácia — afirma Aline.
Laetitia, que não trabalha com a empresa mas conhece o serviço, explica que o uso perfeito é quando a paciente segue rigorosamente todas as orientações. Neste caso, além de não ter relações desprotegidas nos Dias Vermelhos, incluiria o preenchimento de todos os formulários de saúde feitos pelo app e a atualização constante das informações pedidas pela plataforma.
Quando a gente vê uma taxa de eficácia de 98%, não tem que interpretar isso como 98% de garantia de não engravidar. É para pensar nisso como uma taxa de eficácia contraceptiva em determinado período de acompanhamento e que, mesmo assim, continua tendo uma possibilidade de falha. O algoritmo não diz exatamente que a pessoa está ovulando, mas que há uma probabilidade relevante de ela estar fértil.
LAETITIA TRINDADE
Médica ginecologista
Não é para todas
No registro da Anvisa, consta que não há contraindicações para o uso do dispositivo médico além da idade: o método só foi testado em mulheres acima dos 18 anos. Ainda assim, a consultora da empresa reconhece:
— Não é um método para todas. É um método para a mulher que se adequa a esse perfil, que tem muito efeito colateral usando contraceptivo, que está querendo perceber mais o corpo, que quer entender como ela funciona, em que fase do ciclo está, ou que quer engravidar. Temos cinco modalidades, que são o contraceptivo, o planejamento gestacional, a gestação, o pós-parto e o perimenopausa.
Acompanhar as diferentes fases do ciclo pode ajudar a mulher a entender mudanças no corpo e comportamento. Oscilações hormonais podem estar associadas a variações de energia, disposição, humor e até desempenho físico. Aline diz que essas informações podem ser importantes para a tomada de decisões no meio da rotina.
Na análise de Laetitia, o aplicativo pode fazer mais sentido para mulheres que querem engravidar, já que a identificação dos dias férteis ajuda a orientar as tentativas. Para quem não poderia ou não gostaria de lidar com uma gravidez, porém, ela considera que o método pode envolver um risco maior e exige atenção redobrada.
— Não podemos recomendar um método simplesmente porque ele é tecnológico, assim como também não podemos descartar só porque não é hormonal. Tem que entender quais são os objetivos e como será a adesão e o comprometimento de cada paciente. O papel do ginecologista é apresentar as opções, explicar os riscos, benefícios e limitações — pontua Laetitia.

Detalhes que devem ser considerados
Um cuidado importante é que o método não deve ser combinado com contraceptivos hormonais, como pílula ou DIU hormonal. Como eles interferem no ciclo e na ovulação, os dados usados para identificar o período fértil podem deixar de refletir o funcionamento natural do organismo e, portanto, perder confiabilidade.
Também é preciso ter paciência até que o método consiga reconhecer o padrão individual de cada mulher. Tanto no aplicativo quanto na versão “à moda antiga”, com calendário e termômetro, são necessários alguns meses de acompanhamento para acumular dados e entender como o ciclo e a temperatura se comportam ao longo do tempo. É a partir desse histórico que se torna possível identificar tendências e fazer estimativas mais individualizadas.











