
Não existe uma frequência "certa" para fazer sexo, mas existe um desafio bastante comum entre casais: quando um quer e o outro não. Enquanto uma pessoa gostaria de transar todos os dias, a outra pode passar semanas sem sentir vontade. Esse descompasso na libido pode dar início a um ciclo de sentimentos como frustração, culpa, rejeição e pressão, que afeta a intimidade e a relação como um todo.
Conforme a psicóloga e sexóloga Raianny Delize, é natural que casais apresentem diferenças na libido, seja na frequência, intensidade ou até na forma como buscam contato físico. Isso, por si só, não representa um problema, uma vez que o desejo sexual é influenciado por uma série de fatores que podem variar ao longo dos dias, como aspectos hormonais, psicológicos, biológicos e sociais.
— Estatisticamente, essa diferença de libido acaba sendo a regra, não a exceção. É muito difícil ver um casal que vai estar de igual para igual nos níveis de desejo. A questão é como o casal lida com isso. Muitos convivem bem tendo desejos distintos, enquanto, para outros, isso se torna um sofrimento — analisa a especialista.
Ela observa que o problema surge quando o casal não se comunica. Sem espaço para falar sobre o assunto, a questão pode deixar de ser apenas um descompasso na vida sexual e passar a afetar a autoestima, a segurança e a conexão emocional entre os dois. Sentimentos como culpa e frustração podem se acumular e desgastar a relação com o tempo.
Comportamento
Quem sente mais desejo pode acabar se sentindo rejeitado e inseguro ao perceber que o outro não acompanha seu ritmo. Também pode surgir a sensação de estar pressionando o parceiro ou insistindo em algo que o outro não deseja, o que pode gerar culpa.
Já quem sente menos libido pode se sentir cobrado, pressionado a corresponder e inseguro por não ter o mesmo desejo. É um desencontro que, segundo a sexóloga Ana Luiza Migliavaca, pode virar uma bola de neve:
— Esse é um dos problemas que diminui ainda mais a libido. Porque a pessoa já está com um baixo nível de desejo, se sente culpada, vê que está afetando a autoestima do outro, resolve transar só para tentar melhorar a situação, aí a experiência não é tão prazerosa. Uma coisa puxa a outra porque ninguém quer transar para cumprir tabela — acrescenta Ana Luiza, que também é educadora sexual.
Por que casais têm níveis de libido diferentes?
Casais podem ter ritmos de desejo diferentes simplesmente porque são formados por pessoas diferentes. A libido é influenciada por fatores que não necessariamente se manifestam da mesma maneira para os dois. Ana Luiza salienta que a falta de desejo costuma ser um sintoma de outros problemas que necessitam atenção, principalmente dentro da relação:
— Não dá para descobrir a causa só olhando para o desejo. Temos que ver se o casal está se dando bem, se eles têm momentos de qualidade juntos, se um ou outro não está sobrecarregado com o cuidado dos filhos e da casa, se não tem muita discussão ou muito trabalho. Vivemos fases na vida completamente diferente e, quando o casal não convive mais em harmonia, não dá para culpar só a libido.
Estresse, excesso de trabalho, preocupações financeiras ou familiares e mudanças na rotina também podem interferir no desejo sexual, assim como questões relacionadas à saúde física e emocional. Alterações hormonais, distúrbios do sono, doenças, o uso de determinados medicamentos e hábitos não saudáveis também podem afetar a libido, tanto de homens quanto de mulheres.
Além disso, Raianny reforça que as pessoas vivenciam o desejo de formas diferentes. Algumas podem ter uma libido espontânea, em que a vontade de transar surge naturalmente, e outras sentem um desejo responsivo, que aparece a partir de estímulos.
Com a idade, é possível que o desejo espontâneo diminua, sem que isso signifique a perda da capacidade de sentir prazer.

Conversar para equilibrar
Para as especialistas, o primeiro passo é a honestidade: abrir espaço para falar sobre o que cada um está sentindo, sem julgamentos. Ana Luiza observa que, muitas vezes, é a mulher quem puxa essa conversa, enquanto homens podem ter mais dificuldade para admitir uma baixa de libido. Isso porque ainda existe uma expectativa de que estejam sempre dispostos.
A partir daí, Raianny afirma que é importante criar um espaço de acolhimento, em que ambos possam se ouvir e compreender o que estão sentindo. Juntos, podem investigar os fatores que podem estar por trás da falta de desejo e buscar formas de preservar a sintonia do casal.
— É necessário aumentar a conexão e a intimidade, não apenas na questão sexo. Para fazer com que esse casal consiga dar um abraço, um beijo, sem já interpretar que aquele afeto vai levar para um ato sexual. Aumentar essa conexão para além do sexo, da penetração. Assim a gente consegue diminuir a pressão de que tem que acontecer alguma coisa — sugere a psicóloga em terapia de casais.
Ela explica que é importante que o casal esteja aberto a entender que a libido nem sempre vai surgir naturalmente durante esses períodos de descompasso. A recomendação é pensar no desejo responsivo, a partir de estímulos. Os dois podem combinar um momento especial juntos, tomar um banho relaxante, escolher uma roupa bonita, trocar carícias, sem a obrigação de acabar a noite na cama.
Ana Luiza acredita que os estímulos podem ser criativos. Os casais podem fazer desafios, como se propor a testar outras formas de sexo, sem penetração, para lembrar que o desejo envolve diferentes tipos de contato físico.
Pode ser um bom momento também para testar coisas novas, como troca de mensagens picantes ou brinquedos eróticos, por exemplo. Se necessário, as especialistas orientam que o casal vá atrás de ajuda profissional.
— Se o casal percebe que não está avançando sozinho, é importante a gente buscar uma terapia de casal, porque é um espaço seguro onde eles vão encontrar ferramentas para trabalhar essa dificuldade, para que consigam progredir em relação a isso — aconselha Raianny.











