
Os lubrificantes com sabor, efeito quente ou gelado, glitter e outras versões voltadas à sensualidade ganharam espaço nas prateleiras e no mercado de produtos íntimos. A variedade inclui fórmulas que prometem estimular sensações, perfumar a região genital ou tornar as relações sexuais mais prazerosas.
No entanto, especialistas alertam que, apesar da popularidade dos cosméticos íntimos, é necessário ter cautela.
A vagina tem uma microbiota própria, formada principalmente por bactérias benéficas que ajudam a manter o pH ácido e atuam na defesa natural da região genital. A ginecologista Luiza Schvartzman explica que, dependendo da composição, alguns produtos podem alterar esse equilíbrio natural, provocar irritações, alergias e aumentar o risco de infecções:
— Existem variações de lubrificantes e cremes íntimos. Todos esses que prometem esquentar, esfriar, formigar, deixar cheiro ou sabor na região íntima têm componentes que podem prejudicar a mucosa da vagina, que é uma área bem sensível. Não é uma substância isolada, é uma composição inteira, que certamente tem conteúdos associados, considerada inadequada para a vagina — pontua a especialista.
Ainda que muitas vezes sejam vendidos como atrativos, a médica afirma que essas sensações de formigamento, calor ou frio já representam uma espécie de reação alérgica ou irritação que não deve ser ignorada.
O que cuidar na composição?
Entre os cosméticos mais populares estão lubrificantes com sabor, aroma, efeito quente ou refrescante, géis estimulantes, óleos para massagem corporal, dessensibilizantes e produtos com brilho. Para proporcionar essas características, muitas formulações incluem ingredientes como açúcares e adoçantes, fragrâncias, corantes, aromatizantes, agentes de aquecimento ou resfriamento e conservantes.
Segundo a farmacêutica e sexóloga Luara Meireles, as listas de componentes são extensas e costumam trazer uma série de nomes técnicos pouco familiares ao público. Para ela, isso faz com que os consumidores escolham os produtos com base apenas no preço ou nas promessas de sensações diferenciadas, sem avaliar a composição da fórmula.
— Normalmente, eles têm glicerina, propileno glicol, clorexidina e alguns outros antissépticos também. As fragrâncias diversas normalmente estão descritas como “fragrance” ou “parfum”, porque normalmente a composição é toda escrita em inglês. Alguns têm mentol, capsaicina (o princípio ativo da pimenta) e, corantes artificiais e até álcool. Todos esses componentes podem causar algum tipo de instabilidade na flora vaginal — complementa.

A especialista separou uma lista dos principais componentes e os possíveis riscos associados a cada um:
- Glicerina: pode servir como um ponto focal para a proliferação da cândida e, portanto, ocorrências de candidíase
- Propilenoglicol: é um umectante que pode causar dermatite de contato, ardência e irritação vulvar. Aumenta a permeabilidade da mucosa, deixando a região vaginal e a vulva mais sensíveis, o que pode favorecer atrito e causar ferimentos durante a relação sexual ou masturbação
- Clorexidina: é um antisséptico que pode mexer com a flora bacteriana da vagina, causar instabilidade no pH e aumentar o risco de infecções, incluindo vaginose bacteriana
- Fragrâncias e perfumes: não é recomendado utilizar produtos com cheiro na região da vulva e da vagina porque as chances de irritação na área são grandes
- Colorações (corantes): aumentam a probabilidade de irritação da região íntima e podem estar relacionadas a sintomas como coceira
- Mentol e cânfora: pode causar sensação de irritação, trazer dificuldades durante a relação, causar ressecamento e aumentar o risco de lesão por reduzir a lubrificação
- Capsaicina: pode aquecer muito a região. Se aplicados no canal vaginal (parte interna), esses produtos podem causar ardência, atrapalhar a relação e alterar a microbiota
- Álcool: pode causar ressecamento e alterar a barreira protetora da pele da região, aumentando a suscetibilidade a fissuras e a propensão a microlesões
A presença de um produto em farmácias, sex shops ou outros estabelecimentos comerciais não significa que seja isento de riscos. Por isso, Luara destaca que cosméticos com selos de qualidade, testes dermatológicos e regularização adequada costumam apresentar menor potencial de causar desconfortos, embora possam ser mais caros.
— Às vezes, vale mais a pena investir em um produto mais caro, quem sabe parcelar, para poder cuidar da região íntima, porque lá na frente os mais baratos podem dar muito problema. Existem muitas empresas boas que trabalham com produtos de qualidade, certificados. Conversar e pedir indicação para algum profissional também pode ajudar — sugere a sexóloga e farmacêutica.
Natural não significa que é adequado
Nas lojas, é comum encontrar produtos que destaquem a composição natural, com ingredientes derivados da pimenta, gengibre, cravo, jambu e outras plantas. Luiza destaca que esses cosméticos também exigem atenção dos consumidores.
Como tem elementos naturais, o raciocínio é de que não faz mal. Mas é natural para a vagina? Não é porque vem da natureza, porque faz parte da nossa alimentação, que seja considerado adequado ou apropriado para a região íntima.
LUIZA SCHVARTZMAN
Ginecologista
Além disso, a médica alerta sobre a prática de utilizar alimentos na região íntima, como mel, leite condensado e outros produtos. Essas substâncias também podem provocar irritações, desequilíbrios na flora vaginal e aumentar o risco de infecções.
O mesmo cuidado vale para o óleo de coco, frequentemente utilizado como lubrificante por ser considerado uma alternativa "natural".
— Como a uretra fica próxima do canal da bexiga, ao usar óleo de coco durante a relação sexual, ele pode subir para essa região e fazer corpos estranhos vesicais, causando alterações na bexiga — complementa.
Sintomas de reações aos cosméticos íntimos
Segundo a ginecologista, os primeiros sinais de que um cosmético íntimo não foi bem tolerado costumam aparecer rapidamente. Ardência, queimação, coceira, desconforto crescente durante ou após o uso, além de inchaço na vulva ou na vagina, são os principais alertas de que houve uma reação indesejada ao produto.
Luiza também recomenda observar mudanças na secreção vaginal, já que alterações no corrimento podem indicar que o produto causou algum desequilíbrio local. Em situações mais graves, especialmente com o uso de géis anestésicos, a redução da sensibilidade pode mascarar a dor e fazer com que lesões, fissuras ou traumas ocorram sem que a mulher perceba, aumentando o risco de complicações.
Comportamento
Quando e como usar esses produtos?
Os lubrificantes mais recomendados são os modelos clássicos, à base de água, sem cheiro, cor, sabor ou outros aditivos. Eles podem ser úteis para facilitar a penetração e reduzir o desconforto em situações como ressecamento vaginal, menopausa ou durante determinados tratamentos de saúde, desde que utilizados de forma adequada. Ainda assim, outras experimentações podem ser válidas.

— O ser humano é muito visual e olfativo, então esses produtos que fazem um estímulo sensorial, de alguma forma, são mais atrativos e eróticos. Todo mundo quer ter uma sensação diferente, quer conhecer novos estímulos. Mas é necessário ter esse cuidado com a sua saúde íntima e com o outro também — afirma Luara.
Já os produtos com anestésicos ou dessensibilizantes, segundo Luiza, podem ter indicação em casos específicos, como mulheres que enfrentam dor durante a penetração após tratamentos oncológicos, mas apenas com orientação médica.
Para a especialista, o uso seguro de cosméticos sensuais depende principalmente da atenção à composição dos produtos, da observação dos sinais do próprio corpo e da busca por orientação profissional.










