
Entre mitos, curiosidade e um histórico de tabu, o pompoarismo aos poucos ganhou espaço nas conversas sobre saúde íntima feminina. Se antes era tratado quase exclusivamente como uma prática ligada ao desempenho sexual, hoje começa a ser revisitado sob outras perspectivas, que incluem bem-estar, consciência corporal e qualidade de vida. Ainda assim, especialistas apontam que persiste o desafio de ampliar esse olhar.
O pompoarismo é um conjunto de exercícios voltados ao fortalecimento e à consciência do assoalho pélvico, musculatura que sustenta órgãos como bexiga, útero e intestino e desempenha papel importante em funções como o controle urinário e a resposta sexual. Trata-se de um conhecimento milenar, com raízes em diferentes culturas orientais, que evoluiu e ganhou novas leituras ao longo dos séculos.
— Qualquer mulher pode e deve fazer, porque todo mundo precisa prevenir secura vaginal, dor na relação, perda urinária (quando espirra, por exemplo) e de flatos, deslocamento dos órgãos pélvicos, entre outras coisas. Lá no início do pompoarismo, na Índia, as mães ensinavam para as filhas desde novinhas, pensando na saúde. É uma cultura sem alguns pudores que a nossa ainda carrega — explica a fisioterapeuta pélvica Camila Royer.
A especialista pontua que os benefícios estão principalmente ligados à saúde do assoalho pélvico, que fica na base da pelve, entre o púbis (área acima das genitais) e o cóccix. A prática pode ajudar a prevenir ou reduzir a incontinência urinária, melhorar a sustentação dos órgãos da região e contribuir para a recuperação no pós-parto — já que, no puerpério, algumas mães podem sentir a região do períneo mais frouxa. Também favorece a circulação local, o que tende a diminuir desconfortos.
Uma das potenciais consequências é o impacto positivo na vida sexual, melhorando a lubrificação vaginal, a sensibilidade e o controle da musculatura durante a relação, o que pode contribuir para mais libido, conforto e prazer. A prática também é capaz de reduzir as dores na hora H. Contudo, para a criadora do perfil Vagina Sem Neura, Ana Gehring, esse é apenas um dos efeitos dentro de um conjunto mais amplo de ganhos para a saúde.
— Tem muita pressão por performance. Grande parte das mulheres que procuram a prática, até mesmo dentro dos consultórios, busca, em primeiro lugar, satisfazer o parceiro. Mas isso só traz insegurança, gera cobranças e frustrações. Então sempre bato com elas que elas precisam estar bem com elas mesmas, sentir prazer e satisfação, que depois fica natural — defende.
As especialistas relatam que, nos últimos anos, o foco em torno do pompoarismo tem mudado, com mais mulheres buscando a prática pensando em si, na saúde íntima e no prazer que querem sentir. Esse movimento é visto como positivo por deslocar a ideia de que a técnica existe para agradar o outro, e não quem a pratica, contribuindo para mais autonomia e protagonismo feminino sobre o próprio corpo e bem-estar.
Mas, afinal, como funciona a prática de pompoarismo?
Também chamado de ginástica íntima, o pompoarismo funciona por meio de exercícios de contração e relaxamento dos músculos do assoalho pélvico, como se a pessoa estivesse “segurando” e depois soltando o fluxo de urina. Esses movimentos são repetidos em séries, com diferentes intensidades e tempos, para fortalecer e dar mais controle sobre a musculatura.
Apesar de parecer simples, é necessário coordenação motora, consciência corporal e conhecimento do próprio corpo para que os exercícios sejam feitos corretamente e tragam os benefícios esperados.
— Fui autodidata, comecei aos 15 anos porque li sobre isso em uma revista que encontrei na cabeleireira da minha mãe. Mas o ideal é sempre começar com uma fisioterapeuta pélvica, porque é uma musculatura que muitas de nós desconhecem. Estimamos que cerca de 30% das mulheres não sabem ativar essa musculatura — complementa Ana, que também é fisioterapeuta pélvica.
Embora as especialistas acreditem que a fisioterapia pélvica ainda pode ser pouco acessível, já que nem sempre é fácil encontrar especialistas capacitadas em todas as regiões, elas reforçam a importância de ao menos uma avaliação inicial. Assim, é possível receber uma orientação correta sobre início da prática, que à primeira vista pode parecer apenas um simples “aperta e solta” da região, mas exige técnica.
— Muitas mulheres chegam em mim após ver vídeos e acham que estão fazendo certo, mas estão fazendo força de expulsão (como para evacuar, por exemplo), que pode estar estimulando o surgimento de um prolapso (deslocamento de órgãos) no futuro. O homem, se contrai o assoalho pélvico, consegue ver o movimento do pênis. Nós mulheres não temos como ver isso. Então é importante ter esse primeiro contato e, depois, dá para fazer com base em vídeos ou assinar alguma plataforma para ir melhorando — pondera Camila.
Na área há mais de uma década, ela destaca a importância de um plano individualizado no começo. Para Camila, o entendimento de que nem todas mulheres podem iniciar a prática com o mesmo protocolo de exercícios foi uma das maiores evoluções no campo do pompoarismo nos últimos anos.
Por onde iniciar?
Há formas simples de começar a explorar a prática, testando os exercícios de forma leve para entender como está o controle e a consciência corporal. Essa experimentação inicial pode ajudar a reconhecer a musculatura e dar os primeiros passos no pompoarismo com mais atenção ao próprio corpo:
— Quando a mulher se conhece, se olha com um espelhinho, coloca o dedo para sentir a contração, começa com os exercícios básicos e guiados, ela já consegue fazer os exercícios e ter resultados. Algumas vão ter que fazer o teste do xixi, de “trancar” o fluxo de urina, várias vezes até pegar o jeito do movimento. Começa com exercícios mais básicos até chegar no nível de conseguir fazer na hora H, que pode levar vários meses — acrescenta a criadora do Vagina Sem Neura.

Com o tempo, a prática pode evoluir para diferentes níveis de intensidade, variando entre contrações mais leves, moderadas e mais fortes, conforme o controle da musculatura melhora. Também é possível incluir acessórios, como as bolinhas, que ajudam a dar mais noção dos movimentos, oferecem resistência e tornam os exercícios mais precisos e eficazes.
Quando o pompoarismo não é indicado
A prática é considerada segura para a maioria das mulheres, mas o pompoarismo pode não ser recomendado em alguns casos e exige cuidados.
Mulheres que apresentam condições como vaginismo ou dispareunia, quadros marcados por dor, ardência ou desconforto intenso durante a tentativa de penetração, mesmo com o uso de lubrificante, não podem iniciar o pompoarismo por conta. Nesses casos, a musculatura do assoalho pélvico pode estar em um estado de contração involuntária ou sensibilidade aumentada, o que exige avaliação e acompanhamento específicos antes de qualquer exercício.
— Fazer muitas vezes ao dia, pensando que vai acelerar o resultado, também não é indicado. Pode acabar lesionando, como qualquer outro exercício. Mas uma mulher não aguenta muito mais do que 10 ou 12 minutos fazendo a sequência de exercícios, então tem que cuidar esses limites — aconselha a fisioterapeuta e influenciadora Ana.



