
Em um cenário marcado pela escalada dos feminicídios no Brasil e pela popularização de discursos misóginos nas redes sociais, cresce, entre mulheres que se relacionam com homens, um sentimento difícil de ignorar: o heteropessimismo. O termo dá nome ao cansaço, ao medo e à descrença diante da possibilidade de viver relações heterossexuais seguras e saudáveis.
A expressão surgiu em 2019, quando o pesquisador norte-americano Asa Seresin publicou um artigo sobre o tema na revista The New Inquiry. Ele definiu o heteropessimismo como uma forma de distanciamento simbólico da heterossexualidade, marcada por arrependimento, constrangimento ou desesperança em relação a essas experiências românticas.
“O heteropessimismo geralmente coloca um forte foco nos homens como a raiz do problema. O fato de esses distanciamentos serem performáticos não significa que sejam insinceros, mas sim que raramente são acompanhados pelo abandono efetivo da heterossexualidade”, escreveu Asa, responsável por popularizar o termo.
Na prática, o conceito encontra eco em histórias de diversas mulheres.
— Perdi a esperança até nos caras legais. Para mim, já está nesse ponto. É um assunto que não aguento mais falar, mas que não paro de falar, porque eu e minhas amigas continuamos sendo afetadas por eles. Parece que a gente é socialmente instruída a girar em torno disso. Mesmo sendo bissexual, acho que tenho uma espécie de heterossexualidade compulsória — relata uma universitária de 23 anos, moradora de Porto Alegre, que prefere não se identificar.
Antes, a conversa parecia mais ancorada no movimento que levou muitas mulheres a rever padrões e expectativas nos relacionamentos. Hoje, segundo especialistas, o cenário é mais complexo. O aumento no número de feminicídios e de episódios de violência contra a mulher sustenta a tese de que se envolver com um homem pode ser não apenas emocionalmente exaustivo, mas potencialmente perigoso.
Para Fernanda Soibelman, psicóloga e psicanalista, o heteropessimismo cresce à medida que as mulheres conseguem reconhecer esse sentimento e outras situações de abuso como experiências compartilhadas.
— Quanto mais conseguimos nomear essas violências, às vezes subjetivas, e perceber como elas são comuns, fica mais claro. As mulheres não estão mais dispostas a tolerar certas coisas, com razão. Entramos nesse descompasso, em que muitos homens não estão sabendo lidar com isso. Aquela história de “nem todo homem, mas sempre um homem” cria, ou reforça, esse pessimismo — afirma.
Surgimento do sentimento é multifatorial
O heteropessimismo pode começar, em um primeiro momento, a partir do acúmulo de frustrações individuais que, pouco a pouco, deixam de parecer casos isolados. À medida que mulheres compartilham relatos, identificam padrões de desrespeito, desigualdade e ameaça e percebem que essas experiências se repetem, passa a existir uma sensação de desgaste e alerta constante.
Esse movimento, que antes era restrito a conversas entre amigas ou a desabafos pontuais, hoje ganha dimensão coletiva. Nos consultórios, em rodas de conversa e nas redes sociais, o sentimento aparece com frequência crescente, atravessando diferentes idades e contextos. O que se consolida não é apenas a soma de histórias frustradas, mas a percepção de que há um padrão estrutural nas experiências heterossexuais.
Para o psicólogo Humberto Carvalho, que pesquisa masculinidade, o crescimento do heteropessimismo também está ligado a uma crise contemporânea do significado de "ser homem". Ele explica que existe um cenário de pequenos conflitos cotidianos – de descompasso no modo de pensar ou nas atitudes – que alimenta o ceticismo feminino em relação a esses vínculos:
É que as mulheres têm se colocado muito mais à frente em pesquisas acadêmicas e acessado espaços de reflexão que são muito mais interessantes e complexos. Elas estão se politizando, em um sentido social e cultural, para entender os papéis e funções atribuídas a elas que precisam ser revistas. Os caras querem que a gente volte para o século 20, e consomem muito conteúdo sobre isso. Tem essa disparidade.
HUMBERTO CARVALHO
Psicólogo
Para o psicólogo, concepções ultrapassadas sobre papéis de gênero ainda operam como regras implícitas, pressionando mulheres a agir de determinada forma ou a tolerar comportamentos que já não consideram aceitáveis.
O problema, afirma, é que, enquanto elas questionam essas expectativas e reivindicam novos arranjos, parte dos homens resiste a rever responsabilidades. Esse desencontro de visões não aparece apenas em pequenos atritos cotidianos, mas também pode se manifestar em episódios mais graves de violência.
O que o heteropessimismo causa na prática?
Carvalho defende que esse conjunto de experiências, notícias assustadoras e novas reflexões cria uma espécie de “escada” de frustrações: o desejo de se relacionar permanece, mas vai sendo atravessado por alertas sucessivos até que, para algumas mulheres, a ideia de manter um vínculo com homens passa a parecer exaustiva ou mesmo inviável.
Em um vídeo publicado pelo psicólogo no TikTok sobre o tema, multiplicam-se comentários de mulheres que afirmam ter decidido interromper relações com homens. “Medo de virar estatística” e “ficar sozinha é mais fácil” aparecem entre as justificativas mais recorrentes. Há também ponderações que indicam que o heteropessimismo não necessariamente as afasta do sexo oposto, como Asa descreveu, só as deixa mais seletivas e exigentes.
Para Fernanda, esse contexto afeta diretamente a saúde mental, a autoestima e as relações interpessoais e profissionais das mulheres.
— Somos muito ensinadas a ocupar pouco espaço, e isso aparece em várias esferas da vida. Vemos muitas mulheres com dificuldades de se posicionar nos seus trabalhos, que, muitas vezes, são ambientes majoritariamente masculinos. Sabemos que, de forma geral, violências repetidas, independentemente da natureza, vão adoecendo as mulheres. Causam depressão, ansiedade e medo. Elas acabam tendo dificuldade de sair desses relacionamentos porque estão adoecidas, isoladas e dependentes.
Existe solução para o heteropessimismo?
Os dois psicólogos acreditam que, sim, é possível contornar o problema, mas exige envolvimento ativo de ambos os lados. Para eles, homens precisam rever referências de masculinidade, questionar conteúdos que reforçam desigualdades e assumir responsabilidade emocional nas relações.
— A forma como nós tratamos a nossa masculinidade e os nossos discursos de masculinidade precisa mudar. Temos que dar um passo para trás e entender como estamos. Eu sinto que isso está acontecendo. Óbvio, de forma muito devagar, mas existe um movimento interessante sobre masculinidades acontecendo. Mas é necessário produzir outros discursos e outras formas de ser enquanto homens — defende Carvalho.
Já às mulheres, o caminho passa por fortalecer limites, reconhecer sinais de desrespeito sem normalizá-los e evitar que o ceticismo se transforme em isolamento automático. A saída, defendem os especialistas, não está em ignorar os conflitos, mas em promover diálogo, educação emocional e mudanças concretas de comportamento.
— Por um lado, entendo essas pessoas que falam que não querem ser professoras de homem, não querem ficar ensinando. Mas também, se não falamos, é muito difícil que o outro vá se questionar por conta própria. Precisamos conversar com os homens ao nosso redor, com os nossos filhos, porque não tem como fugir do letramento — avalia Fernanda.




