
O aplicativo de relacionamento Hinge chegou ao Brasil com foco em relacionamentos duradouros e direcionado à geração Z (mas sem excluir outras faixa etárias).
Diferente dos outros apps, o Hinge conta, na versão gratuita, com perguntas quebra-gelos, perfis mais completos e até formulário de satisfação para responder após o encontro. O objetivo é estimular interações autênticas e profundas.
— Pedimos que os usuários coloquem mais cuidado e profundidade em seus perfis, mostrando quem são e não apenas como parecem. No Hinge, em vez de simplesmente curtir ou rejeitar um perfil inteiro, é possível interagir de forma mais profunda com partes específicas, como respostas em texto aos nossos quebra-gelos — explica a CEO do aplicativo, Jackie Jantos.
O processo de criar um perfil no aplicativo leva em torno de oito minutos. Além de fotos e informações básicas, a plataforma sugere que o usuário responda perguntas sobre qual tipo de relacionamento procura, religião e posicionamento político. Além disso, ainda na criação do perfil, é possível realizar a verificação de identidade.
Como funciona o Hinge?

O aplicativo promete conexões que foquem na personalidade e valores de cada pessoa. Entre as principais funcionalidades do Hinge, estão:
- Prompts (quebra-gelos): os prompts são perguntas ou frases pré-definidas que incentivam a interação. Cada perfil precisa conter ao menos três respostas aos quebra-gelos. Por exemplo: "A gente vai se dar bem se...". Junto com os textos e imagens, os usuários podem adicionar áudios e vídeos às respostas
- Metas de relacionamento: o recurso permite que a pessoa indique o tipo de relação que busca. O usuário ainda pode descrever sua meta de relacionamento com as próprias palavras
- Áudios: é possível mandar mensagens de voz para tornar as interações mais naturais
- "Sua vez": função que lembra o usuário de retomar a conversa, para estimular a continuidade do assunto (e para evitar o ghosting)
- Limites do "sua vez": exige que o usuário responda ou finalize interações anteriores antes de iniciar novas conexões
- "A gente se conheceu": pesquisa enviada aos usuários após um encontro, para entender se houve interesse mútuo em continuar o contato

"Match Note" para pessoas trans e neurodivergentes
A funcionalidade "Match Note" foi pensada diretamente para a inclusão de pessoas trans, não binárias e neurodivergentes.
— Ouvimos que um dos momentos mais estressantes do dating é o medo de ser mal interpretado ou de não ser recebido com sensibilidade ao compartilhar informações pessoais. Por isso, criamos uma forma privada e opcional de compartilhar esse contexto logo após o match e antes do início da conversa — explica Jackie Jantos.
Ferramentas de segurança
De acordo Jantos, o aplicativo possui algumas ferramentas de segurança para que as pessoas se sintam "confiantes, respeitadas e apoiadas" à medida que avancem nas conexões com outras pessoas. Confira:
- Verificação de selfie: vídeo selfie único e privado ajuda a confirmar a autenticidade de um perfil
- Filtro de comentários: permite aos usuários filtrar palavras, frases ou emojis que não desejam receber
- "Tem Certeza?": se alguém está prestes a enviar uma mensagem que pode ser percebida como ofensiva ou desrespeitosa, a funcionalidade sugere uma pausa para reconsiderar a linguagem
— Por trás de tudo isso está uma combinação de tecnologia avançada, moderação humana e pesquisa contínua para garantir que estamos prevenindo e interrompendo possíveis situações de risco. Afinal, as pessoas se abrem mais quando se sentem seguras — diz a CEO.
Românticos, mas cautelosos
Jackie Jantos afirma que os jovens brasileiros da geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) buscam conexões ao mesmo tempo que são mais isolados do que as outras faixa etárias. Essa geração representa mais de metade da base ativa de usuários do Hinge.
— Muitos cresceram com menos oportunidades de socialização presencial, especialmente durante a pandemia. Isso criou um forte desejo por segurança emocional, clareza e respeito mútuo. (...) Os jovens da geração Z no Brasil atribuem alto valor emocional à conexão, à química e à presença — diz a CEO.
A geração Z, que hoje tem entre 16 e 31 anos, foi e segue sendo influenciada pelas novas tecnologias e pelas rápidas transformações no mundo. A psicóloga e sexóloga Madalena Leite explica que esse cenário pode contribuir para que o grupo lide com complexidade, confusão e superficialidade na hora de se relacionar.
— Movimentos como a curtida de um story (no Instagram) acabam virando comportamentos não verbais, que podem ser entendidos de múltiplas formas. (...) É pouca conversa e muita leitura mental — exemplifica a especialista.
A psicóloga clínica Laís Ribeiro acrescenta que é "inevitável falar da geração Z sem falar de hiperconectividade". Ela ressalta que esse grupo construiu valores, identidade e formas de enxergar o mundo ao mesmo tempo em que o ambiente virtual se expandia e se transformava:
— Não é só sobre uso de tecnologia, mas sobre desenvolvimento emocional e social acontecendo em paralelo a esse universo digital.
Laís ainda afirma que o ambiente virtual pode intensificar dinâmicas que sempre existiram, como ciúmes, inseguranças e ansiedades. E, ao mesmo tempo, ajuda pessoas mais tímidas a dar o primeiro passo para um diálogo.
Relacionamento "sério"
O Hinge aposta em relacionamentos sérios e na geração Z. Mas afinal, essa geração ainda acredita no "felizes para sempre"? A resposta não é tão simples. Esse grupo costuma ter relações mais respeitosas, conversando sobre limites, responsabilidade emocional e comunicação.
No entanto, por serem exigentes com o outro e com as relações que querem para si, "nem sempre entendem que todo relacionamento terá suas falhas", pontua Madalena.
Vai de cada um entender o quanto de desconforto está disposto a lidar para conhecer alguém. Não existe ganho sem risco. App é procurar agulha no palheiro, assim como em qualquer outro lugar: você conversa com várias pessoas, mas poucas de fato conectam
MADALENA LEITE
Psicóloga e sexóloga
Por mais que muitas pessoas busquem vínculos duradouros, o que cada um entender por "sério" pode variar.
— Para algumas pessoas, "sério" significa anos e anos juntos, enquanto para outras, o foco não está tanto na duração, mas na intensidade, na cumplicidade e na qualidade da relação, independente da longevidade — destaca Laís.
A psicóloga avalia que um relacionamento sério e duradouro é aquele em que existe compromisso e cuidado mútuo, independente do formato que ele assuma.
— Para apostar em um vínculo assim, é fundamental ter comunicação aberta, saber negociar e fazer concessões, cultivar muita empatia e, ao mesmo tempo, autoestima e autocuidado para reconhecer o que você merece e quais são os seus limites. Esses elementos ajudam a construir uma relação saudável e genuína — conclui.
*Esta matéria foi supervisionada pela jornalista Raphaela Suzin

