
“Onde está o meu casaco?” “Como faço para ligar a máquina de lavar?” “O que está faltando em casa?” “Pode comprar um presente de aniversário para a minha mãe?”
As perguntas parecem banais, mas se repetem com tanta frequência que acabam revelando um padrão nos relacionamentos heterossexuais: a transferência cotidiana de responsabilidades para as mulheres. Entre decisões domésticas e demandas familiares, os pedidos que parecem inofensivos ajudam a construir uma sobrecarga invisível que pode afetar a saúde mental e a relação do casal.
Para a psicóloga Juliane Borsa, que estuda relações de gênero, esse padrão atravessa gerações. Em modelos mais antigos de relacionamento, a divisão de responsabilidades era explícita. Às mulheres, cabiam o cuidado da casa, da alimentação e dos familiares; aos homens, o papel de provedor, que saía para trabalhar e retornava com o sustento financeiro.
— Hoje, nos casais mais novos, existe um discurso de igualdade. Muitos homens, inclusive, se autodenominam feministas, porque defendem a igualdade de gênero. Mas, na prática, vemos que não é bem assim. Agora, as mulheres estão no mercado de trabalho, só que a divisão das tarefas domésticas continua sendo desigual, então elas ficam sobrecarregadas — acrescenta Juliane.
Na vida real, essa desigualdade se manifesta menos em ordens diretas e mais no acúmulo de funções. Além de parceiras, muitas mulheres passam a ser gestoras da casa, da agenda familiar e das relações afetivas, responsáveis por lembrar prazos, antecipar necessidades e resolver pendências que não aparecem como tarefas formais.
O que é carga mental?
A dúvida ganhou força com uma cena de All Her Fault (2025, Prime Video – Tudo Culpa Dela, em tradução livre). Após o nascimento do primeiro filho, Marissa Irvine (interpretada por Sarah Snook, vencedora do Globo de Ouro) pede que o marido, Peter Irvine (Jake Lacy), ajude mais. Ele prontamente responde que está disposto a participar e que fará o que a esposa pedir.
A resposta, embora bem-intencionada, escancara a armadilha. Ao se colocar apenas como executor de tarefas, à espera de instruções, ele até participa, mas mantém com a mulher a responsabilidade de pensar, decidir e coordenar.
— Isso é o que chamamos de carga mental. É um trabalho constante de planejamento, que não aparece, mas exige muita energia cognitiva. Por exemplo, se não sabemos como fazer algo, procuramos um vídeo que ensine, enquanto eles nos perguntam como fazer. Eles delegam o esforço cognitivo de pensar e, para eles, esse não é um trabalho que nos cansa — afirma a psicóloga e sexóloga Madalena Leite.
Por que a sobrecarga recai sobre as mulheres?
Estudos na área indicam que esse desequilíbrio é resultado de uma construção histórica que, por décadas, associou às mulheres a responsabilidade pelo cuidado. Mesmo com mudanças no mercado de trabalho e nos arranjos familiares, essa lógica segue operando de forma quase automática, avaliam as especialistas.
Professora e pesquisadora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Mariana Boeckel defende que a atenção constante às necessidades da casa e da família não é uma habilidade inata das mulheres. Trata-se de um comportamento aprendido, ensinado e reforçado socialmente:
— O amor e o cuidado são características humanas, para a nossa perpetuação da espécie. Não está escrito na biologia feminina. Pelas minhas pesquisas, os homens naturalizam muito essa sobrecarga, explicando principalmente por questões genéticas e religiosas, o que é ser homem. Mas nós nos construímos, enquanto mulheres e homens, a partir de padrões, estereótipos e expectativas sociais e culturais, não por determinantes exclusivamente biológicos.
Esse aprendizado começa cedo, destaca a especialista. Ainda na infância, meninas são incentivadas a brincar de boneca e de casinha, enquanto meninos costumam ser estimulados a atividades ligadas à ação, ao desempenho ou à autonomia. Em casa, muitas vezes, observam mães que organizam a rotina familiar e pais menos envolvidos nesse trabalho invisível. Assim, antes mesmo da vida adulta, a ideia de que prever, cuidar e organizar é uma responsabilidade feminina já está fortalecida.
— Noto, em outras pesquisas, que as mulheres também acreditam que isso está intrínseco, porque somos capazes de gerar um ser humano. Mas é um mito, os homens também participam da fecundação. E, nos grupos com homens acusados de violência doméstica que fazemos lá na universidade, vejo essa postura de “sempre foi assim, não dá para mudar” — pondera Mariana.
Condição afeta a saúde mental e o relacionamento
Quando essa sobrecarga se acumula, os efeitos ultrapassam o cansaço do dia a dia. Juliane destaca que a concentração contínua de responsabilidades mentais pode gerar estresse, ansiedade e sensação de exaustão permanente nas mulheres, além de alimentar frustrações silenciosas:
— Mesmo quando essa queixa não é central, em algum momento aparece. Essa questão do cansaço, da mágoa, do ressentimento e da decepção de não poderem contar efetivamente com os parceiros como parceiros. A perda dessa ideia de uma relação horizontal, em que o homem e a mulher estão na mesma prateleira. O impacto disso é cumulativo e profundo.
Madalena acrescenta que esses sentimentos podem aumentar as chances de as mulheres desenvolverem dificuldades para dormir, perda de desejo sexual e transtornos como burnout, ansiedade e depressão. Ao mesmo tempo, a sobrecarga tende a impactar diretamente a dinâmica do casal, podendo comprometer a comunicação e enfraquecer a sensação de parceria, fazendo com que o relacionamento passe a ser percebido mais como uma fonte de desgaste.
Para mudar essa situação, a psicóloga e sexóloga sugere priorizar o diálogo:
— Primeiro, precisa pensar exatamente o que incomoda. É o marido me perguntar onde estão as coisas? É ter que sempre marcar médico para ele? Depois, sentar com o parceiro para dizer o que não está confortável e definir esse limite, de que não vai mais fazer. Ele é adulto e pode se virar. E aí, sustentar esse limite e tolerar o processo de aprendizado do outro, que pode não ser como eu quero.
