
A chegada dos filhos transforma a vida do casal – o corpo e a mente mudam, a rotina fica mais corrida, o cansaço se acumula, a relação a dois passa a ter novas prioridades e demandas. E, em meio a essas mudanças, a vida sexual também começa a perder espaço, ritmo e até sentido. Por isso, alguns aspectos exigem atenção para retomar a intimidade.
As mudanças na vida sexual do casal começam antes mesmo do nascimento da criança. Para quem planeja a gravidez, o sexo deixa de ser apenas um momento de prazer e passa a ter uma função prática: conceber. Essa nova perspectiva pode alterar a dinâmica da relação, pontua a sexóloga Ângela Perotoni. Durante a gestação, o tema também pode se tornar delicado.
— A fase gestacional realmente é um pouco mais cuidadosa. Às vezes, as mulheres têm muita libido e os homens já ficam um pouco mais retraídos. Após o bebê nascer, vem outra fase, e toda a atenção para esse casal, que antes eram só eles, passa a ficar focada para o bebê. As prioridades vão mudando com cada etapa, em cada tempo — acrescenta a especialista.
Quais são as principais dificuldades para as mulheres?
O puerpério é a fase fisiológica de recuperação que se inicia com o nascimento da criança e dura cerca de seis semanas. Segundo a ginecologista e obstetra Marcia Giacobe, esse período pós-gestacional é o tempo recomendado para o útero retornar à posição original, o organismo se reorganizar e para a retomada ou iniciação de métodos contraceptivos. Após essa pausa, as relações sexuais podem voltar a acontecer.
Um estudo publicado na revista científica Pesquisa, Sociedade e Desenvolvimento (Research, Society and Development, em inglês) aponta que, embora a maioria das mulheres retome a vida sexual entre três e seis meses após o nascimento da criança, é comum que enfrentem disfunções nesse período inicial.
— Ou é dor na relação sexual, devido à diminuição na lubrificação vaginal, ou desejo sexual hipoativo (diminuição do interesse por sexo), em virtude dos hormônios desse período. É um conflito da natureza entre feminilidade e maternidade. Então, os hormônios da maternidade, principalmente a prolactina, que aumenta para a amamentação, acabam inibindo os outros aspectos da mulher, principalmente essa parte de libido e de desejo sexual — explica Marcia.
A médica garante que alguns desses aspectos são tratáveis. A fisioterapia pélvica durante a gestação, por exemplo, ajuda a diminuir dores perineais e fazem com que a mulher se recupere mais rápido no pós-parto. Os lubrificantes podem ser aliados para aumentar o conforto e evitar dores durante as relações sexuais, especialmente quando há ressecamento vaginal.
Como fica o desejo depois da maternidade?
A principal queixa, de acordo com as especialistas, é a diminuição da libido após o parto. O problema ocorre tanto pela condição fisiológica, de alteração dos níveis hormonais, quanto pelo cansaço, inseguranças e preocupações.
— Entre a amamentação, noites sem dormir e uma avalanche de novas demandas emocionais que vão chegando, a mulher não quer pensar em transar. Ela quer dar conta de ser mãe. Além disso, o sutiã de amamentação pode não ser considerado sexy, a mulher está vazando leite, a barriga pode demorar para voltar ao normal, e tem uma série de outros fatores envolvidos que deixam ela vulnerável. Ela não se sente bonita e a questão da autoestima afeta — aponta Ângela.

Diante de tantas mudanças físicas e emocionais, o desejo pode realmente ficar em segundo plano. Ângela e Marcia pontuam que isso é natural e, muitas vezes, temporário. É necessário que o casal tenha paciência e segurança para que a sexualidade possa ser resgatada.
Novas demandas também interferem na intimidade
Os desafios na vida sexual do casal não se limitam somente ao período após o nascimento do bebê. À medida que as crianças crescem, novas demandas surgem e podem interferir na intimidade.
A rotina acelerada, o acúmulo de responsabilidades e a sobrecarga mental são fatores que continuam impactando o desejo e a conexão entre os parceiros. Ângela reforça que, em alguns casos, a falta de privacidade ou de um tempo de qualidade do casal a sós também pode afetar a vida sexual.
— A questão da cama compartilhada com o filho, por exemplo, torna muito difícil. Reservem um momento para o casal, tomem um banho juntos, vão os dois para a sala ou para outro quarto, coloquem a babá eletrônica — acrescenta a sexóloga .
Então, como retomar a vida sexual?
Apesar dos desafios, alguns dos fatores que afetam a vida sexual dos casais após a chegada dos filhos podem ser contornados. Ângela e Marcia dão dicas de como recuperar a intimidade ou evitar que ela se apague completamente:
1. Paciência e empatia
Os casais precisam ter paciência para que essa fase de adaptações pós-parto passe naturalmente. É fundamental que ambos cultivem empatia para compreender as demandas físicas e mentais que cada um enfrenta, além de respeitar os diferentes níveis de desejo que podem surgir nesse período.
— Os homens têm que entender essa adaptação da mulher à nova fase. É bem importante ressaltar que essa parte hormonal não é nada espontâneo da mulher. Essa questão fica muito exacerbada nesse período e realmente as disfunções sexuais aparecem bem frequentemente — afirma Marcia.

2. Diálogo
Criar um ambiente seguro e livre para conversar abertamente sobre as mudanças, o desejo e as inseguranças que surgem após a chegada dos filhos também pode ser fundamental. Dessa forma, ambos podem se entender melhor, ajustar expectativas e fortalecer o vínculo emocional.
3. Tarefas compartilhadas
As demandas relacionadas à maternidade e à paternidade podem ser divididas de forma equilibrada para evitar sentimentos de sobrecarga. Essa dinâmica cria espaço para o autocuidado, que, segundo as especialistas, pode aumentar a disposição e o desejo.
4. Momentos a sós
Tempo de qualidade, tanto individualmente quanto juntos, permite que a intimidade e o desejo floresçam. É importante que o casal reserve momentos para curtir a companhia um do outro sem o foco total nos filhos. Sair para jantar, tomar um banho juntos, assistir um filme em outro cômodo ou conversar sem pressa ajudam a reacender a conexão afetiva.
— É uma condição que a mulher, principalmente, tem que se propor. Tem que se condicionar a ter os momentos com o parceiro, tentar ter os momentos de intimidade com ele, independente dos filhos. Ter uma rede de apoio permite o descanso para esses pais estarem mais dispostos para isso — ressalta Marcia.
5. Cultivo da relação
As especialistas concordam que os dois devem cultivar a relação e lembrar que, antes de serem pais, são um casal com conexão e desejos.
— Entender que o casal é importante. Que através do casal vem os filhos. A intimidade leva ao sexo. O desejo vem do carinho, do toque. E tem que olhar para isso, porque o sexo traz disposição, felicidade, ativa vários hormônios legais e deixa o casal mais conectado e feliz, até para cuidar dos filhos — aconselha Ângela.



