
Presente na fantasia e na vida sexual de muitas pessoas, o sexo anal é um dos fetiches mais comuns entre os brasileiros. Mesmo com o aumento dos estudos e conversas sobre o tema, a prática ainda é cercada por desinformação, tabus e receios. A falta de orientação adequada pode contribuir para a propagação de mitos sobre os impactos do ato no corpo, benefícios, cuidados necessários e os possíveis riscos à saúde.
Um estudo publicado recentemente na revista científica Oxford Academic indica que o sexo anal pode ser fonte de prazer tanto para homens, quanto para mulheres. A experiência positiva independe da orientação sexual, da dinâmica do relacionamento ou do tipo de penetração anal. A prática pode envolver diferentes partes do corpo, como dedo, língua e pênis, ou brinquedos eróticos.
— O sexo anal é uma realidade. Está presente nas relações. No mínimo, na imaginação e no fetiche de uma relação sexual, mas também é muito comum na prática diária, no usual. Assim como escovar os dentes depois que comemos doce, precisamos cuidar. O sexo anal é possível, mas precisa de cuidados para ser executado de forma segura — garante a coloproctologista Mariane Bartmann.
Mitos e verdades sobre sexo anal
Praticantes e curiosos costumam ter dúvidas sobre dor, cuidados antes e depois da prática, riscos à saúde, formas de proteção e estratégias para tornar a experiência mais confortável.
Zero Hora conversou com Mariane Bartmann, coloproctologista, Joana de Araujo, ginecologista e sexóloga, Luíze Bettanzo, proctologista, e Gabriel Veber, andrologista, para explicar alguns dos principais mitos e verdades sobre o tema.
❎ É normal sentir dor durante a prática
Mito. Joana defende que sentir dor durante o sexo anal não deve ser considerado normal, já que com o preparo adequado, o uso de lubrificante, comunicação entre os parceiros e o respeito aos limites do corpo, a prática pode ser confortável e prazerosa.
— O sexo não é para doer nunca, de nenhuma forma. Nem o sexo vaginal, nem oral e nem o anal devem doer. Quando dói é porque algo não está sendo feito da forma adequada — pontua a ginecologista e sexóloga.
✅ O uso de lubrificante é obrigatório
Verdade. O reto não produz lubrificação natural, e a fricção sem esse cuidado pode causar dor, fissuras, sangramentos e aumentar o risco de lesões e infecções. Para a prática, os mais recomendáveis são os lubrificantes à base de água.
— Esses produtos, que são mais naturais, evitam a irritação do local. É importante evitar o uso de anestésicos e dessensibilizantes, vendidos em sex shops, justamente para que não se perca a sensibilidade e a pessoa possa interromper ou diminuir a intensidade em caso de dor — aconselha Veber, médico especializado em saúde masculina.

❎ É necessário fazer a lavagem interna da região antes da relação
Mito. A proctologista Luíze explica que pessoas com o intestino regulado, que se sentem satisfeitos após evacuar e que não estão com vontade de fazer cocô na hora da relação, reduzem drasticamente o risco de "acidentes". Contudo, é normal que algumas pessoas se sintam mais seguras para a experiência após realizar a ducha higiênica, popularmente conhecida como "chuca" — mas é necessário tomar alguns cuidados:
— O ideal é que se utilize os instrumentos descartáveis que vendem na farmácia para isso, com uma água filtrada e aquecida, para que ela fique morna e diminua o risco de lesão por queimadura. E é importante que se evite fazer diretamente do chuveirinho do banheiro, por causa do volume de água.
Ela acrescenta que não há uma orientação sobre qual frequência é segura. A ducha higiênica recorrente pode causar lesões na mucosa. Por isso, Luíze indica que pessoas que pratiquem sexo anal receptivo consultem com um proctologista pelo menos uma vez ao ano.
✅ A camisinha é indispensável durante a prática
Verdade. O uso de camisinha é altamente recomendado no sexo anal porque oferece uma barreira eficaz contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e ajuda a reduzir o risco de lesões causadas pelo atrito.
— A transmissão de ISTs é bem mais fácil ou mais provável com o sexo anal — afirma Joana.
❎ O ato não deve ser praticado todos os dias
Mito. A frequência do sexo anal varia conforme os limites e o conforto de cada casal, mas não há contraindicações específicas para a prática diária.
✅ Há risco de lesões
Verdade. A prática pode causar lesões porque a mucosa do reto é sensível e vulnerável a fissuras, pequenas rupturas e irritações, principalmente quando a penetração ocorre sem lubrificação adequada, preparo ou respeito aos limites.
— Por isso é importante evitar que a relação seja muito intensa, porque a sensibilidade do local pode passar despercebida e a pessoa não interrompe o ato por estar machucada e acaba ficando com uma lesão ainda mais grave. Se ocorrer, a pessoa vai ter dor e sangramento, e aí precisa pausar e procurar atendimento — sugere Veber.
❎ A prática afrouxa a musculatura anal
Mito. O sexo anal não "alarga" o ânus, como algumas pessoas pensam, nem afrouxa a musculatura da região, já que o esfíncter anal é elástico e retorna ao seu tônus natural quando a prática é feita com cuidado e sem lesões.
Outra preocupação comum é em relação à incontinência anal. Mariane ressalta que não há risco de o praticante do sexo anal receptivo sofrer diminuição na capacidade de controlar a evacuação e, com isso, ter liberação involuntária de gases ou fezes.
— A incontinência tem a ver com a integridade do músculo esfincteriano, que é formado por duas camadas, uma interna e uma externa, e a atuação dessas musculaturas em conjunto é responsável pela continência — acrescenta Mariane.
✅ Existe uma posição mais indicada para a prática
Verdade. Adaptar a prática a ângulos mais confortáveis e movimentos mais lentos pode facilitar a penetração e reduzir o desconforto.
— Acho que a posição de decúbito lateral (deitado de lado) é a mais recomendada, porque proporciona esse controle e também tem esse toque direto com a região anterior do reto. E, pensando em clitóris, também permite o toque direto na região feminina — revela Mariane.
❎ Pode fazer sexo vaginal depois do sexo anal
Mito. Fazer sexo vaginal logo após o sexo anal sem realizar a higiene adequada pode facilitar a migração de bactérias do reto para a vagina, aumentando o risco de infecções.
— A ordem dos fatores altera muito o produto. É primeiro o sexo vaginal para depois fazer o sexo anal. Não se pode inverter essa ordem, mesmo com a troca de preservativos. Principalmente para as mulheres que são mais sensíveis a infecções vaginais — reforça a ginecologista e sexóloga.
✅ Sexo anal não engravida
Verdade. A prática não leva à gravidez porque a penetração ocorre no reto, e não na vagina, o que impede que os espermatozoides entrem em contato com o útero e as trompas, onde a fecundação acontece.
❎ Há contraindicações para esse tipo de relação
Mito. Não há contraindicações específicas para o sexo anal em pessoas saudáveis, desde que a prática seja consensual, feita com os devidos cuidados de higiene e lubrificação.
— Pessoas com hemorroidas também podem fazer, porque vai da sensibilidade de cada um. Mas pessoas com feridas, mesmo assintomáticas, devem cuidar. Tem o caso da sífilis, que pode causar uma ferida que não coça e nem dói, mas, através dela, pode contaminar o parceiro. A herpes genital é o mesmo — defende Mariane.
✅ Estar relaxado é essencial
Verdade. A tensão muscular, especialmente na região do esfíncter, pode causar dor, dificultar a penetração e aumentar o risco de lesões, enquanto o relaxamento facilita o encaixe, torna a experiência mais confortável e prazerosa. Por isso, Joana defende que as preliminares são importantes:
— Tem que estar relaxado e confiante naquele momento. Outra coisa importante é o grau de excitação. Para a maioria das pessoas, a prática anal não pode ser a primeira parte da interação sexual. Tem que começar com um beijo aqui, outro beijo ali, e dar um tempo para atingir uma excitação maior — aconselha a ginecologista e sexóloga.
❎O uso de laxantes pode ajudar a preparar o ânus para a relação
Mito. O uso de laxantes antes do sexo anal não é necessário e pode até ser prejudicial, garante Luíze:
— O laxante pode mobilizar o cocô que está parado em uma área que é para ele estar, lá para cima do sigmoide, e pode fazer descer. Então o cocô que não ia atrapalhar a relação, passa a atrapalhar.
