
Pouco antes das 18h de uma quinta-feira de agosto, Letícia Colin acabava de sair de uma gravação nos Estúdios Globo quando atendeu a ligação de Zero Hora. Antes de qualquer pergunta, fez questão de se desculpar: um imprevisto havia obrigado a atriz a desmarcar, dias antes, a entrevista combinada com Donna. Não precisava. Aos 36 anos e em um momento de intensa demanda e exposição profissional, encontrou outro espaço na agenda e, no trajeto até em casa, conversou sobre as duas mulheres tão diferentes com as quais está no ar — e, aos poucos, sobre a mulher que existe quando as personagens ficam no estúdio.
Uma delas é Adriana, protagonista de Quem Ama Cuida, novela das nove da TV Globo. Condenada injustamente pela morte de Arthur (Antonio Fagundes), a fisioterapeuta tenta provar inocência enquanto executa um plano de vingança contra quem a colocou na prisão. A trama chega ao capítulo 100 no próximo dia 11 e promete novas reviravoltas que vão dar novos rumos à personagem.
— É emocionante chegarmos na metade dessa jornada em uma novela de tanto sucesso. Estamos felizes, muito unidos e nos divertindo muito nas gravações. Essa atmosfera tão fraterna entre equipe técnica e todos os outros setores é incrível! Eu estou radiante — celebra a atriz.
A outra é Rita, de Jogada de Risco, série original do Globoplay na qual contracena com Cauã Reymond. Ex-prostituta de luxo, Rita organiza festas privadas para jogadores e empresários, circula pelos bastidores milionários — e nem sempre lícitos — do futebol e se movimenta em um universo marcado por dinheiro, sexo e relações de poder.
— Quando você pode entrar com a ficção dentro de um lugar que todo mundo ama, como o futebol, e trazer histórias que a gente sabe que são inspiradas em fatos reais, mas ficcionalizar em cima delas, é um golaço, literalmente — graceja Letícia.
Diante de personagens construídas em universos tão distintos, a atriz defende a complexidade que dá contornos realmente humanos a elas, e destaca as mudanças na forma como a televisão retrata as mulheres, e que talvez ajude a explicar por que as duas têm chamado tanta atenção.
Em ambas as produções, a química entre Letícia e seus pares — o Pedro de Chay Suede na novela e o Maurício de Cauã Reymond na série — atravessa a tela e incendeia as redes sociais. Especialmente em Jogada de Risco, as sequências de sexo e nudez botaram a produção no centro das conversas e no topo dos assuntos mais comentados na internet. Letícia não foge do tema — ao contrário, questiona por que corpo, erotismo e sexualidade ainda provocam tanto incômodo:
— Assusta muito, né? Porque de fato é muito poderoso.

Em uma conversa de 40 minutos que começou no território da dramaturgia, não demorou para que o papo mudasse de lugar e de tom. Mesmo que a chamada não tenha sido em vídeo, foi fácil reconhecer do outro lado da linha o sorriso largo que o público conhece da televisão.
Ao falar sobre maturidade, enumerou, entre risos, o que diz enxergar ao rever algumas cenas: “Eita caramba, essa linha de expressão aqui tá forte, nossa, olha meu cabelo, olha meu braço”. A brincadeira, contudo, abriu uma reflexão sobre perceber e aceitar a passagem do tempo.
Mãe de um menino de seis anos, relatou ainda como a maternidade mudou sua relação com o trabalho, contou que cogitou abandonar a profissão por acreditar que não era boa o suficiente e revelou as descobertas de uma história de amor que precisou aprender a existir de outra maneira. Letícia e o ator e diretor Michel Melamed, 50 anos, se separaram em 2024 e retomaram a relação neste ano. Pais de Uri, escolheram preservar casas e espaços individuais. Ao falar sobre o reencontro, a atriz evita receitas — diz partir de uma experiência muito particular —, mas encontra um caminho: ter entendido que reconstruir é muito maior do que simplesmente reatar, é “pegar aqueles mesmos três tijolos e encaixá-los de outro jeito para erguer aquela casa".
Entrevistas
Leia a seguir a entrevista com Letícia Colin

Adriana chega ao público em um lugar de empatia, de injustiçada, enquanto a Rita ocupa um espaço que costuma ser de julgamento. O que isso te diz sobre as caixinhas em que se costuma colocar e julgar as mulheres e o que você acha que faz o público criar conexão e empatia com personagens tão distintas?
Nossa, superinteressante! É rico poder pensar nisso tudo através de personagens que estão ali vivendo a coisa como num jogo de tabuleiro. Eu não sei exatamente explicar a empatia, porque às vezes você pode não se identificar com o personagem e ter vontade de ficar assistindo mesmo assim, talvez pela estranheza, pela diferença paradoxalmente oposta, mas que te intriga. E às vezes você pode colar no personagem porque você viveu aquela história e está vendo alguém ali legitimando um sofrimento, ou um desejo, ou um sonho. É misteriosa a conexão mesmo das pessoas com personagens diversos, tanto é que a gente é capaz de amar personagens desprezíveis e não se identificar com personagens sofredoras, como muitas vezes acontece com as mocinhas, né?
E quando você constrói uma personagem como a Rita, que carrega tantos elementos sujeitos ao julgamento, sente que precisa protegê-la do olhar do público?
A gente sabe do preconceito e do falso moralismo. Esse olhar de proteger os personagens, eu tenho com todos. É importante proteger para que o telespectador tenha uma experiência mais humana. É importante que a personagem tenha espaço para existir e incomodar quando tiver que incomodar, chorar quando tiver que chorar, ou não pedir desculpa em vez de sempre pedir, sabe? Mas também não querer defender demais. Às vezes os personagens têm que errar e têm que fazer coisas que eu não concordo e que não são exatamente boas. É uma balança para que a personagem seja complexa e não fique enjoativa.

Jogada de Risco tem cenas fortes de sexo e nudez. Quando uma cena de intimidade passa a revelar quem é aquela mulher e como as relações de poder atravessam o corpo dela, como fazer para que o olhar do público não reduza a personagem ao que está sendo mostrado?
Não é um trabalho sozinho, só meu. Quando você tem um texto que respeita a existência dos personagens, com um passado, um presente interessante, alguma ambição ou projeção pro futuro, já é um grande começo. O espectador percebe muito essa diferença. Quando você também entende o quanto pode ser interessante uma narrativa de uma cena erótica ou de um filme de sexo, o quanto pode ser poderoso conseguir fazer isso de um jeito bem-feito, com realismo, quando você se despe do medo e da hipervalorização da sedução, do erotismo, tudo melhora muito, tudo flui.
Mas ainda está longe de ser naturalizado...
O corpo, o sexo, o erotismo. Assusta muito, né? Porque é muito poderoso. Só que é mais um dos aspectos humanos. A gente está falando de dominação. Quando a gente fala menos sobre isso, está mais dominada. Quando a gente fala mais, tem mais recursos, mais ferramentas, especialmente as mulheres. Você vai instrumentalizando o discurso, o pensamento, nomeando o seu desejo para falar de poder.
A gente tem que falar de corpo sim e de sexualidade sim. Então, acho muito contemporâneo, pertinente, e tenho bastante orgulho desse trabalho.
O que mudou na maneira como a televisão brasileira escreve as mulheres?
Vem mudando, estamos atentas. É um caminho pela frente. É muito forte na história do planeta a questão masculina e a dominância desses personagens como agentes motores das histórias, que têm o poder, que têm a força. É uma coisa forte ainda para se quebrar, acho que vão ser necessários mais alguns séculos. Para mim, hoje em dia, eu te diria que só tem como fazer se for assim: se a personagem tiver complexidade, camadas, algo que realmente transforme dentro da trama, que seja relevante.
Você já recusou ou questionou uma personagem porque não concordava com a maneira como aquela mulher estava sendo construída?
Com certeza, e é ótimo poder dizer não, é libertador. Leva tempo, nem sempre é fácil. Acho que isso também diz da maneira como eu fui criada, do país onde eu vivo, enfim, dessa questão da mulher sempre mais acometida pela coisa do que opinando e inventando a história, meio que a reboque. Então, eu fico atenta, converso na análise, quero um mundo melhor para mim e para o meu filho.
Existe uma ideia de que as mulheres precisam provar que conseguem conciliar tudo. Você sente essa cobrança?
Eu sempre me cobrei muito, já cheguei a me maltratar, de ficar assim: “Caramba, você fez uma cena errada, você não podia”. Quando tinha 17 para 18 anos, eu fazia a Floribella na Bandeirantes e pensei em desistir da carreira, tanto que fui cursar Jornalismo. Eu fazia uma novela, estava em cartaz e fazia faculdade. Mas na verdade essa desistência tinha muito a ver com a cobrança que eu tinha sobre mim e que eu achava que o mundo também tinha sobre mim. Percebi que o problema era a maneira como eu estava lidando com o meu processo de desenvolvimento, que eu chamava de erro, de ruim. Então pensei: talvez eu consiga não ter que mudar de profissão, mas consiga mudar a minha maneira de me relacionar com ela. Foi bem libertador. Foi importante fazer as pazes um pouco comigo mesma.
E a maternidade provocou uma nova mudança nessa relação com a carreira?
Ah, muda muito. Com certeza os projetos longe de casa são cada vez mais raros. A gente tem um compromisso compulsório na maternidade. E estar aqui para ele é um lugar que me traz muitas alegrias e muito prazer. E eu diria que o cansaço, nesse ponto de vista, é ótimo, porque também te ajuda a dizer não com mais facilidade. Cara, não dá nem tempo pra eu enrolar ou dizer que dou conta de um projeto que eu não dou. Ou será que eu faço esse projeto? Sim, é sim, não é não, sabe? Tem uma praticidade e um senso de valor do desejo que fica muito mais aguçado.

Você enfrenta as inseguranças que aparecem com a passagem do tempo, ao se olhar no espelho?
Eu acho que eu tenho uma cabeça boa. Inclusive penso que um grande investimento na minha carreira de atriz é continuar fazendo rugas, cultivando rugas e mantendo elas. Às vezes eu vejo uma série de procedimentos que me tiram um pouco da informação que o personagem deveria estar contando, você passa a ver o ator e não o personagem. Mas eu entendo, e eu acho o máximo quem faz coisas e ganha mais autoestima, vive mais, com mais energia. A tecnologia está aí para realizar sonhos. Eu já experimentei botox, já, sei lá, usei um aparelho para melhorar a celulite. Mas às vezes é difícil me ver, tem alguns ângulos, ou algumas cenas que eu faço alguma expressão que eu falo: nossa, eu me surpreendo de ver a passagem do tempo no meu rosto.
É difícil acreditar nisso (risos).
Pode acreditar, total (risos)!
Eu me olho e falo: 'Eita caramba, caraca, essa linha de expressão aqui tá forte, nossa, olha meu cabelo, olha meu braço, super me vejo'. Mas é um lugar constante de falar assim: 'Peraí, será que não tá tudo bem?'. Tá tudo bem, porque a gente é muito bombardeado para pensar o contrário.
Existe uma expectativa de que uma mulher independente tenha que escolher entre liberdade e relacionamento. A sua experiência com o Michel te mostrou que é possível construir uma relação justamente a partir de mais espaço individual?
Eu acho que, pra isso acontecer, os homens têm que ser diferentes. Eu sei que falo de um ponto de partida de quem se relaciona com um cara muito fora da curva. A pessoa que ele é, o amor que ele tem dentro dele e como ele sabe amar muito bem, mas sobretudo um cara que faz análise há mais de 20 anos, que está muito disposto o tempo todo a repensar e mudar. Até parece um pouco vaidoso da minha parte, mas é verdade, porque eu realmente tirei a sorte grande.

Vocês passaram por uma separação e, quando voltaram, escolheram não voltar exatamente ao mesmo casamento. Às vezes, para uma relação continuar, é preciso aceitar que ela não pode voltar a ser o que era? O que precisou mudar para vocês conseguirem reconstruir essa relação?
Eu acho que as fantasias, durante um tempo, elas são boas, né, porque, quando a gente tem a capacidade de sonhar e de projetar, a gente vai em direção a algo, mas ter a maturidade de abandoná-las. A vida real é diferente, ela é melhor. E também abandonar as dores, as mágoas pelo que podia ser, o que não foi. Não é que você vai esquecer se foi difícil, mas apaziguar onde o outro não vai te completar ou você mesmo se perdoar. Para mim tem muito a ver com a capacidade de reconstruir uma relação.
Não é reatar a relação, é mudar, pegar aqueles mesmos três tijolos e encaixar de um jeito diferente para subir aquela casa.
O que você sabe hoje sobre ser mulher que gostaria de ter sabido aos 20 anos?
Ah, que quando eu me sentia deslocada num ambiente, numa festa, a questão não era comigo e isso não estava errado. A questão é que cada um é de um jeito e que talvez eu poderia ter sido mais gentil comigo mesma e entender que talvez eu só não goste mesmo de lugares muito cheios e com muito barulho e que estava tudo certo, sabe?










