
— Me sinto no auge.
Foi assim que Ingra Lyberato descreveu a sensação de completar 60 anos na última segunda-feira (21). A atriz chega nesta etapa da vida imersa em uma fase múltipla, na qual se divide entre a carreira artística, a escrita e o trabalho como facilitadora de Constelação Familiar, prática que exerce há cerca de seis anos.
E é unindo essas diferentes versões de si que a atriz voltará aos palcos neste domingo (27), após uma pausa iniciada ainda na pandemia. O espetáculo que marca seu retorno à cena teatral é Céu Interior, que mistura artes cênicas, música, poesia, dança e exercícios terapêuticos como a meditação.
Com dramaturgia de Thiago Tenório e um elenco que, assim como Ingra, circula entre as artes e as práticas integrativas, a montagem será apresentada no Teatro Unisinos, em Porto Alegre. Trata-se de uma obra diferente de tudo o que a artista já fez no teatro, mas que se relaciona intimamente com seu momento atual.
— Pessoalmente falando, a coisa mais importante desse projeto é a possibilidade de unir a Ingra atriz, a Ingra dançarina, a Ingra terapeuta e a Ingra escritora em um mesmo espetáculo — diz.
Entrevistas
Antes de "dar um tempo" dos palcos, a atriz havia passado mais de 10 anos em cartaz com Inimigas Íntimas, comédia sobre o universo feminino estrelada ao lado de Fera Carvalho Leite. No Estado, onde vive há mais de duas décadas, Ingra também participou de outras produções marcantes — a exemplo do longa Valsa para Bruno Stein, de Paulo Nascimento, com o qual conquistou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Gramado.
Mas foi pelas novelas que a baiana radicada no Rio Grande do Sul ficou conhecida nacionalmente. Já nos primeiros anos da carreira, Ingra interpretou personagens de destaque na teledramaturgia brasileira. Esteve na primeira versão de Pantanal, como Madeleine em sua fase jovem, e protagonizou A História de Ana Raio e Zé Trovão ao lado de Almir Sater, entre outros trabalhos emblemáticos.
— Fui aprendendo a lidar com a exposição gigantesca que acompanhou tudo isso — lembra.

Em entrevista ao Donna, ela fala das dificuldades e revisita períodos em que decidiu se recolher da vida pública. Também relembra o impacto de ser colocada em um lugar de "musa" por conta do trabalho na televisão.
Ingra ainda compartilha reflexões sobre maternidade, autoconhecimento, autoestima, saúde e envelhecimento. Orgulhosa da trajetória profissional e da mulher que se tornou, ela se derrete ao falar do filho, o músico Guilherme Leindecker, e celebra a liberdade de não precisar escolher uma única versão de si mesma.

Confira a entrevista:
Céu Interior marca o seu retorno aos palcos. O que te fez sentir que essa era a hora de voltar e esse era o espetáculo?
Minha vida nunca foi muito planejada. É claro que estou sempre sonhando e trabalhando em algo, mas os movimentos acontecem naturalmente.
Fiz a peça Inimigas Íntimas em Porto Alegre durante 12 anos. Paramos na pandemia, em razão do lockdown, e desde então eu não havia mais subido aos palcos. Estava muito tranquila, pois também precisava fazer um mergulho no meu autoconhecimento e me dedicar a outros projetos ligados a isso.
Até que encontrei esses colegas em um retiro terapêutico, um grupo multidisciplinar com atores, terapeutas e professores de yoga, todos com alguma bagagem artística, e surgiu o desejo de levar ao palco esse convite a olhar para dentro.
Comportamento
Como esse espetáculo se relaciona com o seu momento atual de vida?
Já fazia um tempo que eu vinha buscando algo que pudesse unir as diferentes partes de quem sou, porque vejo muito sentido em integrar essas vivências. E esse espetáculo une as diferentes Ingras que habitam em mim.
Desde o início das minhas experiências terapêuticas, sempre levei elementos da arte, então, sempre teve música e dança. O meu principal texto na peça nasceu espontaneamente há um ano, e eu já o utilizava em encontros terapêuticos.
É um espetáculo que tem tudo a ver comigo. Um convite para silenciar, escutar uma canção, contemplar a beleza da vida e resgatar o olho no olho e os abraços que curam.

Nos últimos anos, você tem atuado com a Constelação Familiar. Como essa prática entrou na sua vida?
Eu busco o autoconhecimento desde cedo e estudo o xamanismo há 14 anos. Já a Constelação Familiar está na minha vida de alguma forma há quase 30 anos, mas há seis anos eu me tornei facilitadora.
Senti uma espécie de chamado. Estudei, fiz formações longas na área, resolvi investir o meu tempo e o meu dinheiro para realmente me preparar e conseguir ajudar as pessoas.
Você também se tornou escritora e, embora estivesse afastada do teatro, ainda fez trabalhos como atriz nesses últimos anos. Como se sente conciliando todas essas áreas profissionais?
Muito mais tranquila. As pessoas geralmente não sabem disso, mas os atores, quando não estão trabalhando, costumam ficar angustiados. Eu me sentia muito angustiada se ficava um tempo sem trabalhar como atriz.
Para além da questão financeira, que com o tempo a gente aprende a organizar, havia algo de autorrealização mesmo. Hoje, eu não sinto mais essa angústia.
Se não estou trabalhando como atriz, estou escrevendo, montando grupos de terapia, fazendo atendimentos, atuando em trabalhos voluntários. Olha que bênção, que coisa maravilhosa.
Você começou a trabalhar como atriz muito jovem e rapidamente passou a ser reconhecida pelo público, em obras como Pantanal e A História de Ana Raio e Zé Trovão. Como foi ser famosa tão cedo?
Sempre fui muito tímida, embora tenha crescido em um ambiente totalmente artístico. Tinha muita vergonha de falar com as pessoas e me comunicar. Então, comecei pela dança; somente depois descobri a atuação.
Fui para o Rio de Janeiro com 20 anos e lá me apaixonei pelo teatro. Comecei a fazer alguns trabalhos na Globo e na Manchete, até que veio a oportunidade de fazer Pantanal. Sabíamos que seria uma novela linda, mas não que se tornaria um fenômeno. Depois, veio Ana raio e Zé Trovão, que também fez muito sucesso.
Lidei meio que no susto com tudo isso. Muitas vezes, a minha forma de lidar foi recuando. Tanto que, no auge da fama e do assédio, joguei tudo para o alto, fui para uma fazenda e passei quatro anos criando cavalos.

No seu primeiro livro, O Medo do Sucesso, você revisita esse e outros momentos em que se afastou. De onde vinha essa necessidade?
Eu travava justamente quando as coisas davam certo, porque me cobrava demais e tinha muito medo de errar. Esse livro nasceu do entendimento de que, para conseguir superar isso, eu precisava viver a catarse de colocar no papel coisas muito profundas e pessoais que eu tinha receio de expor.
O meu mecanismo de autotransformação foi exatamente encarar o que me dava medo, e o sucesso associado à fama era algo que me dava muito medo. Nesse processo, ressignifiquei minha própria ideia do que é sucesso.
Hoje, o sucesso para mim é conseguir colocar os meus dons a serviço da vida. É ter coragem de florescer, crescer e brilhar no meu potencial máximo.
Cada um tem o seu caminho e pode brilhar no seu potencial máximo naquilo que lhe faz feliz, seja em um escritório, em uma sala de aula ou como dona de casa. Isso é sucesso. Fama é outra coisa.
Saúde e Bem-Estar
Você também foi colocada cedo no lugar de "musa". Como era isso para você?
Na infância, eu não me achava nada bonita. Na verdade eu me sentia um patinho feio, muito esquisita (risos). Já na adolescência, houve um momento em que decidi que precisava superar a minha timidez e não mais me sentir feia. Internamente, parei de ter medo do meu florescimento como mulher e, aos poucos, passei a enxergar beleza em mim.
Quando cheguei à televisão, eu já me achava bonita, e essa autoimagem foi confirmada pelo público. Eu aceitei o lugar de "musa", embora não me achasse tudo isso e não concordasse totalmente com esse culto à beleza. Mas resolvi brincar com essa posição.
Até que, por volta dos meus 40 anos, cansei desse circo sobre ser um modelo de beleza. Não por me sentir velha, porque não me sentia de jeito nenhum, mas por entender cada vez mais que o meu valor não está na imagem.
Ter o seu valor associado a um padrão estético te incomodou?
Sempre existiu o valor do meu trabalho, dos prêmios, dos aplausos, mas do que eu era vista como modelo? De uma ideia de beleza e de sucesso pela fama. Mas quando eu tinha tudo isso que a sociedade fala que é a fórmula da felicidade, inclusive na minha vida pessoal, casada com uma pessoa que eu amava, eu ainda não estava feliz.
Toda essa parte mais material do que eu sou começou a desmoronar, enquanto a parte mais emocional e espiritual começou a falar mais alto. Isso me levou a uma reflexão profunda sobre o sentido da minha vida e do que eu queria ser modelo.
A maternidade também pesou nessa reflexão?
Sim. Existe uma Ingra antes e depois do Guilherme. Quando ele nasceu, entendi que tinha a responsabilidade de ser exemplo para um outro ser humano que estava se construindo.
A chegada dele fez com que eu olhasse com mais consciência para tudo o que fazia, as minhas escolhas e a pessoa que eu queria ser. Eu via aqueles olhinhos o tempo todo me observando e aquilo me motivava a encontrar o real sentido da minha vida. Foi uma fase muito especial; acompanhou toda a minha revolução interna.
Hoje o Guilherme está adulto, trilhando também uma carreira artística. Como é para você acompanhar esse momento dele?
Ele está com 23 anos, morando sozinho há três, muito independente. Ele ter ido morar sozinho me deu ainda mais vontade de estar perto, mas ele está alçando os próprios voos. Toca com pai (o cantor Duca Leindecker), tem mais três bandas que montou com os amigos, faz faculdade, dá aulas de violão. Ele tem uma agenda mais lotada que a minha.
Vê-lo caminhando com as próprias pernas, realizando projetos, é um presente para mim.
Há algo na sua rotina que tenha feito diferença para que chegasse aos 60 anos bem?
Eu me exercito pelo menos duas vezes por semana e cuido da alimentação. Não é algo que eu tenha obsessão, mas procuro manter esses cuidados porque sei que me fazem bem.
Para mim, saúde física, emocional e espiritual estão completamente ligadas.
Então, é também a minha busca por autoconhecimento, a liberação dos meus medos e das minhas culpas. Muitas vezes, os sintomas físicos refletem desarmonias da alma que precisam ser escutadas e acolhidas, e o meu corpo recebe os benefícios do meu cuidado também nessas áreas.

Estávamos falando de se enxergar como musa. Aos 60, o que é a beleza para você?
Beleza, hoje, é ter paz no coração, saúde e luz interna. É ótimo ter a minha pele bem cuidada, gostar do que vejo no espelho, mas com a consciência de que não é mais aquela pele esticadinha dos 20 anos e que nem precisa ser.
Se Deus quiser, eu vou envelhecer ainda mais, minha pele vai perder ainda mais tônus, e estou muito bem com isso. Para mim, hoje, a beleza está em me sentir inteira e em paz com a minha história.




























