
Dez minutos depois de sair do set de gravação, Camila Pitanga já estava em ligação com a reportagem de Zero Hora. Andressa, personagem que vive em Casamento Aberto e Outras Coisas que Não Existem, da Netflix, rapidamente ficou de lado para que a atriz pudesse adentrar com profundidade temas como trabalho, maturidade e família.
Recém anunciada, a série foi criada e escrita por Alexandre Machado e tem direção de José Alvarenga Jr. — dupla responsável por sucessos como Os Normais (2001-2003). No centro da trama, Camila e Sérgio Guizé vivem um casal que busca viver novas aventuras na relação. Samantha Schmütz, Xamã, Otavio Muller e Heloisa Périssé também compõem o elenco da narrativa, ainda sem data de estreia.
— É uma turma do barulho. Tá um barato fazer esse trabalho — conta.
Se, por um lado, a atriz se consagrou a partir das novelas e do audiovisual, por outro, sua carreira está longe de se limitar às telas. A eterna Bebel, de Paraíso Tropical, também está nos palcos com Lia Lia, peça que chega à Capital nos dias 19 e 20 de setembro, na programação do Porto Alegre em Cena.
Entrevistas
A montagem é uma adaptação do romance Lia: Cem vistas do Monte Fuji, de Caetano Galindo, e marca a primeira parceria da artista com Bete Coelho, que interpreta a mesma protagonista e dirige a peça. A partir de um emaranhado de fios, linhas e luzes, a estética de Lia Lia traduz a obra na sua essência: uma história contada a partir de fragmentos, como a vida.
— O teatro é a arte da presença. Ali, você tá de corpo inteiro, apresentando o teu trabalho e a tua maturidade daquele momento para a plateia.
Aos 49 anos, Camila Pitanga não tem medo de se reinventar. Com admiração por quem foi na juventude, ela celebra a simplicidade do cotidiano e diz estar "borbulhando".

Confira a entrevista:
A peça é inspirada no romance Lia, de Caetano Galindo. Como foi o teu primeiro contato com a obra e quando chegou esse convite?
O Patrick, meu noivo, meu amor, eu ganhei o livro dele. Eu já tinha lido e tinha ficado encantada com o trabalho. Mas, no primeiro momento, quando a Bete (Coelho) me convidou para participar da nova montagem da Teatrofilme (companhia de teatro), ainda não estava no radar que era esse o texto, que haveria a adaptação.
A Bete teve o feliz estalo de propor que fosse feita a adaptação de Lia e eu, de pronto, achei incrível, porque eu tinha ficado muito tocada com o livro, com muito do que esse livro suscita quando você lê. Nessa vida fragmentada de Lia, no que você se identifica, do que o Caetano Galindo consegue fazer transbordar de situações que são super cotidianas, mas que, na pena dele, ficam uma maneira de você refletir sobre o tempo, sobre a humanidade.
Comportamento
É mais difícil dar vida a uma personagem fragmentada? O que mais te toca na Lia?
Nós somos seres fragmentados, né? Quando a gente pensa no próprio fluxo do pensamento, ele é fragmentado. Quando você lê uma narrativa, algo se organiza, organiza esses fragmentos.
Quando você conta uma história, você organiza fragmentos. Então, na verdade, acho que o trabalho foi um pouco de ecoar o que de Camila poderia transbordar em Lia, e o que a Lia poderia inaugurar para mim.
Os teus trabalhos são muito lembrados pelas novelas, pelo audiovisual. Como tu te sentes nos palcos?
Eu me sinto sempre encorajada a ir além. Acho que o teatro é a arte da presença, então não tem máscara ou retake, fazer de novo. Ali, você tá de corpo inteiro, apresentando o teu trabalho e a tua maturidade daquele momento para a plateia. É algo que desafia e que, ao mesmo tempo, me encoraja a ir além.
Saúde e Bem-Estar
A Lia tem uma felicidade sutil, cotidiana. O que te faz feliz no dia a dia? Isso tem mudado ao longo do tempo?
Olha, talvez com a maturidade, eu tenho 49 anos, a felicidade tem se traduzido muito mais no simples. Acho que, quando você é muito jovem, você projeta a felicidade em coisas que estão fora do teu alcance.
E eu acho que a maturidade faz você reconhecer as coisas mais simples, que é estar com saúde, ter afetos, regar esses afetos, suas amizades, a família.
Ter contato com a natureza, sentir o contato com o sol. É lembrar que a gente tá viva. É valorizar o estar vivo. Tem sido das coisas mais felizes que eu tenho reconhecido no dia a dia.

Tu disseste algumas vezes que, no trabalho de atriz, as marcas do rosto são muito importantes. Com os 50 anos chegando, tu sentes que vem aumentando a pressão por procedimentos estéticos? Como é a tua relação com amadurecimento?
Eu venho, na verdade, apurando os meus valores, apurando com quem eu convivo, eu tenho me importado mais com esse simples que estou te falando, sabe? E admitido muito bem o tempo como meu aliado, como meu amigo. Eu acho que essa tranquilidade a maturidade tem me dado.
E sobre as expressões, pensando no teatro?
O teatro quer um ator na sua essência, na sua sensibilidade, na sua disposição de mostrar as suas fissuras. O teatro é o lugar que, de fato, quando eu falo de encorajamento, é de você estar plena na sua integridade.
Eu acho que principalmente nós, mulheres, somos mais levadas a um tipo de pressão na questão da esfera pública, da visibilidade que as redes sociais acabam por, de certa maneira, querer tornar um tipo de imagem, um tipo de mulher, um tipo de cabelo como a referência, como o padrão.
Mas eu tenho 49 anos, eu afirmo muito da minha existência fazendo a minha terapia, tendo bons amigos e vou valorizando isso que o teatro me convoca:
a estar mais plena com a minha integridade, com quem eu sou e não querendo mascarar algo para o outro.
Sobre a maternidade, que também aparece na obra. Como é a tua experiência? Como ela vem mudando?
É um amor que só transborda e eu me orgulho muito da minha filha, da pessoa, do ser humano que ela é, da cumplicidade que eu gozo, que não é toda mãe, toda filha que tem. Se tem uma coisa que é uma grande riqueza é quando eu olho para frente, eu olho para trás. Eu sinto que a gente tem muita alegria de fazer as coisas juntas.
E com a minha mãe também. Quando eu falo para frente e para trás, é porque eu estou pensando também nessa ancestralidade, quando eu penso na minha mãe, como que a gente se ama e se gosta e se afirma juntas. E ainda descobrindo coisas entre a gente.
E tem essa complexidade de uma menina de 18 anos que tem gosto de vida, desejo, curiosidade e que compartilha muito dessas curiosidades e alegrias e dificuldades comigo. É um privilégio muito grande, é uma dádiva ser mãe do Antônia.

E a tua experiência como filha? Teu pai (Antonio Pitanga) acabou de estrear uma nova novela aos 87 anos e é um dos grandes nomes da resistência negra no audiovisual. Como a trajetória dele te impacta?
Olha, não à toa eu dirigi com Beto Brant um longa-metragem (o documentário Pitanga, 2017) para que isso não fosse uma dádiva de filha. Conhecer e reconhecer o valor da magnitude de Antonio Pitanga, na pessoa, o artista, o criador e a criatura.
Esse filme foi feito porque achávamos que essa história precisava ser contada, porque é um homem negro, que assumiu um protagonismo muito jovem no Cinema Novo e que, ao longo de todos esses anos, no mundo racista como o nosso, ele é um negro vencedor.
E a minha mãe, por outro lado, é minha filha grande, que eu cuido desde que eu tenho meus 17, 18 anos. Tanto meu pai, como minha mãe, estão num momento de profunda transformação e ebulição. A minha mãe tem me trazido grandes alegrias, uma conexão muito especial entre a gente e o melhor: dela com a vida. Então, é um privilégio ter meus pais numa fase madura.
Tu queres também estar trabalhando nessa idade?
Com a vitalidade do meu pai e com a vitalidade da minha mãe, eu quero. Porque o trabalho, quando você faz o que você gosta e o que você acredita, com quem rega a sua felicidade, a sua confiança, é uma felicidade.
Eu tô saindo aqui do set de trabalho, que eu fui dirigida pelo Alvarenga, me sentindo regada por esse novo trabalho. Fazendo comédia, fazendo um novo trabalho com uma galera que eu não conhecia, me afinando.
Eu amo trabalhar. Eu sou que nem meu pai. Eu acho que, enquanto eu tiver com a cabeça em movimento, com o corpo, sendo possível, eu vou. E eu acho que isso é um grande combustível, na verdade.
Faz pouco que vocês anunciaram esse novo trabalho. O que tu podes nos adiantar?
Eu tô escondendo essa história há um tempão. Que alívio! Todo mundo me perguntando: "O que você tá fazendo? Por que você tá indo para São Paulo?". Porque eu estava ficando a semana toda (em SP), fazendo a peça no final de semana e me preparando para Casamento Aberto e outras Coisas que Não Existem.
É uma série, uma produção super caprichada. Alexandre Machado, que eu sempre acompanhei em tantas coisas, Os Normais, óbvio, o (José) Alvarenga. É uma turma do barulho. Tá um barato fazer esse trabalho.
Além da peça e da série, tu estás te preparando para interpretar Clara Nunes e para uma nova temporada de Beleza Fatal. Como é dar vida a tantas personagens ao mesmo tempo?
É uma prosperidade de caminhos e de estímulos e de desafios imenso. Estou aos 49 anos com a vida borbulhando e vivendo esse barato.
É cansativo? É. Eu estou mais longe de casa, morando mais em São Paulo. Eu moro no Rio, sou carioca. Sinto saudade da minha praia, dos meus amigos cariocas, mas ainda bem que eu também tenho uma boa família amorosa de amigos aqui em São Paulo e estou com esse tesão enorme de estar fazendo esse novo trabalho. Enfim, a vida tá boa, a vida presta mesmo. Eu posso dizer de boca cheia.
Fitness
Conciliando todos esses trabalhos com a vida pessoal, o que tu priorizas no tempo livre?
Eu sou uma equilibrista de pratos do grande circo que é a vida. Aí tem coisas que eu não estou podendo ainda falar, de projetos que eu estou em desenvolvimento como produtora executiva, tudo isso, realmente, me tira muita energia e precisa que você tenha equilíbrio, precisa organizar.
Mas eu sou muito disciplinada. A disciplina, para isso, ela é boa amiga. Eu não me perco não. Na verdade, acho que talvez o grande desafio é de não gastar toda a minha vitalidade, manter a saúde. Para isso tem que ter disciplina, para comer direitinho, faço minha atividade física. Eu sou regrada na minha rotina. O meu trabalho me deixa muito organizada.
Nesse tempo livre, tu tens hobbies, coisas que conserva pra ti?
Muitas coisas. Primeiro é ficar de chamego. Chamego com o meu amor, chamego com a minha filha. Eu tenho ido aos finais de semanas para o Rio e, quando estou lá, eu quero andar de bicicleta, dou minha subida na Vista Chinesa (mirante no Alto da Boa Vista). Se estou em São Paulo, o meu jardim é ir no teatro, é ver meus amigos.
Eu tenho o privilégio que, se tudo der certo, vai se estender para grande classe trabalhadora, que eu tenho trabalhado em regime de 5 por 2. Eu sou uma trabalhadora brasileira, mas eu vivo isso quase como um privilégio. Isso não tá certo. Todo mundo tem direito a ter tempo livre, a ter tempo de gozo, de descanso e de se reciclar, tempo com a sua família.
A Clara Nunes rompeu muitas barreiras em uma indústria tão dominada por homens. Décadas depois, o que mudou nesse cenário?
Olha, a Clara é uma pioneira. Ela foi só catapultando cada vez mais a sua força e sua magnitude que, mesmo novas gerações que não sabem da história dela, cantam Clara Nunes, cantam o seu repertório. Ela continua presente na nossa cultura brasileira.
É uma mulher que tinha esse apuro de conhecer o Brasil gigante, o Brasil que se ama, o Brasil que pensa e que reverencia a sua negritude, que reverencia a sua ancestralidade diversa, essa mulher mineira que tem respeito pelo samba, pelo Brasil como todo. Eu considero uma missão dar corpo e alma para ela.
A gente tá no período de captação, mas, entendendo o desafio, já estou fazendo um trabalho de preparação de voz muito sério, como eu nunca tinha feito, porque é uma responsabilidade imensa poder trazer a vida de Clara para o público brasileiro, para as novas gerações e dar esse gosto para quem já conhece e para quem tem saudade.
Tu já tinhas feito um ensaio inspirado nela. Foi coincidência? Tu imaginavas na época que pudesse vir essa oportunidade?
Eu já queria. Já era eu lançando pro mundo esse meu desejo. Não foi à toa. Eu sabia que eu já queria e foi minha maneira primeira de dar corpo à Clara.
*Sob orientação e supervisão da jornalista Juliana Lisboa
































