
Durante muito tempo, certas experiências femininas pareciam ter apenas dois destinos: o silêncio ou a confidência entre amigas. Nas últimas décadas, algumas delas passaram a ganhar os palcos. Relacionamentos, sexo, maternidade, saúde íntima e até temas pesados, como violência doméstica, viram matéria-prima para mulheres que usam o humor para se expressar e acolher.
— A comédia traz senso de comunidade. As mulheres não conversam tanto quanto deveriam, historicamente. Então quando tem esse momento, de ir no meu show e rir, tipo “meu namorado faz tal coisa também” ou “meu chefe é assim também”, elas se sentem acolhidas. Isso funciona para todos os shows de comédia, mas no universo feminino a gente tem algumas feridas mais densas e aí se torna mais catártico — analisa a comediante gaúcha Carol Delgado.
Dercy Gonçalves, Cláudia Jimenez, Tatá Werneck, Dani Calabresa e tantos outros nomes são lembrados no humor feminino feito na televisão. Nos palcos, Marcela Leal, considerada a primeira-dama do stand-up comedy no Brasil, abriu caminho para uma nova geração. Já nomes como Bruna Louise, que ganhou projeção nacional no início da década de 2010, ajudaram a ampliar a presença feminina no gênero.
Na sociedade patriarcal, a gargalhada é importante, como cura e porque a mulher que ri alto libera a garganta de muitas outras. Nosso riso é político, sim.
KARLA CORDEIRO
Palhaça
Comportamento
Essas, entre tantas outras, são trajetórias que mostram que mulheres sempre tiveram o que dizer e, sobretudo, souberam fazer rir. Ainda assim, ocupar esse espaço parece ser uma conquista em andamento, já que o território ainda é mais associado aos homens. A humorista gaúcha Betina Câmara conta que já foi questionada sobre o que significa ocupar esse local:
— Quando me perguntam “é difícil ser mulher no stand-up?" eu costumo dizer que é tão difícil quanto ser uma mulher médica, uma mulher enfermeira, uma mulher funcionária pública. Porque, senão, fica parecendo que o humor é o problema. Gosto de fazer uma analogia com o tarot, em que tem a carta do Louco e o número dele é zero. Não porque ele é nada, mas porque ele é uma possibilidade de ser qualquer coisa. O stand-up é assim, múltiplo.
Mesmos assuntos, outro ponto de vista
Os tópicos não são necessariamente novos, mas a lente sim. Na comédia feita por mulheres, experiências cotidianas, que já fazem parte dos roteiros de comediantes masculinos, são revisitadas a partir de outro ponto de vista, feminino e atual.
— Falam que a gente faz muita piada sobre relacionamento. Às vezes eles falam “não acredito que isso vai virar piada”. Querido, a gente está há anos ouvindo piadas horríveis e violentas sobre a gente. Não acho que seja isso, de que as mulheres fazem mais piadas sobre relacionamento e sexo do que os homens, mas o fato de a gente finalmente estar falando sobre isso abertamente, e apontando que eles não são tão bons quanto acham, é que chama atenção — afirma Betina, que começou a carreira em 2012.

Isso não significa transformar o stand-up em uma guerra dos sexos. Para Carol, quando o humor produzido por mulheres encontra audiência e identificação, fica evidente que existe também uma demanda por esse olhar. Ela, que atua desde 2018, lembra de quem ajudou a abrir essas portas:
— A Bruna Louise provou que as mulheres querem ver mulheres, sim, e querem ouvir falar de coisas nossas. Antigamente tinha um tabu, de não poder falar de menstruação, por exemplo, porque os homens não gostavam. Desde que comecei, sempre falei que quero falar com mulheres, não com homens. Quando a Bruna começou a lotar teatro, foi meio que tipo “gente, acorda! Tem público!”.

Longe de se restringir a sexo, relacionamentos e vida amorosa, as duas deixam claro que o humor feito por mulheres também encontra graça em assuntos como educação, família, trabalho, finanças, saúde, envelhecimento e outras situações do cotidiano. São experiências que, por serem comuns, permitem que diferentes pessoas se reconheçam.
Embora o stand-up feminino tenha ganhado força recentemente, o público que acompanha as comediantes está longe de ser homogêneo. Há diferentes idades, gêneros, trajetórias e experiências reunidos em algo que Carol descreve como “uma experiência coletiva”. Algumas situações atravessam gerações:
— Tem mulheres mais velhas que vão me assistir, outras levam as mães e as avós. No começo, eu pensava “o que uma mulher de 80 anos vai achar de ouvir essas bobagens que eu falo?”, mas elas morrem de rir. Me contam histórias delas que são as mesmas que a gente vive hoje — complementa Betina.
O ponto de vista feminino
A comédia vai muito além do stand-up: passa pelo teatro cômico, pela improvisação, pela sátira, pelo humor físico e pela palhaçaria. Nesta última, o riso nasce menos de contar uma piada e mais da relação do artista com o próprio corpo, com o público e com o erro. Tradicionalmente associada a uma figura masculina, as palhaças também precisaram abrir espaço.
Em 1991, sete atrizes criaram, no Rio de Janeiro, o As Marias da Graça, primeiro grupo de palhaçaria formado exclusivamente por mulheres no Brasil. Após um curso, elas começaram a levar suas personagens para as ruas e chamaram atenção. O ineditismo rendeu aparições na imprensa e convites para projetos e eventos.
Karla Cordeiro, conhecida como Karla Conká, uma das fundadoras do grupo, conta que, no começo, ela e as colegas não tinham noção do teor disruptivo e “quebrador de tabus” da ideia:
— Paralelo a esse sucesso involuntário que a gente estava começando a ter, os homens palhaços começaram a falar barbaridades, entrando nessa coisa de gênero. Quase 10 anos depois que a gente começa a ter consciência disso. Teve um palhaço, aqui do Rio, que disse para a gente tirar os narizes vermelhos para ficar mais bonita — relembra.

A carioca explica que, além dos comentários desagradáveis, percebeu a desigualdade de gênero no ramo quando o grupo começou a ter dificuldade para obter financiamentos. Após mudanças na composição do time, elas criaram um festival de palhaçaria feminina em 2005 chamado Esse Monte de Mulher Palhaça.
— É aí que a gente, finalmente, começa a entender o que a gente veio fazer e qual é realmente a missão desse grupo — defende a artista, que se apresentou recentemente no Rio Grande do Sul, na segunda edição do Sesc Circo Ijuí.
Entrevistas
E as críticas sociais?
As comediantes Carol e Betina gravam vídeos com frequência para as redes sociais. Além de contar piadas, elas fazem reflexões sobre a vida — com humor, é claro — e frequentemente recebem cobranças sobre o que deveriam representar.
Por serem mulheres, há uma expectativa de que a comédia venha acompanhada de uma mensagem, de uma crítica social, de um “humor mais inteligente” ou de alguma espécie de contribuição para a causa feminina.

Carol, que soma 1,3 milhão de seguidores no Instagram, admite que essa pressão incomoda. Em vez de simplesmente ser uma pessoa engraçada, sente-se colocada no lugar de quem precisa contribuir para resolver questões que atravessam a vida das mulheres há séculos:
Quando comecei minha carreira falando do meu ex-namorado, eu não queria fazer uma crítica social. Queria reclamar do meu ex-namorado. Isso, na mão da mulher, se torna uma função: agora tudo que você fala tem que ter uma contribuição para a sociedade. As mulheres têm que resolver tudo, o que elas falam têm que estar no âmbito do útil, não pode estar no âmbito do hobby. Mas, assim, têm milhares de problemas na sociedade e eu posso afirmar com 100% de certeza que não vai ser um comediante que vai resolver.
CAROL DELGADO
Comediante
Historicamente, a comédia também se construiu a partir da provocação: rir de costumes, autoridades, tabus e até de assuntos dolorosos. A questão para a qual as artistas chamam atenção não é esperar que o humor seja sempre leve ou politicamente descompromissado, mas perceber quando essa exigência passa a ser colocada de forma desigual.
Esse é um debate que ainda parece ser pouco explorado. A reportagem de Zero Hora procurou pesquisadores que estudam comédia e humor para entender melhor a presença feminina nessa arte, mas não encontrou especialistas que se sentissem aptos a falar especificamente sobre o tema. A dificuldade em localizar esse olhar acadêmico ajuda a dimensionar o quanto as discussões que envolvem mulheres no humor ainda é recente.
— Por que a gente não pode só falar bobagem? Por que a gente precisa ser uma voz? É uma armadilha complexa, mas uma hora ou outra aparecem temas mais pesados. Tem um texto meu em que eu falo de violência doméstica. As pessoas perguntam como consigo falar de violência contra a mulher em um show de comédia, mas elas riem porque se identificam e porque é verdade. Tem um alerta, mas não escrevi isso pensando que precisava fazer. Nasceu do “hm, aí tem coisa” — argumenta Betina.

Lidando com a cobrança
Essas imposições podem vir de diferentes lugares: de colegas de profissão, do próprio público (fãs e críticos) e de outros ambientes. Em um cenário que exige posicionamento constante, a pressão por abordar questões sociais também pode ser uma forma de garantir espaço. As artistas demonstram diferentes formas de navegar esse contexto.
Com 279 mil seguidores nas redes sociais, Betina, que mora em Porto Alegre, encontrou no humor uma forma de inverter uma lógica antiga. Em conteúdos que ela trata como uma espécie de “sommelier de dotes masculinos”, comenta e faz piadas sobre homens bonitos e atributos que, historicamente, foram muito mais associados ao olhar masculino sobre as mulheres.
— Esses dias uma seguidora disse que meu trabalho era interessante porque eu estava subvertendo o desejo. Mostrando que, assim como eles querem uma mulher novinha, bonitinha, magrinha, a gente também tem preferências. Os haters me atacam e falam da minha aparência, que não tenho direito de falar dos homens. Eu tenho esse poder de escolha — defende a artista.

Já para Karla, os preconceitos e as dificuldades que atravessaram sua trajetória como palhaça também foram transformando a própria personagem. Depois de tantos “nãos” e da necessidade constante de se impor, sente que precisou endurecer para lutar pelo direito de ser artista:
— Esse espetáculo que levei para o Rio Grande do Sul, chamado Tem Areia no Maiô, é o nosso carro-chefe. É livre, é para família, e é de um lugar de ingenuidade. É de uma época em que a gente só queria existir, ser feliz, brincar. E depois a gente começou a receber tanta paulada que foi virando essa casca grossa. Mas sempre que faço esse espetáculo, me emociono, porque tem aquela energia de só querer existir, sem o peso de precisar ser resistência.
Saúde e Bem-Estar
O poder da risada
É senso comum que rir faz bem para a saúde. Mas o riso feminino precisa ser político? Para Carol e Betina, pode ser — mas também pode não ser.
Pode ser crítica, reflexão ou simplesmente diversão, brincadeira e vontade de rir, sem a obrigação de carregar uma mensagem maior. Karla acredita que a resposta seja menos simples: ser mulher e ocupar espaços já é, e talvez sempre seja, inevitavelmente, um ato político.
— Quando eles falam que mulher não é engraçada, é nesse lugar de nos conectar com a seriedade e com a perfeição. E o palhaço é aquele que erra e que ri do erro. Como as princesas riem? Baixinho, com a mão na boca. Quem gargalha? As bruxas, as faveladas, as mulheres do cabaré. Na sociedade patriarcal, a gargalhada é importante, como cura e porque a mulher que ri alto libera a garganta de muitas outras. Nosso riso é político, sim — defende a palhaça.





























