
Com uma filha de pouco mais de um ano e outra a caminho, a maternidade ocupa a vida de Lucy Ramos dentro e fora das telas. Na novela Por Você, próxima trama das sete da Globo que estreia em 17 de agosto, a atriz interpreta Juli, uma mãe solo de quatro filhos cuja morte, logo no primeiro capítulo, muda o rumo da família, que fica aos cuidados da amiga Bela, vivida por Sheron Menezzes.
Para Lucy, o papel chega em um momento em que a experiência de ser mãe tem transformado não apenas a rotina, mas seu olhar sobre a profissão. Ela volta às telas após um ano de licença-maternidade, exclusivamente dedicado à Kyara, primeira filha da atriz com o marido, Thiago Luciano.
— Fiquei muito feliz quando recebi o convite porque, após um ano vivendo a maternidade real, eu já estava querendo muito voltar. Veio em boa hora, em um convite cheio de amor, de afeto, para viver essa mãezona que é a Juli. Nada melhor do que voltar desse jeito — afirma a pernambucana.
Aos 43 anos, após ter aceitado o convite para interpretar Juli, Lucy descobriu a segunda gestação. Grávida de cinco meses de outra menina, ela conta que teve medo da reação da equipe da novela. Para a felicidade da atriz, todos abraçaram a novidade com muito carinho. Como a personagem morre no início da trama, parte da história dela será contada em flashbacks e o barrigão poderá ser aproveitado:
— Tem que esperar aquele tempo de gravidez para dar certo, porque eu já passei por situações adversas com duas gestações, e essa espera foi angustiante, por causa daquele medo de como eles iam reagir. A primeira pessoa que eu falei foi o nosso diretor amado, André Câmara, e ele acolheu, e depois todo mundo. Agradeço imensamente porque é o que a gente espera, que uma gravidez e o crescimento de uma família não seja um problema no âmbito profissional.
Entrevistas
Confira a entrevista:
Tu já tinhas interpretado mães antes. O que muda fazer esse papel sabendo como é na vida real?
É completamente diferente. Já vivi algumas mães, e a gente faz aquela pesquisa, pergunta para outras mães como são as sensações, emoções, como é estar grávida, o que que sente, se a barriga pesa... Você faz várias perguntas, mas nada se compara à vivência. Claro que para morrer bem você não precisa morrer, não é? Mas ser mãe, só sabe quem é. Porque tem dores, medos, desafios, milhões de coisas que passam por essa vivência.
Sendo mãe de quatro na ficção, agora tenho um outro amor, um outro olhar, um outro pegar, sabe? Porque a mãe pega, abraça, é diferente.
A Juli tem filhos mais velhos, tem uma outra vivência. São outros conflitos, outra realidade. Eu estou aqui com a minha pequena vivendo cada fase de desenvolvimento, que é tudo muito novo. Agora os dentinhos dela cresceram, estou passando por isso. A Juli já passou por isso quatro vezes.

A Juli te lembra alguém?
A minha mãe é a Juli, de uma certa maneira. Minha mãe foi uma mãe solo. A Juli teve três gestações, minha mãe também teve três gestações.
Mãe solo que luta, que trabalha fora, que, independente de qualquer coisa, tem que levantar a cabeça, arrumar o corpo e ir. O psicológico está ruim? Vai assim mesmo, porque as crianças não têm culpa de nada e tem que ter uma comidinha na mesa. Então, por muitas vezes eu vi minha mãe chorando no cantinho, à noite, principalmente quando vem aquela solidão da mulher preta. É uma mistura de tudo.
Sempre foi um sonho ser mãe de duas?
Eu sou um pouco Bela, mas estou vivendo a Juli (risos). Sempre tive essa coisa de que ser mãe não era uma opção no momento. Não passava pela minha cabeça. Eu queria trabalhar muito, ter uma vida melhor. Saí de onde morava para construir algo, ter mais oportunidades na vida.
Esse era o meu objetivo: trabalhar, trabalhar e trabalhar. E aquele peso da gestação, de que, se eu tenho filho, paro com tudo, não era uma opção.
Comecei a me relacionar e a cobrança da sociedade veio pesando forte, porque eu e meu marido estamos juntos há quase 20 anos. Ele respeitou, também sempre foi muito trabalhador, sempre pensando em construir. Então a gente foi indo, só que a sociedade foi pesando de uma maneira. Aí a gente pensou: "será que a gente não tem que pensar nisso mesmo? Será que a gente não tem que construir uma família?"
Aí a gente resolveu tentar. Tivemos duas gestações que não foram para frente, e muitas negativas, dizendo que teria que fazer inseminação, porque natural não aconteceria. Decidimos deixar a vida rolar e ver o que aconteceria no futuro, pensamos que poderíamos adotar. E aí a vida falou “vocês abriram os caminhos, então vamos fazer essa família crescer”.
Acho que é importante, para as mamães tentantes, saber que um não nunca é definitivo. Recebi muitos nãos, de que não seria possível. E ó eu aqui na segunda gestação natural. Para Deus, um não nunca é definitivo.
Comportamento
Como foi para o teu público, que também deve ser formado por muitas mamães tentantes, acompanhar esse processo contigo?
Eu tive essas duas perdas e não falei na internet. Vivi elas e, no momento que eu engravidei de Kyara, e falei sobre a gestação e sobre essas perdas. E recebi muitas mensagens. Muitas mulheres passam por uma perda gestacional, acontece muito e elas não falam, não têm força para falar, porque dói, porque machuca, são várias questões.
No momento que eu falei, pensei que estava fortalecendo e somando com outras mulheres, mas eu falei quando eu estava grávida de novo e tudo estava dando certo, para dizer que é possível e para não desistir. Então acho que serviu nesse lugar de troca mesmo, de acolhimento. A gente não quer levar o negativo porque muita gente já passa por tantas questões, tanto sofrimento. Então, quando eu falei, foi porque estava acontecendo algo muito bom.
O fato de tu e teu marido terem um casamento sólido, de quase 20 anos, antes de virarem pais ajudou a preparar vocês para tudo isso?
A gente brinca que precisou atingir a maioridade como casal para ter filhos. Acho que nada te prepara para ser pai e mãe. Você pode até fazer curso, receber conselhos, mas nada te prepara. Foi muito bom e muito importante toda essa vivência junto, essa maturidade do casal, porque se você tem um relacionamento muito frágil, o puerpério, essa adaptação de um bebezinho, pode causar uma ruptura, porque tudo fica diferente.
Você precisa ter um parceiro que entenda que a mulher muda, passa por muita coisa, que é uma fase em que está todo mundo aprendendo junto.
Dá essa sensação de que a gente parou a vida para cuidar desse serzinho que precisa de atenção. Já não sai mais como saía antes, já não vai viajar como viajava antes. Você vai dando prioridade para a pequena e, se vocês têm essa maturidade, vocês se ajustam dentro das adversidades.
Mas, claro que ter filhos com 40 anos, você fica fazendo contas o tempo inteiro. De quando ela tiver 10 anos, quando ela tiver 20 anos, a gente vai estar com que idade? O que a gente vai estar fazendo? Porque você quer viver ao máximo para aproveitar a vida com seu filho, quer cuidar da saúde.
Fitness
Essa preocupação mudou a forma com que tu te relacionas com o envelhecimento e a pressão estética que vem junto?
Eu me cuido desde sempre. Sou um pouco falha nos exercícios, mas faço. E essa coisa de não usar certas químicas, nem beber, nem fumar, nada, porque eu sei o quanto prejudica. Sempre pensando em algo saudável, porque eu quero viver, eu gosto da vida, quero estar aqui por muitos anos e agora com bebezinho, ainda mais.
Essa questão da aparência é porque a gente muda bastante, a gente não se reconhece no espelho. Mas são dois momentos diferentes. Com Kyara, eu pude ficar em casa. E a primeira gestação é diferente, eu não olhava assim muito para o corpo. Eu sempre entendi que era para algo muito maior, um serzinho que está crescendo. É essa magia, o corpo é o de menos.
Nessa gravidez, eu estou vivendo estética o tempo inteiro, porque eu estou ali na tela. Então tem determinadas poses ou determinadas coisas que eu penso que estou parecendo um bujãozinho, porque eu sempre fiz novela no meu físico, que é magrinha. Então essa era a imagem que eu tinha sobre mim. Agora, eu estou tendo que entender que estou grávida e que está tudo bem.
A gente precisa cuidar da cabeça o tempo inteiro, porque eu sei que eu sou muito bem resolvida relacionada a corpo. Até porque eu sei que, se você não está feliz com o que você está vendo no seu corpo, então vai fazer algo por isso, não vai ficar reclamando o dia inteiro. Então vai resolver, vai se alimentar bem, vai fazer um exercício.

Um dos teus primeiros papéis de destaque na televisão foi Sinhá Moça (2006). Quando tu olhas para aquela época, o que mudou em ti?
Estou em movimento, são 20 anos e eu mudei muito. Sinhá Moça foi de fato a minha primeira novela com personagem, um personagem muito bom e que é muito significativo para a história do Brasil. E eu era muito pequena, tinha 20 e pouquinhos, muita imaturidade, muitos sonhos, ideais.
E hoje é completamente diferente: pezinho no chão, sabendo exatamente como as coisas funcionam, sabendo que é trabalho e responsabilidade. O glamour não faz parte assim do dia a dia. É tudo muito profissional, tem que entender as esferas. E sou muito grata porque estar nessa carreira há tantos anos é para agradecer todos os dias, porque, às vezes, o mais difícil nem é chegar, é permanecer com qualidade, com respeito, com responsabilidade.
O espaço para as mulheres negras na televisão era muito diferente na época dessa novela do que é agora. Como tu avalias essas mudanças?
Evoluiu muito. Eu cheguei numa época em que outras grandes atrizes já tinham desbravado muitos caminhos para que eu pudesse chegar. E quando eu cheguei, as oportunidades eram mínimas. Eu cheguei fazendo escrava, empregada, servindo, fazia muito a amiga da amiga da protagonista e não tinha as minhas histórias. Em Sinhá Moça ainda tive, mas era uma escrava.
Aí passou um determinado tempo e eu fui fazer advogada, psicóloga, ter outras profissões e ter a minha história de uma certa maneira, não naquele protagonismo, mas eu tinha uma profissão e podia mostrar que o negro poderia estar naquele lugar também.
Então teve uma evolução muito grande e quem chega, hoje, já chega nesse lugar, tem sua história e a sociedade já vê de uma outra maneira. A gente era quase como uma cota que tinha que ter. Hoje se vê muito, tem meninas novas que já chegam protagonizando. Hoje a gente faz parte das histórias.

E hoje, em que fase tu acreditas que está, com a Kyara pequena, outra filhinha no forno e com esse papel na próxima novela?
Eu estou vivendo, estou aproveitando, curtindo. Estou sendo. Mais nova, eu até pensava muito no futuro, que queria isso ou aquilo. Eu sei que a gente tem que ter sonhos, objetivos de vida, mas hoje eu estou em uma fase em que quero viver o agora e cuidando para que vá o mais longe possível. Como eu disse, eu amo a vida.
Sei que cuidando do agora eu vou ter um futuro bom. Claro que eu desejo coisas, como fazer uma protagonista. Quero muito, porque eu sei o quanto eu vou conseguir chegar nas pessoas, acolher quem se inspira.
E você precisa de uma certa visibilidade, uma certa vitrine, para chegar a determinados lugares que eu ainda não cheguei.
Por mais que eu tenha 20 anos de carreira ali dentro da Rede Globo, sei que eu não cheguei em determinados lugares. Tenho alguns sonhos, alguns objetivos, mas no momento eu vivo muito o presente, a saúde, tudo que eu sei que cuidando agora, eu vou longe.






















