
Quando acordou na manhã seguinte à primeira edição do projeto Mães na Pista, Tatiele Prudêncio, 38 anos, recebeu uma observação carinhosa do companheiro: "Fazia tempo que eu não te via tão feliz".
Na noite anterior, a jornalista havia compartilhado a pista de dança com cerca de 500 mulheres na festa exclusivamente feminina criada por ela e pelas amigas Regina Lima, 39 anos, e Fabiana Motta, 45.
O evento, que ocorreu em Porto Alegre, foi pensado para oferecer algumas horas de leveza para mães que, assim como elas, sabem o quanto a maternidade pode ser pesada. O resultado não poderia ter sido mais gratificante.
— Foi um dos momentos mais especiais da minha vida. Conseguimos encorajar centenas de mães a saírem de casa para fazer uma coisa diferente e se divertirem sem culpa. Sabemos, pela nossa própria experiência, como isso é raro depois da maternidade — reflete Tatiele, que é mãe de Theo, 10 anos, e Clara, quatro.
O relato traduz uma realidade comum a grande parte das mães, que veem seus momentos de lazer e bem-estar serem engolidos pelas demandas de cuidado com os filhos. Pesquisa do Instituto Market Analysis, que entrevistou 1.019 pessoas de 128 cidades brasileiras em 2018, constatou que o tempo livre das mulheres muda drasticamente após a chegada dos pequenos.
Enquanto 61% das entrevistadas sem filhos consideraram ter algum tempo livre, entre as que são mães, o percentual caiu para 40%. O levantamento também revelou que 20% das mulheres sem filhos costumam encontrar amigos, mas, depois da maternidade, o índice cai para 9%.
Já o hábito de assistir TV é uma opção de lazer para 29% antes dos filhos e sobe para 48% depois da chegada deles.
Entrevistas
"Vale-night" para as mães
Foi pensando nesse cenário que nasceu o Mães na Pista. Embora não haja nada de errado em aproveitar um momento de descanso diante da televisão, o projeto almeja ir além: proporcionar um "vale-night" divertido e seguro para as mães, tirando-as de casa por algumas horas para curtir a noite ao lado das amigas — ou até sozinhas.
No início, porém, a ideia era menos ambiciosa. A origem do projeto remete ao grupo de mães do Colégio João XXIII, onde estudam os filhos das três organizadoras. Criado inicialmente no WhatsApp para tratar das questões escolares, a comunidade logo evoluiu para encontros mensais em bares ou na casa de alguma das integrantes.
Fabiana, que é mãe de Carolina, 10 anos, e Júlia, sete, lembra que os encontros se transformaram em "espaços de liberdade" e de reencontro com as suas individualidades:
— Comentávamos sobre como era importante aquele momento no nosso mês, porque a maioria de nós acabou deixando de lado seus hobbies depois que se tornou mãe. Fomos percebendo que essa era uma necessidade de todas as mães do grupo e que poderia ser a de muitas outras — recorda a gerente de pessoas e estudante de Psicologia.

— Só nos reunirmos para conversar e tomar umas bebidinhas já mudava a nossa semana. Ficávamos renovadas e felizes por conseguir fazer essa pausa, porque, na verdade, estávamos todas atropeladas pela rotina — completa Tatiele.
O insight para transformar o grupo de mães em festa veio da constatação de que os eventos exclusivamente femininos são tendência no mundo. Em países como Alemanha e França, por exemplo, as baladas destinadas às mães já são um formato consolidado. Por aqui, existem projetos semelhantes em outros Estados.
Por que não trazer a proposta para Porto Alegre? Fabiana, Regina e Tatiele decidiram dar a largada na iniciativa, confiantes de que encontrariam público para o evento. Mas não imaginavam que a adesão seria tanta.
A primeira edição, em maio deste ano, teve cerca de 150 ingressos vendidos apenas nas primeiras 24 horas de divulgação — antes do anúncio das atrações. Ao todo, foram 500 entradas comercializadas, atingindo a capacidade máxima do espaço que sediou a festa.
— Reunimos mulheres dos 18 aos 80 anos, avós, mães e filhas. Todas dançaram e aproveitaram livremente, sem vergonha ou preocupação, porque estávamos só entre mulheres. Foi uma noite inesquecível — define Regina, empresária e mãe de Antônio, 10 anos, e Pedro, quatro.

Maternidade não deve "apagar" a mulher
Conforme as organizadoras, a festa foi mais do que um momento de descontração. Foi também uma oportunidade de se reconectar com a própria essência.
— Muitas mulheres vieram nos relatar que saíram da festa realizadas, porque sentiram que puderam ser elas mesmas, algo que há tempo não sentiam. Com as responsabilidades da maternidade, acabamos colocando os filhos no centro de tudo e esquecendo quem nós somos além de sermos mães — conta Fabiana.
A percepção é chancelada pela psicóloga clínica Gisela Sparremberger, do perfil Respira, Mulher, que considera a maternidade uma das maiores transformações da identidade feminina. Nenhuma mulher segue a mesma depois de se tornar mãe, mas essa mudança não precisa representar o fim da própria individualidade.
— É natural que as mulheres reorganizem as prioridades, a rotina e os vínculos, mas precisamos ficar atentas para quando isso vira algum tipo de apagamento. As mães correm o risco de serem vistas e de se verem apenas como mães, esquecendo que também são mulheres, seres desejantes que possuem amizades, interesses e necessidades próprias — afirma.
Conforme a psicóloga, continuar tendo momentos de lazer e autocuidado é essencial para a saúde mental das mães:
— Muitas mães pensam que reservar um tempo para si é um luxo; mas, na verdade, é uma necessidade. Isso proporciona a redução do estresse e da sobrecarga emocional, e o cérebro precisa disso para sair do estado constante de alerta e responsabilidade que ser mãe exige. Esses pequenos períodos de lazer e descanso previnem o esgotamento extremo e um possível burnout parental.
Entretanto, Gisela pondera que cada mãe tem seu próprio tempo e sua maneira de viver a maternidade. Apesar da importância de reservar momentos para curtir sozinha ou com as amigas, a psicóloga lembra que isso não deve se transformar em uma nova cobrança. Não há nada de errado, por exemplo, em preferir passar o tempo com os filhos em vez de ir à balada.
Comportamento
"A culpa é quase inerente à maternidade"
O problema, segundo ela, está em deixar de fazer algo de que se gosta e que se tem vontade por causa da culpa, um dos principais obstáculos para que as mães se permitam esse tipo de pausa. A ideia de que estão deixando de cumprir o papel materno ao dedicar algumas horas a si mesmas pode fazer com que muitas mulheres abram mão de atividades que antes lhes davam prazer.
— Existe uma voz que todas as mães escutam, que aparece geralmente no final do dia. É aquela voz que diz: "Hoje você não foi uma boa mãe, você não foi eficiente, você não deu conta, você poderia ter feito mais". Essa é a voz da culpa, uma voz que mente. Mas, se a gente não tiver consciência de que ela mente, ela pode nos pegar de jeito — diz a psicóloga.
Essa sensação não é estranha às criadoras do Mães na Pista. Questionadas pela reportagem se já haviam se sentido culpadas por priorizar as próprias necessidades em algum momento, as três responderam que sim, muitas vezes.
— Eu acho que a culpa é quase inerente à maternidade. Não sei se existe uma única mãe que nunca tenha se sentido culpada por algo — reflete Regina.
— É difícil lembrarmos que também somos importantes, também merecemos nos divertir e que está tudo bem deixar os filhos com o pai ou com a rede de apoio por algumas horinhas. Muitas vezes, a ficha só cai quando alguém nos sacode e nos lembra disso — completa Tatiele.
Na avaliação da psicóloga, reconhecer quando a culpa está agindo é parte do processo de recuperar a autonomia e entender que cuidar de si não diminui a capacidade de cuidar do outro.
— Pelo contrário: uma mulher emocionalmente saudável tende a estar muito mais apta e disponível afetivamente para os seus filhos — diz.

É essa ideia que as organizadoras da festa almejam transmitir, tanto para as participantes quanto para elas próprias — que também estão no processo de vencer a culpa materna e priorizar mais a si mesmas. Contudo, para elas, idealizar a iniciativa já ajudou a transformar muita coisa.
— Nós três passamos por uma virada de chave pessoal. Por conta do Mães na Pista, naturalmente passamos a nos encontrar mais, mas nosso convívio agora vai além de organizar a festa. Nós indicamos séries e livros umas para as outras, damos dicas de coisas legais para fazer, pequenos hábitos que costumam se perder na rotina da maternidade e que estamos resgatando juntas — revela Tatiele.
Fitness
Segunda edição em agosto
Na noite de 21 de agosto, quando ocorre a segunda edição da festa, Tatiele, Fabiana e Regina voltarão a resgatar o hábito de dançar. O evento será realizado no Fuga Bar, no Quarto Distrito, na Capital, e os ingressos podem ser adquiridos pela Sympla.
As mães estarão na pista das 19h à 1h — horário pensado para não comprometer o dia seguinte. A trilha sonora ficará por conta de Maik Salgado e banda, com participação especial de Marcel Gorski, além da DJ Laiz Regina. O repertório vai percorrer sucessos dos anos 1980, 1990, 2000 e 2010, passando pelo pop, rock e axé.
Mais do que repetir uma festa que deu certo, as organizadoras querem consolidar o evento como um momento de lazer e autocuidado para quem tanto se dedica a cuidar do outro.
— O objetivo não é fazer com que as mães esqueçam que são mães, mas fazer com que elas lembrem que também são mulheres e que existem para além do papel materno — resume Fabiana.






















