
Luisa Arraes não perde uma oportunidade de fazer arte. Seja atuando, escrevendo, dirigindo ou produzindo, sempre busca uma maneira de criar. É nesse caminho múltiplo que ela chega a um dos momentos mais movimentados da carreira.
A atriz estrela Muito Prazer, nova comédia romântica de Jorge Furtado, que estreia nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (27). No longa, ela interpreta Grace, uma jovem que vive em um motel abandonado e transforma o espaço em sua casa.
A personagem ganha a companhia de Rubem (Daniel de Oliveira), que herda o estabelecimento, e de Nalva (Samantha Jones). Juntos, eles se envolvem em uma história que mistura romance, humor e situações inusitadas a partir da venda de vídeos pornográficos ilegais.
Para a artista, o convite de Furtado já seria suficiente para despertar interesse. Os dois somam algumas parcerias anteriores: ela participou de Rasga Coração (2018) e trabalhou em projetos escritos pelo cineasta, como Grande Sertão (2024), além de colaborar em um dos episódios da série criada pelo gaúcho, Amor e Sorte (2020), no qual, além de atuar, também dirige e escreve ao lado de Caio Blat.
— Não há absolutamente nenhum projeto que o Jorge Furtado chame que não seja imperdível e uma coisa que todo mundo quer fazer — afirma.
Entrevistas
Ela conta que, antes mesmo de ler o roteiro de Muito Prazer, já estava animada com o convite. A decisão ficou ainda mais fácil quando recebeu do diretor um texto explicando por que ele acreditava que ela seria a atriz ideal para interpretar Grace.
— O Jorge é muito incrível, porque tudo é uma oportunidade de fazer arte.
Esse não é o único projeto em andamento da atriz. Em julho, Luisa estreou, ao lado de Edson Celulari e Eduardo Sterblitch, o clássico atemporal de Nelson Rodrigues, O Beijo no Asfalto, no Rio de Janeiro. Na primeira sessão, a plateia contou com a presença de Fernanda Montenegro, intérprete de Selminha em montagem do grupo Teatro dos Sete, há 65 anos.
— Foi uma temporada tão linda. O texto do Nelson é maravilhoso, porque são questões que ele falou lá na década de 1960. Uma fofoca que vai virando uma coisa, e a família é destruída por conta de um disse me disse. Antes eram os jornais e agora é a internet, em que tudo se multiplica e se distorce tão rápido — afirma.

Desde cedo fazendo arte
Natural do Rio de Janeiro, Luisa, hoje com 33 anos, começou cedo no universo das artes. Filha do cineasta Guel Arraes e da atriz Virginia Cavendish, ela passou parte da infância acompanhando a rotina dos pais.
— Passei minha infância no teatro mesmo, que é um lugar que funciona muito com criança. O pessoal ficava lá trabalhando e eu ficava me divertindo. Foi um lugar em que aprendi a amar, muito cedo, essa coisa de criar. Todo artista começa um pouco por aí.
A estreia profissional veio ainda jovem, com participações em obras dirigidas pelo pai, como O Auto da Compadecida (2000) e Lisbela e o Prisioneiro (2003). Depois, Luisa passou pela televisão em novelas como Babilônia (2015) e na série Cine Holliúdy (2022). Ao longo dos anos, também acumulou trabalhos no cinema, como O Abismo Prateado (2011), A Busca (2013) e Transe (2022).
No teatro, além de experiências como autora e roteirista, também assumiu funções de produção. Dirigiu ainda o curta-metragem Dependências (2023), uma sátira da classe média brasileira inspirada em uma peça de teatro de 2016 na qual havia atuado.
Ela diz que não pode simplesmente esperar pelos grandes convites. Precisa criar os próprios caminhos. Mesmo quando está ansiosa para trabalhar, conta que já precisou recusar projetos com os quais não se identificava.
— Quando chega um roteiro bom, dá vontade de soltar fumaça branca, igual quando escolhem o novo Papa — brinca.
Em entrevista a Donna, Luisa fala sobre a personagem Grace, a trajetória como atriz e os preparativos para interpretar Cássia Eller em uma das cinebiografias mais aguardadas para o próximo ano.

Confira a entrevista
Como surgiu o convite para o filme e o que te chamou atenção quando leu o roteiro?
Ele (Jorge) escreveu um texto explicando por que achava que eu era a melhor atriz para fazer aquele personagem naquele filme. E o roteiro é uma maravilha, né? Uma menina que mora num motel abandonado, que fez daquele lugar a sua casa, o seu lar, até que chega o Ruben (Daniel de Oliveira), que herdou o motel de um tio, e eles vão tentar fazer esse motel funcionar.
Fiquei muito animada para fazer, é uma comédia romântica diferente. Ela já começa dizendo que não gosta de sexo com outras pessoas. Então você fala: "Bom, desse mato não vai sair coelho, né?" (risos).

A sua personagem é uma caixinha de surpresas: chega sem rodeios, solitária, mas, aos poucos, vai se desarmando. Como foi a composição dessa personagem?
Ela tem esse caráter nonsense como muitos textos do Jorge. Ela é quase uma Alice no País das Maravilhas: a cada hora, ela traz uma coisa, traz uma ideia. Ela é muito criativa.
Esse motel abandonado é quase como um lugar em que você pode criar o seu mundo ali dentro. É um teatro, na verdade. Eles começam a construir aquele lugar abandonado, o lugar mais legal possível para eles.
Ela se identifica com aquele lugar que ninguém quer, se sente rejeitada pela mãe, não tem família, então fala: "Vou transformar esse lugar que ninguém quer no lugar mais legal do mundo".
Eu acho que eles fazem isso, sabe? São três personagens outsiders, que não sabem como vão ganhar dinheiro no mundo, ainda mais hoje que as profissões estão muito digitalizadas. Então, o que eles vão fazer? Como eles vão ganhar dinheiro?
Ela está ali faxinando um dia ou outro, ele tá trabalhando de motorista de aplicativo, mas eles usam a criatividade para inventar um trabalho não ortodoxo, digamos assim. É isso, a criatividade é sempre a melhor saída.
Comportamento
Muito Prazer marca o seu reencontro com Jorge Furtado, certo? Como foi trabalhar com ele agora como protagonista de uma história dele?
É a primeira vez que trabalho com o Jorge me dirigindo. Eu já fiz o Rasga Coração, um filme que eu amo muito, mas era uma participação menor, e é nosso primeiro grande trabalho juntos.
Claro, ele escreveu várias coisas que eu fiz, como Grande Sertão (2024), escrevemos juntos a série Amor e Sorte (2020) na pandemia. O Jorge já é um parceiro de muito tempo, a gente fala a mesma língua. Me sinto muito, muito à vontade nesse universo.

Grace me faz lembrar um pouco a tua trajetória como atriz. Existe algum critério na escolha dos trabalhos? Porque é um trabalho diferente do outro.
A vida de uma atriz seria maravilhosa se fosse assim como você descreveu, como que eu escolho, né? (risos). Não é muito assim. Principalmente no Brasil, você tem que ser produtora também da sua carreira. Aprendi muito isso com a minha mãe, que sempre produziu os próprios os trabalhos.
Na minha vida, no teatro principalmente, a maioria das coisas eu produzo ou participo da produção e, claro, que quando vem um convite maravilhoso como esse (Muito Prazer) é uma glória.
A gente não pode ficar esperando sentado esses convites. Você não sabe quando vai chegar o próximo tão legal quanto esse. É um sim que você diz de barriga cheia. Mas o que importa para mim, principalmente, é a história.
Fico feliz de ouvir você falar isso, que são personagens muito diferentes uns dos outros, porque tenho muito orgulho dos trabalhos que fiz.
Saúde e Bem-Estar
O filme aborda as relações afetivas, a dificuldade de sair do isolamento e se abrir para o amor e a amizade. Você acha que ele reflete os relacionamentos contemporâneos? Que reflexões espera que o público leve para casa depois de assistir ao filme?
Eles são três personagens bem nerds, bem fechados no seu mundo, tímidos, de uma certa forma. E se juntam com o mesmo propósito. Tem uma coisa interessante desse filme, que ele é um resgate da inteligência natural, do ser humano. Porque tem coisas que só acontecem se você se encontra com outra pessoa. Eles não fazem reuniões online, eles saem dos seus trabalhos, das suas vidas e vão para um motel abandonado fazer acontecer ali.
Então, tem esse resgate da criatividade do ser humano, muito única, que a máquina ainda não soube capturar. Nem acho que vai saber.
Claro que tem grandes coisas acontecendo com a inteligência artificial na Medicina, mas, no campo das artes, é mais complexo. Eles usam desse encontro deles, quase analógico, para criar um mundo novo.
Com a presença feminina nas produções audiovisuais brasileiras ainda em processo de avanços, como você busca encontrar espaços para ocupar nesse cenário?
Tem muitos privilégios de onde nasci, mas ser mulher é um desafio diário. No nosso meio também são inúmeros. É muito difícil ainda a representação das personagens femininas, como elas são retratadas, em comparação aos personagens masculinos.
Como que um ator pode ter 45 anos e fazer o mocinho e a mocinha sempre tem que ser uma atriz nova. E se você faz uma, você não faz a segunda. A atriz com 25 anos já está velha para fazer uma mocinha. Isso é uma discrepância que temos até hoje.
Eu acho que é isso, um grande desafio, eu acho que é a representação, de conseguir encontrar personagens femininos complexos e interessantes e bem escritos assim. Então, quando aparece um, é uma glória.
Como estão os preparativos para interpretar Cássia Eller no cinema? Quais são as expectativas?
A gente está preparando a "cozinha". A gente fica querendo ficar mais em silêncio porque é um processo criativo, muito frágil e embrionário. Estou fazendo muitas aulas de violão, aula de voz, ensaio, preparação, tudo.
Pode ter certeza que todo dia a Luisa está se preparando para fazer a Cássia. É um desafio imenso, mas estou encontrando prazer nessa pesquisa. É trabalho de formiguinha, todo dia um pouquinho, achar um tonzinho na voz que não achava antes, é descobrir um jeitinho aqui, assistir uma coisa ali. Isso é o processo criativo.
Por isso que é tão louco, porque a gente, às vezes, entra num processo que toma a sua vida inteira e, quando acaba, você fala: "Meu Deus, quem sou eu? Para onde eu vou? Alguém me ajuda". Porque a sua vida, sua libido, tudo estava ali para aquele trabalho.

Quando imagina sua carreira daqui a 10 anos, onde gostaria de estar e que histórias espera estar contando?
Espero estar criando, conseguindo criar as coisas, atuando, dirigindo, escrevendo. Isso é sempre o meu maior desejo de vida. Essa é a minha estrutura. Para ter uma vida boa, é poder estar trabalhando e criando.
E contar histórias cada vez mais, ao mesmo tempo, profundas sobre a nossa existência, mas inusitadas também, com roupagens diferentes.





















