
Prestes a lançar um disco solo, Aline Wirley vive uma fase profissional e pessoal marcada pela plenitude. Apesar de ter deixado o ritmo ragatanga de lado, a paulista de 44 anos ainda é lembrada pelo sucesso com o grupo pop Rouge. Com uma leveza contagiante, a cantora carrega no coração o orgulho e o carinho pela trajetória que começou nos anos 2000.
— Olho para mim, para a minha história, e vejo uma artista, cantora, mulher, uma pessoa, como um todo, muito resiliente, porque não é fácil sustentar uma carreira durante 24 anos e eu ainda estou aqui. Hoje me sinto no melhor momento da minha vida, porque sou extremamente realizada.
Aline nasceu em Cachoeira Paulista, município a cerca de 200 quilômetros de São Paulo. Começou a cantar aos 14 anos, já com a sensação de que tinha uma voz diferente. Cantou na igreja, em bares e restaurantes, até que participou da seleção do programa Popstars em 2002, onde surgiu o grupo Rouge, com outros quatro nomes.
Ela conta que era um universo completamente diferente, e aprender a ser uma artista completa — que canta, dança, fala com a imprensa e divide o palco com outras mulheres talentosas — foi um desafio. Juntas, elas conquistaram o Brasil com músicas que continuam no imaginário de quem viveu aquela época. Sobre o maior sucesso do grupo, Aline responde o que qualquer fã do Rouge gostaria de ouvir:
— Claro que eu ainda sei a coreografia de Ragatanga, nunca vou esquecer. Já não tenho mais a mesma disposição, mas sei dançar todas as coreografias.

Desde que o grupo acabou, a artista diversificou a atuação e entendeu como honrar o passado, aproveitar o presente e projetar o futuro. Participou de realities como o The Masked Singer Brasil, em 2022, e o Big Brother Brasil, em 2023, construiu e consolidou uma carreira na internet, integrou programas de televisão como o Angélica ao Vivo e continuou cantando.
— Trabalho muito bem e assim eu vou me refazendo, me reconstruindo. Eu estou com 44 anos, vou fazer 45, e estou na melhor fase da minha vida. Estou bem comigo mesma, estou com a cabeça boa, estou em paz. Tem problema? Claro que tem! Mas estou feliz demais. Fazendo um pouco de tudo, mas sem medo, sabe?
Entrevistas
Atualmente, trabalha em um disco solo que pretende lançar no final do ano. O projeto, que já conta com 11 faixas, surge como uma celebração do momento que Aline vive, com um olhar atento às transformações e ciclos que fazem parte da vida das mulheres.
— É um disco feminino, brasileiro, dançante, quente, afetuoso. Vai ser lindo.
Parte desse "estado de bem viver", como descreve, vem da realização na vida pessoal. Ao lado do ator Igor Rickli, seu parceiro há 16 anos, Aline construiu uma família com os filhos Antônio, 11 anos, Fátima, 12, e Will, nove. Antônio segue os passos dos pais e interpreta Camilo na novela Quem Ama Cuida, da TV Globo, a mesma produção em que Igor vive Patrick.
Confira a entrevista com Aline Wirley:
O Rouge começou em uma época que não falávamos de representatividade negra e de potências femininas como falamos agora. Que tipo de dificuldades isso te trouxe?
Não posso falar por elas, só posso falar por mim: eu não tinha consciência do quão importante era eu estar ali e do quão importante éramos eu e a Karin estarmos ali. Porque nós tínhamos duas pessoas negras dentro de um grupo pop, que era algo também muito novo na época.
Hoje a música pop no Brasil é uma coisa de muita potência, mas na época que o Rouge surgiu, não tinha, não existia. Então a gente veio quebrando mesmo paradigmas, mudando a história, por isso que eu tenho muito orgulho de ter feito parte do Rouge.
Depois de tantos anos e com a consciência que eu fui adquirindo, principalmente consciência racial do que meu corpo é um corpo político, da mulher que eu sou, eu entendo exatamente essa importância. Principalmente encontrando muitas pessoas, muitas meninas pretas que vêm falar comigo sobre isso, como era importante a gente estar lá, a própria comunidade LGBTQI+ também.
Foi um movimento para além da música pop, foi um movimento de desenvolvimento cultural, social, afetivo, emocional.
Comportamento
Tiveste que passar por algum trabalho de se desvencilhar do Rouge para que esse passado não definisse teu futuro?
Sempre vou ser uma participante do Rouge, e para mim não é um problema ser a Aline do Rouge e ser lembrada por ser a menina que dançava o Ragatanga. Honro muito a minha história, porque o Rouge me deu tudo o que eu tenho e tudo o que construí.
Claro que eu tive que ir me refazendo porque depois do Rouge. O que você faz da vida depois que você é uma popstar e aí tudo acaba? Porque a gente veio de um sucesso estrondoso, e de repente, ó, acabou o grupo.
Durante todos esses anos, eu vim me reconstruindo enquanto artista, enquanto mulher e enquanto cantora. Tive que ir buscando e me reconectando com a minha essência.
Não foi fácil naquela época, porque todo mundo sabe que foi um formato meio abusivo, de certa forma, e a gente não ganhou muito dinheiro. Nós cinco tivemos desentendimentos porque somos diferentes e tiveram lacunas.
Chegou um momento da minha vida em que eu falei “tenho que deixar para trás, quero ficar só com a parte boa de tudo isso”.
Nem sei onde eu estaria se o Rouge não tivesse acontecido, é uma parte da minha vida. E eu quero olhar para essa história com toda a gratidão que ela merece.

Ser mãe e ter uma família como a tua te influenciou a chegar nesse estado de bem viver e de se sentir realizada?
A maternidade é o mergulho mais profundo que eu vivi e a necessidade de voltar para mim foi o que me trouxe para esse lugar. Porque quando a gente tem um filho, pelo menos comigo, é como se você entregasse a sua vida. Como se, durante um tempo, minha vida fosse deles. E eu me desconectei de quem eu era. Eu virei a Aline Mãe.
Então, esse processo de voltar para mim, de voltar o espelho para mim, foi muito importante. Porque eu tinha me perdido. Não sabia do que eu gostava, porque eu fiquei ali, como uma nutridora. Então, esse processo de voltar para mim, de me colocar em primeiro lugar na vida, por vezes, pode parecer uma certa arrogância. E não é!
É porque eu entendi que eu só posso e só vou ser para o mundo, para os meus filhos, para o meu marido, a melhor pessoa que eu puder ser se eu estiver em paz, se realmente eu estiver me amando. Senão é tudo uma ilusão. Foi uma tomada de consciência, de pensar: que bom que eu faço por mim antes.
Sou mãe de várias formas. Tenho um filho biológico e dois que vieram por meio da adoção e, para mim, o amor é tudo. Porque eu vejo aqui dentro da minha casa, com meus filhos, que realmente o amor pode transformar.
Foi difícil fazer isso?
Foi muito doloroso porque primeiro eu adoeci. Passei por um processo de ansiedade, precisei de ajuda, de terapia, de remédio. Fui adoecendo, minguando. E quando percebi esse lugar, me questionei se a vida era isso.
É nesse lugar que vou ficar? Eu não quero! Porque já vivi uma outra vida que era muito boa e pensei que não era possível que fosse isso. Foi nesse fundo do poço que comecei a procurar ajuda de várias formas, com diferentes profissionais. Fiz terapia convencional, e muita terapia holística.
Acredito que minha vida se sustenta em um olhar para além daquilo que eu vejo. Então me finquei na minha espiritualidade, que é o ponto fundamental da minha vida. Não tenho religião, não tenho dogma, mas entendo que a vida é um processo espiritual.
Além de mãe biológica, tu és mãe adotiva, e sabemos que o processo de adoção ainda é cercado por muitos preconceitos e idealizações. Qual foi teu maior aprendizado?
A vontade e o desejo sempre vieram muito do Igor. Desde que a gente se conheceu, era certo que a gente ia adotar. Quando chegou o Antônio, eu falei que não ia ser mãe nunca mais, porque é uma loucura que não tem nem como explicar. Os anos foram passando, ele cresceu, e o Igor disse que essa vontade vinha de um lugar muito genuíno no coração dele.
E ele é um superpai, é lindo de ver. Ele tem várias facetas, mas onde ele transborda, é na paternidade. E nossa relação é tão sólida, nosso casamento é tão bom, que eu topei viver essa aventura com ele. Fizemos a inscrição no site, as reuniões e tudo que envolve estar na fila um processo legal de adoção. Depois do processo pronto, levou mais ou menos dois anos até chegar as fotos dos nossos filhos.
Durante esse processo, eu me questionava muito sobre se eu seria capaz de amar os meus filhos tanto quanto eu amo o filho nascido de mim. E é possível. Eles são as coisas mais preciosas que eu tenho na vida.
É uma adoção tardia. Ou seja, são crianças que chegaram até nós sabendo exatamente da história deles. Eles têm consciência, sabem quem sou eu, quem é o Igor, o Antônio, quem eles são, dos pais biológicos, da família biológica. É uma via de mão dupla e a gente é muito honesto aqui.
A adoção tardia precisa ser olhada com muito cuidado, porque essas crianças vêm com toda a bagagem, não dá para idealizar porque vai mexer em toda a estrutura. Tudo aquilo que você tinha construído? Esquece, vai começar uma nova vida porque bagunça tudo.
O que vocês fizeram para honrar a história deles e preservar a individualidade deles, mas também criar harmonia na família de vocês?
Sempre fizemos muita questão de estar junto o tempo todo. Levamos para a escola, damos de comer, colocamos para dormir, estudamos para prova juntos. Porque, agora, nesse momento, a única coisa que a gente pode fazer de verdade é estar presente. Reforçar isso, que estamos ali, que somos a mamãe e o papai e vamos cuidar deles.
Principalmente com a Fátima, porque ela tinha um senso de cuidado muito grande com o Will, por ser mais velha. E eu tenho que lembrar ela. “Filha, está tudo bem. Agora, mamãe cuida e o papai cuidam. Você só é uma criança, não precisa se preocupar com nada.”
Eu não era mãe de menina, então já é outro lugar também, que é completamente diferente de ser mãe de menino. É outro universo. O nosso universo, feminino, é muito mais emaranhado, subjetivo e profundo.

Essa questão do autoconhecimento é bem importante para ti. O BBB te ajudou nesse processo de descobrir mais sobre ti mesma?
Completamente. As pessoas não fazem ideia do que é estar lá dentro. É uma loucura, porque no fundo é um jogo que todo mundo quer ganhar. Mesmo as conexões que você faz lá você vai querer que essa pessoa saia em algum momento, porque é um jogo. (...)
Lá dentro, você passa o tempo todo pensando coisas ruins dos outros. É um jogo que você precisa para conseguir se sustentar lá dentro, precisa daquele ranço, porque senão você vai acabar pedindo para sair. Quando eu saí e que eu vi o que tinha acontecido, eu ficava olhando para todo canto para ver se tinha uma câmera.
Fiquei cem dias lá, saí e demorei um tempo para voltar porque desassociei.
Foram tantos processos lá que, se eu não tivesse a cabeça que eu tenho e a minha caminhada de autoconhecimento e espiritualidade, teria dado ruim. Eu já tinha uma carreira construída, estava com filho pequeno aqui fora, pensava em tudo isso. Quando saí, pensava que tinha que voltar para onde comecei, procurar rede de apoio, me ajudar, me conhecer.
Depois do BBB, acho que tudo isso dá plenitude. As pessoas já me viram tomando banho de biquíni, essa foi a provação master. Se elas quiserem falar, vão falar. Cada um tem a percepção de mim que quiser e eu não tenho controle sobre isso, o BBB me ensinou isso. As pessoas me viam e interpretavam do jeito delas, sob a perspectiva delas, o que elas queriam.
Saber que você não tem controle sobre as narrativas que criam de você dá paz, é muito libertador.
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Com essa maturidade e essa visão de que os 40 anos têm sido a melhor fase da sua vida, como tu lidas com as pressões que ainda recaem sobre as mulheres? Seja em relação à aparência, ao comportamento ou ao envelhecimento.
Quando a idade começa a chegar, e principalmente o corpo começa a se transformar, que é isso, um dia você dorme, no outro dia você acorda e sua cara desmontou, derreteu. É um corpo que cansa. Eu preciso dormir mais cedo, não aguento mais beber.
Quando tudo isso começou a chegar, principalmente esse olhar estético do corpo físico, e diante desse mercado de mulheres maravilhosas e perfeitas, veio junto o amadurecimento que só o tempo pode dar. Que é esse lugar mais tranquilo de você não dar mais tanta bola para as pessoas.
Você começa a olhar para dentro e pensa que é bom ter a idade que tem. Eu não saio mais para bater boca por qualquer coisa. Se precisar, sim, mas por qualquer coisa, não, porque custa muito caro. As escolhas que faço, o tempo de qualidade que quero ter sem achar que precisa ser tudo agora, o tempo que eu quero ter com os meus filhos, as crianças crescendo...
É muito gostosa essa sensação que vai chegando, de sentir que você preenche você mesma. De ter essa consciência da sua história, de tudo que você já passou, de quem você ainda pode ser daqui para frente. Gosto muito de ter essa idade, com essa cabeça que tenho hoje e, claro, um botox aqui e ali porque também quero ficar bonita.
Mas não tem desespero, não vou lutar contra o tempo porque ele me trouxe coisas incríveis das quais não abro mão.




















