
Aos 52 anos, Isabel Teixeira vive um apogeu. Desde que conquistou o país como Maria Bruaca, em Pantanal, a atriz emendou trabalhos na televisão e no teatro, ampliou seu alcance junto ao grande público e chegou a um dos postos mais simbólicos da dramaturgia brasileira: vilã de novela das nove.
Ela fala sobre isso sem qualquer traço de deslumbramento. Em vez de vangloriar-se do sucesso alcançado com Pilar, antagonista de Quem Ama Cuida, a artista prefere rememorar o trabalho duro que a permitiu chegar a essa posição de prestígio.
— Honro o lugar que ocupo hoje. Mas, anos atrás, eu também estava honrando um cotidiano que era diferente e que eu amava igualmente. Não consigo hierarquizar as coisas — diz, em entrevista ao Donna.
Atriz desde os 10 anos de idade, ela construiu uma trajetória sólida no teatro para, somente em 2019, migrar para o universo das novelas, com uma participação em Amor de Mãe que acabou se estendendo até quase o fim da novela. Mas a virada de chave veio com Pantanal, que gravou o nome de Isabel no imaginário dos brasileiros.
— A novela tem a capacidade de criar um espaço comum de conversa em um país enorme como o Brasil. Pessoas diferentes acompanham a mesma história, criam teorias, discutem personagens. Isso é muito especial.

Agora, a artista experimenta um outro tipo de relação com o público: sua personagem está sendo absolutamente odiada. Embora tenha vivido vilãs em seus dois últimos trabalhos na televisão, as novelas Elas por Elas e Volta por Cima, nenhuma das antagonistas mexeu tanto com os ânimos dos espectadores quanto Pilar.
Isabel vê com naturalidade a reação das pessoas, justificando que a vilã de Quem Ama Cuida, mais do que qualquer outra a qual ela tenha dado vida, "foi feita para ser odiada". Por isso, a atriz não acredita em uma possível redenção da personagem, mas fica entusiasmada diante da incerteza trazida pelos folhetins:
— Novelas são obras abertas. Como atriz, gosto desse risco. Gosto de caminhar perto do abismo. Não sei até onde a Pilar vai, mas é essa imprevisibilidade que torna a novela tão fascinante.
Ao longo da conversa com Donna, ela reflete acerca da relação com o trabalho, sobre pressão estética, envelhecimento e cuidados com a saúde, especialmente após um diagnóstico delicado. Isabel também aborda a responsabilidade que acompanha a visibilidade pública, a importância da escuta e sua crença nas pequenas revoluções cotidianas.
Entrevistas
Leia a entrevista:
Na última vez que você falou com o Donna, você estava vivendo o fenômeno de Maria Bruaca, em Pantanal. O que mudou na sua vida desde então?
Acho que o audiovisual foi entrando na minha vida de um jeito muito presente. Depois de Pantanal, fiz Elas por Elas, Volta por Cima, participei do Falas Femininas e gravei o filme Diário do Fogo, que estreia em breve. Ao mesmo tempo, continuei fazendo o que sempre fiz: escrevi peças, dirigi, atuei no teatro e mantive a minha editora.
O que aconteceu nesses últimos quatro anos foi uma convivência maior entre as diferentes áreas da minha vida. Eu não gosto de ter férias, sou uma pessoa que descansa trabalhando. Então, fui trazendo a rotina das novelas para a minha rotina que já existia no teatro, na escrita e na produção cultural. E descobri que tudo isso é conciliável.
Também passei a viver mais entre São Paulo e Rio de Janeiro. Antes, eu era uma visitante que trabalhava no Rio. Hoje, administro duas casas e começo a chamar o Rio de casa também.

A vida está uma loucura, mas você gosta da loucura, é isso?
Sim, porque essa loucura sempre foi o meu normal (risos). A única coisa que eu deixei de fazer foi dar aulas de teatro, porque realmente não tenho mais tempo, não cabe na agenda.
Mas eu sempre gostei de estar em movimento. Movimento, para mim, é sinônimo de vida.
E como está sendo construir a Pilar, essa mulher narcisista e cruel, depois de viver outras duas vilãs em novelas?
São três vilãs de horários diferentes, o que acaba ditando muito o tom de cada uma, porque cada faixa tem a sua pegada.
A Violeta, de Volta por Cima, era uma contraventora. Ela nasceu filha de bicheiro e aquilo era natural para ela. O jogo do bicho é contra a lei, mas é uma realidade e uma cultura muito forte no Rio de Janeiro. E ela tinha uma história de amor, então, acho que ela tinha um lance diferente.
Já a Helena, de Elas por Elas, era uma menina mimada que lidava com questões psicológicas muito sérias, ligadas à criação que ela recebeu. Tanto que ela termina em uma clínica psiquiátrica.
A Pilar é a mais complexa e, para mim, a pior das três. Ela é uma personagem amoral, sem qualquer ética ou senso de limite. Você definiu bem quando falou em narcisismo, porque ela é alguém que realmente acredita que tudo gira ao seu redor.
Acho que a grande patologia da Pilar é essa incapacidade de perceber o outro. Ela foi construída para ocupar um lugar bem tradicional de vilania na teledramaturgia brasileira.
Em Pantanal, você experimentou sentir o amor e a empatia do público por uma personagem sua. Como está sendo sentir agora o ódio?
Maravilhoso, porque essa é a função da Pilar. Ela foi feita para ser odiada, e as pessoas realmente estão odiando essa personagem.
Outro dia fui ao supermercado e os funcionários do caixa vieram conversar comigo. Eles diziam: "Lá em casa, a gente só te xinga". Mas falavam com carinho, brincando, envolvidos pela história. Eu acho isso tão bacana.
Eu vejo tanto ódio sendo direcionado para pessoas reais. Vivemos uma realidade dilacerante, em que uma empregada doméstica é torturada por causa de um anel e uma discussão de trânsito pode acabar em violência extrema.
Nesse cenário, acho saudável que a ficção canalize esse ódio. Vamos odiar a vilã da novela e tentar nos entender na vida real, sabe?
Fico feliz de a Pilar estar canalizando esse ódio. E não existe uma vilã sem uma boa mocinha, né? O ódio que a Pilar recebe também se deve à maestria da mocinha feita por Letícia Colin.

Mas existe diferença entre o ódio à personagem e à atriz, não é?
Sim, e temos que tomar cuidado com isso. Eu consigo entender que, muitas vezes, um ódio relacionado à minha pessoa passa pelo filtro da Pilar. Criei ferramentas para lidar com isso, mas não é fácil.
Às vezes chegam comentários que me deixam pensando: "Será que isso é uma crítica construtiva? Será que a pessoa não gosta do jeito que eu componho a personagem? Ou será que ela tá direcionando um discurso de ódio para mim?".
Fitness
Depois de muitos anos de carreira, você ocupa agora, aos 52 anos, o posto de vilã de novela das nove. O que esse momento significa?
Para mim, continua sendo trabalho. Trabalho sério, trabalho diário. Eu sempre me considerei uma pessoa bem-sucedida. Sucesso, para mim, é conseguir fazer aquilo que amo todos os dias.
Eu honro o lugar que ocupo hoje. Mas anos atrás, eu também estava honrando um cotidiano que era diferente e que eu amava igualmente. Não consigo hierarquizar as coisas; para mim, trabalho é trabalho e deve ser honrado. Não acredito no Olimpo, acredito no trabalho.
O que muda é que fazer novela exige um fôlego específico, e eu estou aprendendo a ter esse novo tipo de resistência física e mental. Quero chegar ao fim da novela com a mesma saúde que comecei. Essa virou uma meta importante.

Por falar em saúde, em 2020, você descobriu que tem a Síndrome de Li-Fraumeni, condição genética que aumenta o risco de desenvolver vários tipos de câncer. Como esse diagnóstico impactou a sua vida?
Minha mãe morreu aos 56 anos e não sabia que tinha essa síndrome. Foi por causa dessa história familiar, por ela ter partido tão jovem, que fiz o sequenciamento genético e descobri o diagnóstico.
O primeiro impacto foi o choque, porque foi um encontro direto com a ideia da finitude. Estava na passagem final dos meus 40 anos, ainda bem longe de pensar sobre isso. Mas, depois do impacto inicial, veio o conhecimento e a mudança.
Hoje, costumo dizer que estou vivendo saúde. Sigo todos os protocolos de prevenção, faço exames regularmente e adotei novos hábitos, pois quero ficar mais tempo aqui. Parei de fumar, passei a cuidar mais da minha alimentação e comecei a praticar atividades físicas.
Sabe o que aconteceu? A minha vida melhorou muito. Fiquei com mais energia, passei a me sentir mais disposta e me tornei uma pessoa melhor para mim mesma. O câncer é uma doença que assusta, mas entendi que a prevenção também é uma forma de cura.
Comportamento
As mulheres são cobradas a estarem dentro de um padrão estético e se manterem jovens, especialmente no meio artístico. Como você lida com essa pressão?
Eu escolho o que escuto. Nunca me senti tão bem fisicamente quanto agora. Se me chamarem de velha, vou entender que é bom ser velha, porque estou me sentindo bem e não quero mais sofrer com pressões e cobranças.
Não tenho medo de parecer velha; acho a velhice fascinante. Se você não chega nela, é porque algo interrompeu o caminho antes. Mas acredito que cada mulher tem o direito de escolher como quer envelhecer.
Por causa da síndrome, há procedimentos que prefiro não fazer, mas isso é uma escolha minha. Porém, se você está se sentindo mal e vai ficar melhor fazendo vários procedimentos, faça-os. O importante é que as mulheres estejam plenas e coerentes consigo mesmas.

Desde que se tornou uma pessoa pública, a sua voz tem um alcance muito maior. Isso te trouxe algum senso de responsabilidade em relação a se posicionar sobre o que movimenta o debate público?
Sim, mas sem forçar nada. Não posso forjar uma causa só para ser aceita. Acredito que, quando você levanta uma bandeira, ela precisa realmente fazer sentido para você.
E eu tenho total noção de que não consigo cumprir todas as pautas nem conhecer todas as causas.
Mas eu gosto muito de escutar. Talvez essa seja a minha principal causa hoje: escutar pessoas, experiências e ideias diferentes das minhas. Surgiram novas vozes, novas formas de pensamento, e eu gosto de ouvi-las para aprender.
Não acredito em uma revolução linear, mas em pequenas revoluções que nos tornam mais humanos, solidários e justos. Quero contribuir com isso, mesmo que, às vezes, a minha melhor contribuição seja a escuta.
E acredito profundamente na ficção como instrumento de encontro. Desejo seguir até o fim dos meus dias como uma trabalhadora capaz de unir as pessoas em torno de uma história que está sendo contada.


















