Nascida em Dom Pedrito, no coração do Pampa, a cantora e criadora de conteúdo Lara Rossato, 38 anos, carrega consigo uma missão: de apresentar ao mundo, seja por meio de suas músicas ou de vídeos nas redes sociais, as belezas e as histórias do bioma.
Quando não está viajando a trabalho, ela é moradora de Vacaiquá, subdistrito de sua cidade natal, que faz fronteira com o Uruguai. No Instagram, Lara tem 340 mil seguidores — quase mil vezes mais do que o número de habitantes da localidade, que tem apenas 357 moradores. Alguns vídeos da série Saberes do Pampa, chegaram a 3 milhões de visualizações.
Mesmo com o lado artístico aflorado, fez questão de ter uma formação acadêmica, em biologia. Só que a música a chamava. Uma década atrás, Lara deixou o seu chão e se mudou para a Capital, onde tocou de rock a MPB, fez parte de bandas e soltou a voz. O objetivo era viver da sua arte.
— Em toda essa caminhada, eu tinha a sensação de estar me preparando para algo. E tinha a certeza de que eu não tinha outra opção na minha vida a não ser cantar. Mesmo a duras penas, me formei e, hoje, coloco um pouco do meu conhecimento de biologia nos vídeos que eu faço sobre o Pampa.
O período pandêmico, porém, a fez reencontrar suas raízes em Vacaiquá, encilhando cavalos, cuidando das galinhas, caminhando pelos campos. Por lá, bateu o martelo e decidiu que iria cantar a "gauchada".
Estratégica, passou mais de ano estudando para se tornar conhecida pelo seu conteúdo digital e, só depois deste processo, sentiu-se confiante para desenvolver o primeiro álbum. Entre Dois Tempos foi lançado nas plataformas digitais em junho.
Na obra, conta como se vê, transitando entre a tradição e a modernidade. Na introdução do álbum, ela diz: "Cresceu conhecendo as lidas/ Descalça, suja de poeira/ Criança solta e campeira que foi feliz tendo pouco/ E que hoje, neste mundo louco/ Leva as raízes no peito/ E faz o novo com jeito/ Porque vive / Entre dois tempos".
No começo do ano, durante um mês, sua voz chegou às pessoas pela televisão. Foi coapresentadora convidada do Galpão Crioulo, programa da RBS TV, ao lado de Neto Fagundes. Uma consolidação de seu trabalho e dedicação à cultura gaúcha.

Confira a entrevista:
Em meio às redes sociais, como tu enxergas a conservação da tradição gaúcha? Achas que as próximas gerações vão seguir valorizando, levando adiante?
Acredito que a disseminação da cultura gaúcha vai crescer cada vez mais. O jovem e o adulto estão voltando para o Interior. Eles acreditaram que teriam, talvez, paz, trabalho, saúde na cidade grande. Mas tem tanta tecnologia, tanta coisa, que as pessoas da minha faixa etária estão repensando algumas coisas.
Hoje, no Interior, temos mais acesso à saúde, à internet. Antes, lá no fundão do campo, não tinha nem luz. Hoje, tem Starlink. E é um negócio que foi em pouco tempo. Então, penso que essa gurizada que saiu do campo e foi para a cidade, achando que a felicidade estava ali, na correria, está começando a entender que não. E estão olhando para a tranquilidade do Interior.
Então, não tenho medo de que a cultura gaúcha vai acabar. Ao contrário, acho que vai se fortalecer muito mais nos próximos anos, por causa do clima, da tecnologia, das aglomerações nas cidades, dessa falta de paz que as pessoas estão tendo.
Entrevistas
O teu trabalho como criadora de conteúdo busca conectar as pessoas com o campo?
A série Saberes do Pampa, quando comecei, foi para resgatar um pouco disso. Tem muita gente que me diz que, só de olhar os vídeos, sente saudade do campo, do Pampa. Me falam que estão pensando em retornar. E digo, com certeza, que está acontecendo este retorno. As pessoas acham que o Pampa é vazio, que tu olha aquela imensidão e não tem nada.
Já tive uns feedbacks dizendo que achavam deprimente morar no campo. Mas como a pessoa pode achar deprimente se nunca morou no lugar? Alguns passam uns dois dias e ficam enjoados. Tudo bem, é que a pessoa já está acostumada com o barulho, com os carros, com o movimento.
Só que, no campo, a gente trabalha muito e tem muita coisa para fazer. Tem muita vida. É indiscutível que tem mais paz, só que tu tem que aguentar a paz, aguentar a tranquilidade, aguentar não ter barulho. Tem que se desintoxicar dessa loucura de não ter tempo para nada.
O que é vida? Para mim, é acordar de manhã, cuidar dos bichos.
Coisa bem boa é estar tomando mate e passar um cavalo do teu lado, ficar olhando a galinha ciscando e comendo, mas tem gente que não quer fazer isso para ficar olhando Reels. Acho que a vida no campo de antigamente, as gerações passadas, eram mais felizes. Hoje, a gente tem tecnologia, mas as pessoas estão depressivas. Então, no Interior, acho que somos mais felizes.

Acreditas que os teus vídeos sobre a cultura gaúcha abriram caminho para mostrares o teu lado musical?
Só cantar bem não adianta na internet. Tem milhões de mulheres que cantam muito melhor que eu, que são muito mais bonitas, mais ricas, mais isso, mais aquilo, mas não adianta: na internet, tem que ter estratégia, lançar o teu produto para um público certo. Então, fui desenvolvendo os vídeos, me aprimorando, também amadurecendo e aprendendo.
Errei bastante e foi muito bom, porque entendia onde errava e melhorava no próximo vídeo. Fui me aperfeiçoando.
Gravo tudo com o celular e eu mesma faço tudo, até a edição, porque se passar para outra pessoa, talvez, ela não vá saber a hora criar uma emoção. E eu crio emoção nos meus vídeos porque quero realmente que as pessoas se apaixonem pelo Pampa gaúcho, para preservar o Pampa, para voltar para o Pampa, para cuidar do Pampa.
O nosso bioma é lindo, sou apaixonada por ele. Então, tem um propósito por trás: se as pessoas conhecerem, saberem sobre o própria história, saberem mais do bioma, talvez elas comecem a amar aquilo.

Tu te consideras tradicionalista?
De certa parte, sim. Mas não sou uma tradicionalista que vai muito nas regras. O tradicionalismo é uma coisa também muito institucionalizada dentro do CTG, tem regras.
Quando vou no CTG, respeito todas elas, mas também vivo a cultura do campo, que não é institucionalizada. Ninguém vai chegar lá e medir se estou com uma bombacha X ou Y.
Para mim, a cultura gaúcha vem muito do campo. E o CTG institucionalizou os símbolos, a bandeira.
Comecei fazendo conteúdo para um público tradicionalista, pessoas que vivem a tradição gaúcha todos os dias ou viveram. Depois que a gente cresce o perfil com a viralização, começamos a pegar outros públicos. Mas, primeiro foi nichado, para, agora, com o Saberes do Pampa, ficar mais aberto.
Não precisa ser tradicionalista para saber que existe um minuano, todo mundo sabe, comenta. E na música está sendo isso também. Tem música no álbum para quem é tradicionalista, para quem gosta de rock. É muito louco isso, de trazer para o teu universo pessoas que nunca estiveram ali.
Comportamento
Tu citaste a questão das regras do CTG. Como tu vês a questão das mulheres no meio tradicionalista, que por muito tempo levou a pecha de ser um ambiente machista?
Primeiro, acho que no CTG as regras têm que ser seguidas. É um lugar que eu não frequento muito, mas que é o que está segurando as tradições, porque, justamente, tem regras. Então, acho que eles estão certos. Ao mesmo tempo, acho que, de certa forma, a tradição vai se adaptando.
Como mulher, penso que a música gaúcha se criou muito dentro dos galpões, que era um ambiente predominantemente masculino. Então, a maioria das músicas fala do homem do campo, da lida do campo.
A questão do pouco espaço para a mulher na música é estrutural, e não é só na música gaúcha, é em todas. Acho injusto quando as pessoas falam que a cultura gaúcha silencia as mulheres. Não acho que a cultura gaúcha silencia, porque as mulheres sempre tiveram que estar em casa cuidando dos filhos.
Com o meu trabalho, nunca senti machismo, nunca fui desrespeitada dentro do gauchismo. No rock, já fui desrespeitada várias vezes. O machismo que eu sinto na música como um todo é na questão que os homens se apoiam mais entre eles, mas não é na música gaúcha, é no geral.
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E como tu se inseres neste cenário?
Na música, eu, Lara, tenho que me esforçar 10 vezes mais para ser legitimada. Tenho que fazer vídeos, ser conhecida por diversas outras coisas, aparecer por diversos lados para alguém dizer: "Essa guria é boa".
Só que se aparece sei lá, um "Laro Rossato", um cara no campo, que é peão e toca um violãozinho, já dizem: "Este é gaúcho, maravilhoso". Só que isso não acontece só no gauchismo.
Por isso, eu fico realmente muito chateada quando falam muito mal da cultura gaúcha. A gente tem cinco, seis músicas gaúchas horríveis, ridículas. Em compensação, para cada uma, temos milhares de poesias lindas.
Não é a cultura gaúcha que é machista, é a sociedade.
O que estou fazendo é mostrar o meu trabalho, sem ficar levantando bandeira contra um, contra outro, contra minha própria cultura. É óbvio que tem muita coisa que a gente precisa discutir, incluir pessoas nas músicas, nos discursos, pessoas que não tiveram oportunidade. Pouco se fala nos indígenas, na mulher.

A questão da estética gaúcha, mesclando a moda com a cultura, tu achas que também ajuda a atrair uma nova geração?
Sim, muito. E vai além. Ganha toda a nossa economia, porque tem muitos artesãos que fazem boina, bombacha. Os jovens, ao invés de comprarem qualquer outra coisa de fora, com bandeira de outro país ou outra cultura, voltam para as origens.
Hoje, todo mundo está tão igual, tão padronizado, tudo cinza. Então, é legal quando a pessoa começa a ver coisas diferentes da cultura dela e passa a incrementar no look.
Tipo, uma boina com calça jeans. Usar uma bombachinha com tênis para caminhar, fica muito confortável. Claro, isso em um CTG não pode. Mas já reforça a nossa identidade. Por exemplo, quando tu vais para o Nordeste, a gente já vê a identidade das pessoas quando chega no aeroporto.
O meu sonho é chegar no nosso aeroporto e ter prenda e peão dançando, gente de bombacha, vivendo a cultura. Parece que a gente não vive.
Muita gente não quer colocar uma bombacha porque gaúcho é relacionado como sendo racista, machista. Só que estão demonizando um negócio que se criou com os mestiços, filhos de espanhóis com indígenas.
Em Porto Alegre, a cultura gaúcha só se vê quando tem o Acampamento Farroupilha.
É pouco. Menos de um mês e falta investimento. Olha a festa de São João no Nordeste. É rica, com muito investimento. Grandes marcas envolvidas, vários shows. É gigantesco.
As cidades são preparadas, vem turistas de tudo que é lugar. As pessoas te recebem e já te colocam um chapeuzinho de cangaceiro. Tu entras no clima para curtir. Tudo organizado, limpinho, com segurança.
Imagina chegar em Porto Alegre e ter um negócio assim, com toda a Orla com música, com CTGs dançando por tudo quanto é lado. É lindo demais ver a gurizada dançando. Para o turista, é uma visão maravilhosa. A cidade inteira respirando cultura, shows, gauchismo, churrasco, chimarrão. Ia atrair muitos visitantes.

Como mulher, artista e criadora de conteúdo, tu sentes pressão para aparentar estar sempre jovem e em busca de uma perfeição estética inexistente, mas tão entranhada nas redes sociais?
Sinto. E bastante. Tanto que agora estou com Botox e não sei mais o que na cara. Mas fiz, não gostei e não vou fazer mais. De certa forma, em alguns momentos, penso que o jeito que tu te apresentas é uma forma de respeito ao teu público.
Só que tem uma pressão que talvez eu me coloque mais porque sou influenciada o tempo inteiro pelos filtros, pelas mulheres perfeitas do Instagram.
E sinto muita pressão para estar magra, para estar sempre bem arrumada.
Tem dias que tu decides por não comer, não tomar muita água, para no dia seguinte estar bem porque tem viagem, algum trabalho, alguma entrevista. Então, tenho que me cuidar. Mas quando saio muito estranha em uma foto, me culpo, por não ter me cuidado o suficiente.
Queria ter me cuidado mais, me penalizo por ter tomado um vinho. Quero chegar em um dia em que não tenha que me preocupar com essa pressão de estar sempre perfeita.





















