
Aos 41 anos, Mari Bridi vive um momento de redescobertas. Depois de voltar à atuação em Êta Mundo Melhor (2025-2026), a atriz quer explorar novos personagens, ao mesmo tempo em que fortalece uma comunidade acolhedora nas redes sociais. A carreira e os cuidados com a saúde dividem a rotina com o papel integral de mãe da Aurora, 11, e do Valentim, nove.
Filha da jornalista Sônia Bridi, Mari nasceu em Florianópolis (SC) e, durante a juventude, chegou a morar nos Estados Unidos e na China para acompanhar a mãe. Ela brinca que, apesar das diferentes localidades e de morar no Rio de Janeiro, carrega no coração costumes e tradições sulistas.
No início dos anos 2000, Mari atuou em folhetins como Malhação (2004) e Floribella (2005). Ela conta que, depois, os testes foram ficando mais difíceis e o trabalho mais escasso. Quando a maternidade veio, mudou muitas coisas e fez a atriz repensar alguns projetos. Foi aí que ela teve a certeza de que queria exercer o papel de mãe integralmente, sem dividir as atenções:
— A maternidade me atravessou no sentido de querer estar completamente presente, de ter o privilégio de exercer a maternidade integralmente. Ser mãe me afastou desse lugar durante um tempo, mas também me trouxe de volta. Porque a Aurora olhava para mim e falava “mamãe, eu quero que você volte a ser atora”. Então me fez querer voltar a atuar.
Entrevistas
Nos últimos anos, também se dedicou à carreira de criadora de conteúdo. Com 735 mil seguidores no Instagram, Mari produz vídeos sobre autoconhecimento, saúde física e mental, maternidade, natureza e sustentabilidade. Para ela, o processo de se entender como influenciadora, uma profissão que não existia até poucos anos atrás, foi interessante.
— Sempre brinco que o meu Instagram é como se fosse a minha casinha virtual. Eu preciso que na minha casinha virtual as pessoas se sintam acolhidas, entendam o que está acontecendo, se sintam parte de uma coisa que está sendo mostrada, que é a minha verdade.

Em 2024, foi convidada a participar do Potencializando, iniciativa da TV Globo voltada à descoberta de talentos e à reconexão com atores que estão afastados das telas. No workshop, os participantes desenvolvem uma cena com preparadores de elenco, que é gravada e apresentada aos produtores de elenco da emissora. Foi desse processo que surgiu o convite para interpretar Mirtes em Êta Mundo Melhor.
— Eu pensei “mas espera, será que ainda sei fazer isso?” E foi maravilhoso, foi uma grande descoberta. Os meus 40 anos foram a melhor coisa que aconteceu comigo, porque a vida deu um giro em todos os sentidos. E poder recomeçar uma coisa que eu achei que eu não fosse fazer mais, foi muito transformador e potente.
Comportamento
Confira a entrevista:
O processo de voltar a atuar é como andar de bicicleta?
É muito assim. Mas o interessante da nossa carreira, no geral, é que a gente, quando gosta, estuda muito. Então você continua consumindo muito conteúdo, no teatro, cinema e novelas brasileiras. Eu tenho isso de, quando estou assistindo alguma coisa que eu gosto, observar a criação de personagem. Pensar “se eu fosse fazer essa personagem, eu faria assim” ou “isso que essa pessoa trouxe para esse personagem, eu nunca tinha pensado”.
Cada ator tem uma metodologia. Eu gosto de fazer caixinhas de arquivo de emoções, então eu vou estocando coisas, e aí, quando eu estou com uma personagem nova, eu acesso minhas caixinhas e vejo que dá para usar. Foi assim com a Mirtes, que era uma personagem superinteressante e rica.
Poder acessar essas caixinhas foi muito legal, eu estava morrendo de saudade de fazer esse trabalho de pesquisa, tanto externo, quanto interno. É como se eu tivesse comprado uma bicicleta nova com tipos diferentes de marcha.

A gente sabe que figuras públicas, especialmente do sexo feminino, sofrem cobranças constantes sobre a aparência, o comportamento, entre outras coisas. Como é isso para ti?
Essa cobrança existe, sempre existiu e acho que sempre existirá. Sempre vai ter alguém para falar alguma coisa. Na minha época, por exemplo, nós não éramos ensinadas a apoiar mulheres.
A maioria das críticas são de outras mulheres e é muito doido normalizar isso. Por que estamos julgando outra mulher? Por que estamos falando do corpo dela ou de uma decisão que ela tomou? Não sabemos o que aquela pessoa está vivendo, quem ela é pessoalmente, o que está acontecendo.
É quase inconsciente, mas precisamos parar e pensar: por que estou pensando nisso? É um treinamento de quebra de padrões para tentar entender o que a sororidade significa, para acrescentar algo na vida das pessoas.
Tento pensar que não é real, que o que essa pessoa está falando não é sobre mim. Diz mais sobre ela.
Tu sentiste muito isso durante o teu processo de busca por uma vida mais saudável?
Eu recebia mensagens perguntando de qual dieta milagrosa eu tinha feito ou “Mari, eu fiquei um tempão sem entrar aqui e você está super diferente, o que você fez?”.
Meu amor, esse tempão que você ficou sem entrar aqui, eu estava malhando muito! Estava comendo melhor, tentando ser saudável!
Não digo dieta porque não consigo, eu faço esquemas comigo de comer um pouquinho disso para depois poder comer um pouquinho daquilo, porque é realmente sobre ter uma vida balanceada. Não existiu nenhum milagre, quem me acompanha viu.
De onde surgiu essa vontade?
Eu ia fazer 40 anos e eu queria estar saudável. Eu já acordava cansada. Tudo bem que a maternidade e a vida vão pesando, mas eu não tinha pique para nada. Eu pensava em malhar e tinha vontade de chorar. Até hoje tenho.
Eu detesto, mas eu vou chorando mesmo, e é algo que eu não fazia antes. Entendi a importância de ser saudável para todo o meu ecossistema, para que eu funcione bem, para que eu consiga fazer as coisas que quero fazer durante muito tempo, para que eu cuide dos meus filhos e dos meus netos.
Quando a gente fala sobre saúde, tem essa coisa social que é diretamente ligada à beleza. Em geral, você não malha porque você precisa ficar saudável, você malha porque quer ficar gostoso ou gostosa. Não me entenda mal, ficar gostoso e gostosa é maneiro, é legal olhar no espelho e gostar do que vê. Mas é uma consequência de uma escolha de cuidar de você.
Eu só resolvi fazer as mudanças quando foi uma coisa que me incomodou. É sobre respeitar e honrar o que me dói e o que me faz feliz. Depois que a Aurora nasceu, que foi uma bebê de 51 centímetros e 4 quilos, fiquei com excesso de pele e meu peito pesou muito, me dava dor nas costas.
Todo mundo perguntava por que, mesmo com dinheiro, eu não fazia lipo.
E eu não tinha vontade de mexer em nada. Acho que tive coragem de fazer a barriga porque eu queria muito fazer o peito, me dava muita dor na coluna, e aí fiz tudo junto. Mas foi uma escolha minha, que eu levei anos para entender, antes e depois da operação.
Fiz muita terapia para me identificar com aquilo. E era sobre honrar o corpo que me fez viver tudo aquilo que já vivi. Fiz um ensaio sexy pré-cirurgia.
Fitness
O que todas essas mudanças, pessoais e profissionais, dos últimos anos te ensinaram sobre quem tu és?
Acho que tudo isso me mostrou o quanto é sensacional a gente poder começar e recomeçar. A gente fica com muito medo de mudar, de fazer. Mesmo quando a gente está em lugares ou lidando com coisas desconfortáveis, a gente se acostuma, a gente sabe o que está vivendo ali.
Às vezes você pode quebrar a cara porque você escolheu fazer aquilo e é importante saber que, se acontecer, você começa outra coisa, tenta de novo. E daí pode, de novo, dar certo ou não.
É uma besteira porque parece óbvio, mas muitas pessoas ficam presas em um lugar de medo ou de conforto com o que já conhecem e não mudam. Mas eu me redescobri agora, e acho que meus 40 anos serão um marco gigantesco, de me redescobrir em tantos lugares como mulher.
E quem é a Mari de agora, após essas redescobertas?
Ainda estou descobrindo. Eu tinha medo ficar mais velha, porque o etarismo também é ensinado e também pesa na nossa cabeça.
A gente aprende que mulher perde a graça com a idade, enquanto o homem é como vinho.
Só que eu nunca me achei tão bonita e tão gostosa quanto agora, aos 41. Tipo, eu sou um vinho muito bom. Também vejo minhas amigas desabrochando nessa fase dos 40 e poucos.

Quais os legados tu acreditas que esse teu jeito de encarar a vida e a ti mesma deixa para os teus filhos?
Criar uma mulher nos dias de hoje e, ao mesmo tempo, criar essa mulher junto com um homem, tem um trabalho muito ativo sobre o pertencimento e o respeito. E eu espero que isso desenhe muito o caráter dele e de como isso vai seguir.
Mas, para eles, tem um ditado que é muito importante: “uma mãe feliz cria crianças felizes”. Eu acho que eles terem o sabor da vida é muito importante, essa coisa de apreciar, conseguir ver o nosso dia a dia, praticar a gratidão de tudo que tem. Eu espero que eles tenham também esse lugar, porque facilita muito ter uma vida feliz, de conseguir olhar ao redor e falar: "Cara, vai ficar tudo bem."
Mas eu sou uma mãe comum, né? Eu quero que eles sejam felizes. Eu quero que eles possam fazer as coisas que vão dar alegria, um sentimento de pertencimento e de, enfim, conquista para eles quando eles crescerem. Quero garantir que eles saibam que eu estarei ali o tempo inteiro, para tudo. Meu maior papel e legado é que eles entendam que jamais estarão sozinhos.
Esse tópico de como criar mulheres nos dias de hoje é muito forte. Mas como foi para ti crescer com uma mulher forte, batalhadora? O que tu passas dessa criação tempo para a tua família agora?
Quando a gente está crescendo, a gente vai vendo o exemplo sendo criado o tempo todo. É tão orgânico que eu não sei te dizer coisas específicas da minha criação que me moldaram. Mas eu sei te dizer do momento em que eu virei mãe. Tudo o que minha mãe me deu, eu queria passar para frente.
Quando eu fiquei grávida da Aurora, a mãe da minha mãe, a minha nonna, me disse que agora eu iria entender o quanto minha mãe me amava. E as pessoas sempre falam que quando a criança nasce é um amor avassalador, mas não foi assim não. Nos primeiros momentos, eu olhava para ela, recém-nascida, e era tipo “oi, sou sua mãe! Vamos nos dar bem, por favor. Vamos fazer isso aqui funcionar!”
E uma vez eu estava dando banho nela e senti uma explosão de amor que me deixou tonta. Ali entendi o amor incondicional, que é uma coisa que a gente só tem com filho. Lembrei do que a minha nonna falou e chorei.
Liguei para a minha mãe e comecei a pedir desculpa por tudo que já tinha feito, tudo que pudesse ter deixado ela preocupada, por todas as vezes que fui inconsequente.
A maternidade mudou muito meu relacionamento com a minha mãe nesse sentido, de entender por que ela fez ou disse tal coisa.
Como é essa relação de vocês agora?
Sou muito apaixonada pela minha mãe, a gente tem essa relação muito próxima. Eu ligo para ela o dia inteiro, às vezes é para não falar nada. E ela é a mesma pessoa que as pessoas veem na televisão. Quando era mais nova, minhas amigas falavam que ficavam nervosa para conhecer minha mãe, que achavam que ela era super séria.
Eu sou uma versão mais extrovertida dela, mas ela também é muito faladeira, divertida, engraçada. Sou muito suspeita para falar, porque ficaria aqui horas rasgando seda para a minha mãe. Acho ela é a melhor repórter e jornalista do planeta.
Ela é linda, é um acontecimento, defensora das coisas certas, cuida do planeta, fala sobre aquecimento global, protege nossos povos originários. Ela é maravilhosa.




















