
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou neste mês o registro de um novo medicamento para o tratamento de um dos principais sintomas da menopausa: os calorões.
O Veoza (fezolinetanto) é fabricado pelo laboratório Astellas Farma e se diferencia dos demais por não conter hormônios em sua composição. Ele será o primeiro deste tipo no Brasil, servindo como uma alternativa para mulheres que não podem realizar a terapia hormonal — e, por isso, acabam sem opções de tratamento.
Zero Hora apresenta os principais pontos para entender como o medicamento funciona, para quem será indicado e quando estará disponível no mercado.
Como age o Veoza?
Diferentemente das terapias tradicionais, o Veoza não utiliza hormônios. Ele atua diretamente no sistema nervoso central, mais especificamente no hipotálamo, que é o centro termorregulador do corpo.
Professora do Departamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Maria Celeste Osório Wender explica que, durante a menopausa, a queda natural na produção de estrogênio desequilibra a relação do hormônio com a neurocinina B (NKB), uma substância química do cérebro.
É justamente a estabilidade dessa relação que regula o centro de controle de temperatura do corpo. Assim, quanto mais os níveis de estrogênio caem, mais a balança se desequilibra e mais "bagunçada" fica a termorregulação, explica a médica.
O Veoza busca amenizar esses efeitos bloqueando a ligação da neurocinina B com um grupo específico de neurônios, chamados KNDy. Com isso, o medicamento ajuda a restaurar o equilíbrio para reduzir o número e a intensidade de ondas de calor.
— Ele funciona como antagonista desses receptores, atuando lá no hipotálamo, a parte do nosso cérebro que produz o calorão. Ele desliga essa "chavezinha" e o sintoma diminui muito — explica Maria Celeste.
Para quem o medicamento é indicado?
O foco principal são mulheres que sofrem com ondas de calor e sudorese noturna de grau moderado a severo. Por não ter hormônios, o medicamento é uma alternativa fundamental para quem não pode ou prefere não utilizar as opções hormonais.
Conforme Maria Celeste, o maior grupo beneficiado é o de mulheres que já trataram câncer de mama — uma das principais contraindicações para a terapia hormonal tradicional. Outras restrições incluem casos de tumores de endométrio ou histórico de infarto e AVC.
— A grande vantagem é para essas pacientes que não podem fazer a terapia hormonal e têm muito calorão. As opções de tratamento não hormonal que tínhamos até então eram medicamentos para outros fins, como antidepressivos, que eram adaptados para o tratamento desse sintoma, mas se mostravam pouco eficazes — afirma.
Quais os benefícios esperados?
Conforme divulgado pelo laboratório Astellas, os estudos realizados para o desenvolvimento do remédio, que envolveram cerca de 3 mil pacientes, demonstraram que o medicamento pode reduzir em média 53% das ondas diárias de calor após quatro semanas de tratamento.
Professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e membro da Comissão Nacional Especializada de Climatério da Febrasgo, a ginecologista Mona Dall'Agno lembra que, ao diminuir a incidência dos calorões, o medicamento promove ganhos para a qualidade de vida das pacientes:
— Os benefícios são a diminuição do número e da intensidade dos calorões, tanto diurnos quanto noturnos. Consequentemente, vai melhorar o sono, que muitas vezes é afetado por esses episódios, porque a mulher acaba despertando. Então, estamos muitos felizes com essa nova opção.
O Veoza substitui a terapia hormonal?
Conforme Mona, o Veoza não substitui a terapia hormonal. A médica destaca que o remédio tem um alvo específico: o calor.
— Ele não vai tratar outros sintomas da menopausa, como a parte óssea ou o ressecamento vaginal. Portanto, não substitui a terapia hormonal para quem pode usá-la. É uma alternativa para os sintomas vasomotores, mas não dá conta de tudo — alerta.

Como deve ser o uso e quais os cuidados?
O medicamento é de uso oral e contínuo, com a administração de um comprimido por dia. Ou seja, ele não funciona como um analgésico que se toma apenas no momento do desconforto. É preciso que o uso seja diário para se manter o efeito.
Mona ressalta que o tratamento com Veoza exige acompanhamento médico, pois entre os possíveis efeitos colaterais do remédio, conforme a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, estão problemas relacionados ao fígado.
Segundo a médica, uma avaliação de saúde é indispensável para verificar se a paciente é candidata ao uso. O Veoza não é indicado para quem sofre de cirrose ou possui lesões hepáticas. Durante o tratamento, a função hepática também deve ser monitorada.
Quando o Veoza estará disponível?
Embora a aprovação da Anvisa tenha ocorrido, o medicamento ainda passará por processos burocráticos de precificação na Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) antes de chegar às farmácias.
Conforme informado pelo Astellas, "ainda não há uma data definida para o lançamento comercial ou preço estabelecido para o mercado brasileiro".
O laboratório explica que depende da aprovação de valor para avançar com a disponibilização do produto no Brasil e ressalta que "mantém o compromisso de trabalhar em estreita colaboração com governos, fontes pagadoras e planos de saúde para contribuir com o acesso".




