
Aos 48 anos, Danni Suzuki reúne uma trajetória com diferentes frentes de atuação, o que ajuda a explicar a sua versatilidade. Atriz, apresentadora, diretora, roteirista, palestrante, escritora e professora, ela construiu uma carreira marcada pela busca constante por autoconhecimento e novas formas de entender a vida.
A carioca começou sua trajetória artística na infância. Seu primeiro trabalho diante das câmeras foi um comercial da Coca-Cola, em 1987, mas a formação começou pela dança clássica. Mais tarde, ampliou seus estudos em atuação e direção na New York Film Academy, nos Estados Unidos, e cursou bacharelado em Desenho Industrial pela PUC-Rio.
O reconhecimento veio na televisão. Depois da estreia em Uga Uga, em 2000, e de participações em produções como Sandy & Junior, foi com a personagem Miyuki, em Malhação, que conquistou o público jovem. A partir daí, alternou trabalhos como atriz em novelas, séries e filmes, e como apresentadora.
Ao longo dos anos, a artista expandiu sua atuação para os bastidores. Em 2016, estreou como diretora e roteirista com o curta Pulso, premiado em festivais nacionais e internacionais.
Paralelamente à carreira artística, Danni aprofundou seus estudos sobre comportamento humano. Concluiu uma pós-graduação em Neurociência pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e tornou-se professora convidada da instituição em 2024. A pesquisa acadêmica ajudou a dar novos significados à própria trajetória:
— Me ajudou a entender o que eu estava fazendo dentro da minha profissão. Porque eu passei a minha vida me especializando em viver diferentes emoções que não eram minhas, emoções emprestadas por personagens, por fantasias que fazemos reais dentro da nossa mente.

Essa busca por compreender as pessoas também orienta seus projetos mais recentes. Este ano, lançou o livro Humanos do Futuro: por que a revolução tecnológica exige uma revolução humana, no qual discute os impactos da tecnologia sobre o comportamento e a saúde emocional.
— Estou fazendo várias coisas ao mesmo tempo. Por exemplo, eu emendei uma série para o Globoplay que eu estava filmando, num programa que eu apresentei para a Record. Tenho os meus alunos, estudo as emoções, conexões emocionais, tem a ver com o meu trabalho, mas é diferente. E estou atuando agora, nesse momento, numa outra série para Disney+. A vida de mãe, pessoal, de casa, de artista, de professora, de roteirista, está tudo multifocal — afirma a Danni.
Entrevistas
Confira a entrevista:
Com esse conhecimento e bagagem que tu tens agora, o que tu vês quando olha para a Danni de mais de 20 anos atrás, começando a carreira?
Lá atrás, eu não tinha a menor ideia da onde eu poderia chegar, mas com certeza eu tenho uma clareza de que foi a coragem daquela menina que me trouxe até aqui. Aquela coragem, aquela verdade, aquela vontade de fazer acontecer foi o que me impulsionou, a buscar tudo o que eu busquei. A vida é uma incógnita.
Acho que ainda não cheguei nem na metade do caminho de onde eu gostaria. Ainda sinto que eu vou começar um novo caminho, mas uma coisa que ficou clara para mim foi vencer esse medo do desconhecido, porque cada porta que eu não conhecia, que eu fui abrindo, me apresentou um mundo gigante, com muitas possibilidades.
Para mim, esse foi o grande presente da vida. Então hoje, quando eu olho para aquela menina lá atrás, eu penso em como ela era ingênua e como foi importante que ela tomasse as decisões dela pela intuição, não pelo que as outras pessoas falavam.
Tu começaste a construir tua carreira na mídia em um contexto muito diferente do que a gente tem agora. Qual foi o preço mais alto que tu acabaste tendo que pagar para se firmar e chegar onde estás agora?
A escolha de onde eu coloquei meu tempo. Para poder conquistar, eu tive que abrir mão de muitas coisas, de muitos passeios com os meus amigos, de muitos momentos de prazer. Tive que aprender a reprogramar a minha vida de forma com que o meu dia a dia de trabalho também fosse de descanso.
Foi uma habilidade que eu desenvolvi, que foi primordial para mim, para eu conseguir fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas que, no começo, eu ainda não sabia. Até aprender esse formato, eu sacrifiquei muitas coisas.
Passei uma infância e adolescência muito focada no esporte, o que na época eram motivos da minha rebeldia, que eu não queria ter uma vida tão regrada, tão agressiva em termos de disciplina, e hoje eu vejo que foi isso que me trouxe até onde eu cheguei.
Comportamento
Nesse processo, tu tiveste que lidar com as expectativas que as pessoas colocam em ti. Como que é isso?
Até hoje eu lido com isso (risos). As pessoas depositam essa expectativa o tempo todo, te fazem uma cobrança o tempo todo, não só do seu trabalho, de você permanecer ali, de você permanecer no sucesso, de você permanecer jovem, de você permanecer com o corpo bonito, de cada personagem ter que superar o último personagem.
Essa cobrança é constante, sempre vai existir, não só das pessoas próximas, como das pessoas que nem te conhecem, que vão fazer constantemente um julgamento do que você está fazendo, do que você está se alimentando, com quem você está saindo. A fama te traz o tempo todo a opinião alheia sem você pedir.

Muita gente enxerga quem está menos presente na televisão como alguém que sumiu. Como é para ti ouvir isso quando a tua vida segue cheia de projetos?
Isso me faz pensar que o mundo daquela pessoa também está bastante limitado. Quando falam assim “nossa, sumiu, nem te vejo mais na TV”. Aí, para mim, já está claro que aquela pessoa só assiste novela. Que o mundo dela se fecha ali nas novelas.
Entendo que eu também não vejo tudo que está sendo produzindo, às vezes não consigo ver nem meus próprios trabalhos quando saem, temos uma diversidade grande de opções, de canais, de coisas para assistir.
Eu não me aborreço, é absolutamente normal. Hoje é natural que a pessoa não consiga acompanhar tudo. Ampliou muito esse leque, não só as redes sociais, mas os streamings.
Tu começaste a estudar a neurociência, as emoções, o comportamento humano, justamente em uma época que o mundo está cada vez mais acelerado e mais tecnológico. Tem algo que te preocupa no futuro e nas relações humanas?
São muitas possibilidades. Tem algumas pessoas que já estão despertas, abertas a isso, mas tem outras que estão sendo carregadas. O que me preocupa, na verdade, não é a tecnologia. Eu vejo a tecnologia como uma ferramenta, sempre foi.
O fogo assustou o ser humano lá atrás. A imprensa, quando chegou, assustou. A televisão assustou, a internet assusta. Cada mudança nova causa isso. O que me preocupa, realmente, é a velocidade com que a gente está perdendo a capacidade de suportar o vazio.
Porque a tecnologia, especialmente com a inteligência artificial, ficou extremamente competente em preencher cada fresta de silêncio que existe na vida humana, cada momento de tédio, de solidão, de desconforto.
Sempre tem um conteúdo, tem uma notificação, tem um estímulo esperando. E o problema é que é justamente nesses vazios que o ser humano se encontra.
A gente precisa do tédio para ser criativo, a gente precisa da solidão para poder desenvolver o autoconhecimento, a gente precisa de desconforto para poder realmente transformar a vida, transformar o que a gente é.
Na tua rotina, existe um esforço consciente para que tu tenhas momentos de silêncio e desconexão?
Eu acordo e evito olhar o celular. Nem o horário. Porque se eu pego o celular, eu já começo a trazer para mim uma demanda externa do mundo, das pessoas me cobrando coisas, e entro na automação de ter que fazer, de ter pressa. E aí você deixa de viver, deixa de tomar o seu café da manhã com calma, deixa de respirar, de ficar em silêncio. Me policio muito nisso.
Separo a minha manhã para fazer exercícios físicos, ou seja, para surfar, para fazer uma yoga. Tento não marcar nada de manhã, a não ser quando eu tenho que filmar. Geralmente, acordo às 4h40min, 5h da manhã. Se eu tiver que fazer um esporte, às 6h ou 7h, já estou voltando para casa.
De repente, num momento à tarde, parar, largar tudo e sair, encontrar um amigo para almoçar, ou ligar para alguém, bater um papo, perguntar como está a vida. Isso pra mim é muito importante, para eu lembrar o que eu estou fazendo aqui. Me trazer toda hora para esse momento presente.

Enquanto a vida on e offline acontecia, tu te tornou mãe. O que a maternidade mudou na tua vida?
É o meu maior projeto de vida, com certeza. E o projeto mais complexo. Ser mãe é a responsabilidade mais bonita que você pode ter na vida porque é responsabilidade sobre uma outra vida, sobre a forma como aquela outra pessoa vai pensar como você apresenta o mundo para ela, como você se apresenta para ela. (...)
O filho é um tesouro, uma incógnita da vida. É o que te faz todo dia descobrir uma pessoa nova em você. Você não vira mãe uma vez, você vira mãe todo dia.
Cada idade nova que seu filho vai completando, você está em um novo estágio de um jogo, com outras habilidades, tendo que aprender novas habilidades. De conversa, de paciência, de superação, de resiliência. Nossa, é o maior exercício de vida.
Com teu filho adolescente agora, tu consegues usar teus conhecimentos em neurociência?
Com o filho não funciona muito. Ele quer fazer diferente. Às vezes ele vem do tênis falando que o coach dele falou um monte de coisa. Eu falo que é a mesma coisa que digo para ele todo dia e ele diz “você não vale, mamãe”.
Então, a teoria não vai vir toda de mim. Posso explicar pra ele muitas coisas, mas ele vai querer experimentar, vai querer viver e o que vai ditar ele realmente é muito o meu hábito. Ele está em uma idade em que ainda consigo controlar muitas coisas, mas daqui a pouco são as escolhas dele e eu vou ter que lidar com isso também.
Vou apoiar ele em tudo, em tudo que ele precisar, em tudo que ele sentir. Faço meus exercícios para sofrer em silêncio, quando eu sei que poderia falar alguma coisa, mas eu não falo nada, porque às vezes ele precisa quebrar a cara sozinho.
Fitness
Tu te enxergas muito nele, nessa fase da adolescência?
Muito! Não só fisicamente, mas no jeito, nas escolhas, nas piadinhas. Eu vejo ele muito parecido comigo. Fico rindo sozinha porque eu passava por tudo isso, mas na minha cabeça eu não entendia. Eu sei que na dele também não dá para entender muitas coisas, então não tem muito o que fazer.
Tem que deixar ver onde é que isso vai dar. Mas hoje eu fico mais tranquila de pensar assim. Porque eu vim de uma geração com uma educação muito rígida, apanhava muito, e eu nunca bati no meu filho. Muitas coisas mudam.
Entendo que muitas coisas do que eu passei foram extremamente importantes para eu ser quem eu sou hoje e eu sempre me policio para permitir que meu filho tenha frustrações, sinta tristeza, para que quando chegar na vida adulta, isso não faça falta. Tem importância, dentro da ciência, de sentir tristeza, frustração, tédio, de não poder ter algumas coisas.
Historicamente, a idade é uma coisa que assombra mulheres na nossa sociedade, mas figuras públicas sentem isso de uma forma diferente. É algo que te assusta ou te assustou em algum momento?
Não, porque cada fase minha de novidade, eu curto mais. Acho que, para mim, a vida está ficando cada vez melhor, com cada vez mais autonomia, mais conhecimento, mais clareza e entendimento do que eu tinha antes.
Lembro que eu mais nova ia vivendo um dia após o outro, e hoje eu consigo me planejar melhor, fazer melhores escolhas. Cada nova idade traz um pacote de coisas novas. (...)
Eu estou com 48 e não cheguei nem na metade da minha vida. Se eu viver até, sei lá, os 95 anos, ainda estou na metade do caminho. Já fiz tanta coisa até agora, imagina, com tudo o que eu sei, o que posso fazer nos meus próximos 30 ou 40 anos?
Eu acho bem mais interessante estar aqui e agora. Se me perguntassem se eu quero voltar 20 anos atrás, falaria que não.




















