
Mais do que criadora de conteúdo e uma voz ativa no combate à desinformação nas redes sociais, Mari Krüger se define como uma pessoa plural — e talvez seja justamente essa a chave que faz seu trabalho funcionar. Ela define sua atuação na internet como um "caldeirão" de referências, construídas ao longo de seus 36 anos.
Sua trajetória passa pela infância no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, e pela formação no Colégio Tiradentes. O percurso se estende às vivências como atriz e modelo, à graduação em Biologia no Campus do Vale da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e à experiência como DJ na noite da Capital.
— Por muito tempo, eu achei que ser uma pessoa plural significava que eu estava perdida. Gostar de muitas coisas, gostar de atuar, gostar de ciência, gostar de música. Por muito tempo, eu achei que precisava escolher uma só coisa. E, na verdade, eu acho que justamente ser muitas coisas é o que me faz ser quem eu sou — reflete.
Ao reunir essas facetas, encontrou-se. Mari se tornou conhecida por expor promessas milagrosas, questionar mitos e transformar informações complexas, muitas vezes vistas como "chatas", em conteúdo acessível por meio do humor e da autenticidade. Ela soma 2,9 milhões de seguidores no Instagram e 1,6 milhão no TikTok, onde alia pesquisa e entretenimento:
— O humor entra mais fácil na vida das pessoas. Eu sempre digo que ele funciona quase como um "cavalo de Troia do bem": a pessoa acha que vai assistir a um vídeo engraçado, de alguém vestida de mosquito, bactéria ou vírus, e, sem perceber, o conhecimento tá ali dentro. A informação aparece, e ela acaba aprendendo através do humor.
Confira a entrevista:
O que te levou a escolher esse caminho da ciência e da biologia?
Eu não tenho essa história romântica de "ah, me apaixonei quando era pequena e sempre soube que iria ser bióloga". Não, eu mudei várias vezes. Mas eu lembro de ser uma criança que respondia que queria mudar o mundo.
E toda hora eu falava uma coisa diferente: eu quero salvar as baleias, eu quero salvar as florestas, eu quero encontrar a cura do câncer. E todas essas coisas acabam dentro da biologia. Sempre fui muito curiosa e interessada por ciências, por biologia, mas eu também gostava muito de propaganda.
Eu lembro de uma conversa com o meu pai. Acho que eu tinha uns 10, 11 anos, e perguntei pra ele o que as pessoas que faziam propaganda estudavam. E ele falou que elas faziam Publicidade e Propaganda. Eu falei: "Ah, então é isso que eu quero fazer". Durante o Ensino Médio, lembro de ter pensado em Relações Internacionais, em Direito, titubeei pra Publicidade mais uma vez.
No meu primeiro vestibular, eu fiz para Biomedicina, porque achava que queria algo mais voltado pra saúde humana, e não tanto pra meio ambiente, animais e plantas. Foi durante o cursinho que eu me apaixonei 100% pela biologia.
E hoje, por incrível que pareça, eu trabalho com biologia e publicidade, porque, como influenciadora, eu trabalho com publis, faço divulgação para marcas. Eu crio os meus próprios comerciais hoje em dia, baseados em ciência, com a minha graduação.
Entrevistas
Tu sente que esse desejo que tu tinha na infância, de querer mudar o mundo, ainda está presente? Tu sente que o teu trabalho reflete isso?
Mudar o mundo é muito difícil. Se eu encontrasse a Mari criança hoje, diria que não deu pra mudar o mundo, mas, com certeza, vários pequenos mundos, o mundo de cada pessoa.
Cada pessoa que chega pra mim e fala: "cara, eu consegui convencer o meu pai a tomar vacina”, ou "convenci a minha mãe a não abandonar um tratamento pra comprar um produto milagroso por causa de um vídeo teu"… ou até quando uma pessoa fala: "Mari, eu comecei a sentar no banheiro público depois que você explicou que é muito mais seguro pra saúde", eu sinto que, em todas essas mensagens, eu acabei mudando o mundo delas. Pra mim, já é suficiente.
E o que te inspirou quando tu decidiu que ia produzir conteúdo? E o que te levou a produzir de forma bem-humorada e a trazer esses assuntos mais complexos?
Esses dias fui dar uma palestra e expliquei como escolhi falar sobre ciência. Eu falei: comecei a fazer vídeos na internet com as coisas que eu lembrava da época da faculdade, porque o que eu via era gente ou falando coisas erradas, ou trazendo humor, com personagens tipo órgãos do corpo, mas sem compromisso com conteúdo científico.
Eu dei toda essa explicação de por que escolhi falar de biologia: era um assunto de que eu gostava, que eu dominava, e eu sentia que existia esse gap. Mas aí a pessoa perguntou: "tá, mas o humor veio de onde?"
E eu falei: veio do bullying. Eu acho que o bullying moldou a minha personalidade. No Ensino Fundamental, eu estudava numa escola em que eu não tinha muitos amigos. Eu sofria bullying por vários motivos, tanto por questões físicas, por ser magrela, esquisita, usar aparelho, quanto por ser a CDF, a nerd puxa-saco da professora.
Quando eu troquei de escola, tive a chance de dar um "reset". As pessoas não me conheciam, e iam me conhecer a partir do que eu mostrasse. Acho que comecei a ser engraçada. Eu encontrei nessa extroversão que eu tinha em família, mas não tinha na escola, uma forma de me expressar.
Quando comecei a fazer esses vídeos, pensei: vou unir essas coisas, meu humor, minha extroversão, minha formação em TV e cinema, minha experiência com atuação e comerciais e a minha graduação em Biologia. Sinto que o humor entrou como uma estratégia pra falar de um assunto que é considerado chato, porque a ciência é complexa, tem termos difíceis.
Tu vê um crescimento de mulheres falando de ciência? Como observa isso?
Eu acho que cada vez mais, né? A gente está vendo, inclusive, estudos bem interessantes mostrando que, antigamente, as crianças desenhavam cientistas como homens e hoje já começam a desenhar como mulheres.
Eu acho que, gradativamente, as mulheres estão ocupando mais espaços, inclusive os da ciência. E eu sinto que, na internet, ensinando, tem muito mais mulheres do que homens, porque as mulheres se permitem mais experimentar, se permitem testar coisas, linguagens diferentes.
Eu sinto que os homens da ciência ainda tentam manter uma visão mais sisuda, como se a ciência precisasse ser sempre muito séria. E ela precisa ser séria no rigor, mas não necessariamente sisuda. Não precisa ser sempre de jaleco, falando sério na frente da câmera. Ela pode ser bem-humorada, desde que mantenha o rigor científico.
A gente vê muito nesse discurso dos produtos milagrosos, nessa questão do wellness, vários discursos voltados para mulheres, que muitas vezes exploram inseguranças. Como tu observa isso? É um fator que te faz pensar na forma como tu produz o teu conteúdo?
Eu sinto que o wellness mira muito nas mulheres, principalmente porque as redes sociais fazem as mulheres se compararem muito. Elas veem corpos esculturais, peles maravilhosas, cabelos perfeitos e querem saber como conseguir aquilo.
Só que também existe um lado muito ruim disso: a pessoa que quer te convencer a comprar um produto ou serviço diz que tem aquele corpo por causa de um produto. Ela fala "a minha pele é a gominha de colágeno", "a minha barriga é esse equipamento que dá choque", "esse cabelo é uma gominha pra crescer cabelo".
E, na verdade, ela está ganhando dinheiro vendendo esses produtos, com cupom comissionado, e usando esse dinheiro para contratar bons profissionais, um ótimo nutricionista, personal trainer, cirurgião plástico, uma boa dermatologista. Ela vende uma realidade que não é real, uma realidade mentirosa.
Pra mim, é muito claro o quanto o wellness, o universo da beleza, os suplementos, os passos de skincare… tudo isso foca no público feminino, porque é um público que está sempre achando que precisa ser melhor. E isso torna essas mulheres mais vulneráveis, porque elas querem resolver essas questões, e querem resolver rápido.
Então o influenciador, ou o "profissional de saúde" que está oferecendo aquilo, consegue vender a ideia de que essa solução está a um clique de distância.
Comportamento
Quanto tempo tu leva para produzir um vídeo — considerando tanto o tempo de estudo quanto, muitas vezes, de criar um personagem e editar? E como que tu se informa?
Depende. Se for um vídeo sobre um assunto que eu já estudei, que eu já abordei, fica mais simples, porque muitas vezes eu revisito temas. Primeiro porque o público muda, eu estou crescendo, alcançando mais gente, e também porque cada pessoa entende de um jeito diferente: uma vai entender com personagem, outra comigo falando direto pra câmera, outra numa palestra, numa entrevista.
Então, quando é um tema que eu já estudei, já tenho a bibliografia, as referências científicas, os resumos, só preciso pensar numa nova abordagem criativa.
Mas, quando é um assunto novo, por exemplo, medicamentos recentes, como os análogos de GLP-1, eu preciso estudar do zero. E isso pode levar bastante tempo: alguns dias, semanas ou até meses. Porque, além de ir pra literatura científica, eu converso com especialistas, peço material, estudo, faço meus próprios resumos… e só depois começo a parte criativa.
Aí entra outro processo: eu sento com o meu marido, que trabalha comigo, e a gente discute como transformar aquilo em algo acessível. Ele não é da área da saúde, então ele acaba sendo um ótimo teste pra ver se aquilo ficou realmente compreensível.
Depois disso, a gente cria o formato: personagens, roteiro, se vai ter figurino, cenário. Eu mesma produzo as fantasias, compro materiais, preparo tudo. Aí vem a gravação, muitas vezes com mais de um personagem, diferentes enquadramentos, luz, e depois ainda tem a edição. Só então o vídeo vai pro ar. Então é um processo bem longo e trabalhoso.
Tem algum assunto ou alguma dessas promessas milagrosas que a gente vê que te preocupa mais?
Sou uma grande "hater" dos suplementos sendo vendidos como se fossem água. Parece inofensivo, né? Mas, na verdade, o que a gente já sabe pelo consenso científico é que não existe nenhum suplemento obrigatório pra todo mundo.
Existem indicações específicas, individualizadas, que precisam ser feitas por um profissional de saúde. E o que a gente vê nas redes são influenciadores e até alguns profissionais divulgando suplementos com uma narrativa que convence as pessoas a partir de sintomas muito genéricos: "você tá se sentindo cansado?", "seu cabelo tá caindo?", "você não tá dormindo bem?", e aí "eu tenho a solução".
Só que a gente nem sabe o que aquela pessoa tem. Por exemplo: queda de cabelo pode ser dermatológica, hormonal, deficiência de vitaminas, estresse, pós-Covid. Esse suplemento pronto não vai resolver nenhuma dessas causas. E mesmo que fosse deficiência, muitas vezes ele também não resolve, porque esses suplementos prontos têm doses muito baixas.
Pra mim, isso é uma das coisas que mais me incomodam justamente por parecer inofensivo. Porque não é totalmente inofensivo: passa pelo fígado, pelo organismo… mas, principalmente, cria uma falsa sensação de solução e pode atrasar um tratamento adequado.
A responsabilidade é o que orienta tudo o que vai para as minhas redes sociais.
MARI KRÜGER
Como que tu observa a tua posição nas redes, a tua influência?
Construí a minha comunidade em cima da credibilidade. Eu preciso ser muito responsável em tudo que eu falo. E não só eu, todo mundo deveria ser. Porque, quando a gente coloca alguma coisa na internet, impacta milhões de pessoas.
Qualquer pessoa que cria conteúdo precisa ter noção disso. A responsabilidade é o que orienta tudo o que vai para as minhas redes sociais. Seja um story, um reel, qualquer coisa, eu sempre penso: como as pessoas vão interpretar isso? Eu estou sendo clara o suficiente?
Também busco sempre embasar tudo em evidência científica e deixar claro que aquilo vem de estudos e do trabalho de especialistas que me ajudam a construir esse conteúdo.
Mudou algo em ti depois que tu começou a produzir conteúdo nas redes?
Eu ainda trato tudo do mesmo jeito. É sempre muito impressionante pra mim ver onde eu cheguei. Eu não me vejo como essa pessoa famosa que todo mundo acha que eu sou. Eu fico: "Cara, como assim? Sou eu, sabe?"
Claro que algumas coisas mudaram. Hoje eu penso muito mais antes de postar qualquer coisa, porque agora tem milhões de pessoas vendo, não são só os meus amigos. A responsabilidade mudou tudo, não só no conteúdo científico, mas também no que eu compartilho da minha vida pessoal.
Tudo é muito mais pensado, quase planejado. A gente tenta manter a naturalidade, obviamente, mas sempre existe uma escolha: o que eu vou expor, o que eu não vou expor.
E é importante ter essa noção de que o que a gente vê nas redes é sempre um recorte. Eu sou 100% eu ali, não estou fingindo ser outra pessoa, mas é um recorte escolhido. Então pode parecer que estou sempre bem, sempre feliz, quando não é exatamente assim.















