A divulgação de um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sobre dor na colocação do dispositivo intrauterino (DIU) reacendeu as discussões a respeito do método contraceptivo.
A pesquisa foi realizada com mais de 7 mil pacientes do Hospital da Mulher Professor José Aristodemo Pinotti, ligado à universidade, e apontou que a dor causada pela inserção do DIU é mais frequente do que estimativas oficiais indicavam.
Conforme dados do Ministério da Saúde, menos de 5% das mulheres sentiriam dor moderada a severa na colocação do dispositivo. Já entre as participantes do estudo, a estatística saltou para 81%.
Para além da discussão acerca da dor, o tema trouxe à tona uma série de questionamentos sobre o DIU. Afinal, o método pode causar infertilidade? Mulheres que não tiveram filhos podem utilizá-lo? O dispositivo pode "caminhar" pelo corpo?
Zero Hora consultou especialistas para explicar as principais dúvidas e separar fatos de mitos. Confira:
- O que é o DIU?
- Quão eficaz é o método?
- A colocação pode ser dolorida?
- É possível colocar DIU pelo SUS?
- DIU causa infertilidade?
- Apenas mulheres que já tiveram filhos podem usar?
- O DIU faz engordar?
- O DIU pode se perder dentro do corpo?
- O DIU protege contra infecções sexualmente transmissíveis?
- Existem contraindicações para o DIU?
- Como saber se o DIU é a melhor opção?
Comportamento
O que é o DIU?
O dispositivo intrauterino é um método contraceptivo de longa duração alocado dentro do útero, em procedimento feito por ginecologista. Uma vez inserido, ele mantém a contracepção por até 10 anos (o tempo varia conforme o tipo de dispositivo inserido), sem necessidade de posologia diária, como ocorre com os comprimidos.
Existem atualmente dois grandes grupos: os DIUs não hormonais, como os de cobre e de cobre com prata; e os DIUs hormonais, conhecidos como Mirena e Kyleena.
A ginecologista e obstetra Ana Selma Picoloto, professora do Programa de Pós-Graduação em Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que os modelos não hormonais atuam por meio da liberação de íons que dificultam a sobrevivência dos espermatozoides.
Já as versões hormonais realizam uma liberação local, no próprio útero, de doses de levonorgestrel, um tipo de progesterona sintética. Esse hormônio promove a contracepção e pode trazer benefícios adicionais, como a redução do fluxo menstrual, das cólicas e dos sintomas causados pela endometriose.
A médica destaca que, além da longa duração e da praticidade, o dispositivo também se diferencia por começar a fazer efeito tão logo é inserido — diferentemente de métodos como o anticoncepcional oral, que pode demorar um pouco mais para atingir sua máxima eficácia.
— A contracepção também pode ser facilmente revertida. Uma vez que o DIU é retirado, a mulher volta a se tornar fértil — observa.
Quão eficaz é o método?
A alta eficácia é um dos principais diferenciais do DIU. Os dispositivos garantem contracepção superior a 99% e apresentam uma taxa de falha muito pequena, que varia entre 0,2 e 0,5%, dependendo do tipo inserido.
Conforme Ana Selma, trata-se de um dos métodos mais eficazes disponíveis atualmente – diferentemente da pílula, não há risco de esquecimento ou diminuição da eficiência por interferências medicamentosas.

Mito ou verdade?
A colocação pode ser dolorida?
Verdade.
Segundo Ana Selma, a dor é uma possibilidade real, mas não há como projetar a intensidade do que será sentido pela paciente. A dor pode ser elevada para algumas mulheres, assim como, para outras, pode não existir.
— Dizer que não há dor seria leviano, mas a maior parte das pacientes aguenta bem a dor, que é semelhante a uma cólica pontual, sentida somente no momento da inserção. Porém, a dor é muito subjetiva; o limiar é sempre individual — afirma.
A ginecologista e obstetra do Hospital Moinhos de Vento e da Santa Casa de Porto Alegre Raquel Dibi, que é coordenadora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), observa que a dor é um obstáculo para muitas mulheres que poderiam se beneficiar do método, mas acabam desistindo por medo do desconforto.
Segundo ela, há alternativas para tornar o procedimento mais confortável, como o uso de analgésicos, anti-inflamatórios ou anestesia local. Em alguns casos específicos, também é possível realizar a inserção sob sedação, em ambiente hospitalar.
— Atualmente, há uma preocupação crescente em oferecer uma experiência mais humanizada e menos dolorosa — afirma Raquel.

É possível colocar DIU pelo SUS?
Verdade.
O método contraceptivo está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). Mulheres que desejam utilizá-lo devem realizar atendimento em uma Unidade Básica de Saúde.
O principal dispositivo oferecido no SUS é o DIU de cobre. Entretanto, para pacientes com diagnóstico de endometriose, o sistema público também oferece o DIU Mirena.
DIU causa infertilidade?
Mito.
Embora essa seja uma dúvida comum, não há evidências de que o método comprometa a fertilidade futura.
— O DIU age localmente no útero e não inibe a ovulação. Pelo contrário: a grande vantagem dele é que a fertilidade retorna imediatamente ao se retirar o dispositivo — afirma Ana Selma.
Apenas mulheres que já tiveram filhos podem usar?
Mito.
Essa é uma das crenças mais associadas ao método. Entretanto, segundo Raquel Dibi, não há qualquer impeditivo para mulheres que nunca tiveram filho.
A médica comenta que muitas pacientes evitam o método em razão desse entendimento errôneo. Mas, na verdade, as contraindicações são muito pontuais e até mesmo adolescentes podem utilizar o dispositivo.
O DIU faz engordar?
Mito.
O receio de engordar é recorrente nos consultórios, pois há métodos contraceptivos específicos, que podem favorecer o ganho de peso. Entretanto, esse não é o caso do DIU.
— Não há evidências científicas de ganho de peso com o uso de nenhum tipo de DIU, seja ele hormonal ou de cobre — explica Ana Selma.
O DIU pode se perder dentro do corpo?
Mito.
Embora exista um risco baixo de deslocamento ou expulsão do dispositivo, o DIU não "caminha" pelo organismo a ponto de não poder ser encontrado. Conforme Ana Selma, os deslocamentos em geral são mínimos e têm baixa taxa de incidência — entre 3 e 5%. Além disso, esse tipo de intercorrência costuma ocorrer somente nos primeiros meses após a inserção, quando o corpo ainda está em processo de adaptação.
Por isso, é recomendado um retorno ao consultório após a colocação para verificar se o dispositivo permanece corretamente posicionado.
O DIU protege contra infecções sexualmente transmissíveis?
Mito.
O método previne gravidez, mas não oferece proteção contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
Nenhum método contraceptivo, exceto a camisinha, oferece essa proteção. Por isso, para garantir segurança, o DIU sempre deve ser associado ao preservativo.

Existem contraindicações para o DIU?
Verdade.
Embora possa ser utilizado pela maioria das mulheres, existem algumas contraindicações. O DIU não pode ser utilizado por:
- mulheres grávidas ou com suspeita de gravidez
- mulheres que têm anomalias graves ou malformações congênitas no útero
- mulheres que apresentam infecções pélvicas ativas
- mulheres em tratamento para câncer de colo do útero ou em investigação da doença
Raquel lembra que alguns tipos de DIU também podem não ser indicados para determinadas condições clínicas. Por exemplo, os modelos que contêm cobre não são devem ser usados por mulheres que apresentam fluxo menstrual elevado, pois o dispositivo pode aumentar a intensidade.
— Mas, de forma geral, a grande maioria das mulheres pode utilizar o DIU com segurança. É muito importante ter acesso a informações confiáveis. O DIU é um método seguro, altamente eficaz e que pode trazer benefícios além da contracepção — enfatiza a médica.
Como saber se o DIU é a melhor opção?
A escolha do método contraceptivo deve levar em conta fatores como idade, padrão menstrual, histórico de saúde, planos reprodutivos e preferências individuais. Por isso, a decisão deve ser tomada em conjunto com o médico de referência da mulher.
— Quando a paciente recebe orientação adequada e participa da decisão, a satisfação com o método costuma ser muito alta — conclui Raquel.









