
Dona de uma das vozes mais reconhecíveis da Música Popular Brasileira (MPB), Zélia Duncan chega aos 61 anos celebrando 45 de carreira com um trabalho que flerta com o novo sem deixar de reverenciar o que foi construído: Agudo Grave, seu 21º álbum de estúdio, lançado em maio.
Produzido e arranjado por Maria Beraldo, o disco reúne 11 faixas inéditas. O encontro entre as duas ocorreu pela busca constante da artista por novos caminhos, e ajuda a explicar a sonoridade que se mostra, ao mesmo tempo, familiar e surpreendente.
Se em trabalhos anteriores o amor costumava ocupar o centro da narrativa, desta vez a cantora volta o olhar para questões mais amplas.
— Acredito que este seja meu disco menos romântico e mais existencial — reflete ela em entrevista ao Donna.
Abraçar as contradições
Em canções que passam por tecnologia, humanidade, contradições e pertencimento, Zélia apresenta um retrato da mulher que se tornou depois de mais de seis décadas de vida, quatro delas dedicadas à arte.
O título Agudo Grave também funciona como uma chave de leitura para o projeto. Entre opostos que convivem — a delicadeza e a firmeza; a dúvida e a convicção; a juventude e a maturidade —, a artista parece abraçar com carinho suas próprias contradições.
— Lido com os meus extremos encarando e mergulhando neles, aceitando que sou um ser humano imperfeito. Acho que há coerência na minha imperfeição — reflete.
Envelhecer em paz
Na conversa com Donna, Zélia fala sobre envelhecer em paz com as marcas do tempo em seu corpo, as boas mudanças trazidas pela maturidade e a liberdade conquistada depois de uma juventude marcada pela sensação de inadequação.
A entrevista também passa por temas íntimos como o câncer de tireoide enfrentado por ela há alguns anos. Zélia relembra o medo de perder seu principal instrumento de trabalho — a voz — e a emoção de voltar aos palcos depois de passar por uma cirurgia.
Também há espaço para falar de amor. Casada com a designer, artista plástica e produtora cultural Flávia Pedras, responsável pela direção de arte do novo disco, Zélia descreve a relação como uma parceria que atravessa todas as esferas da vida.
Ela ainda reflete sobre o longo caminho percorrido até conseguir transformar o medo e a vergonha que marcaram a descoberta da própria sexualidade em orgulho, visibilidade e ativismo.
— Sou feliz por ser quem eu sou e por pertencer a essa comunidade que me ensinou a lutar — resume.
Comportamento
Confira a entrevista:
Agudo Grave chega em um momento especial de celebração de 45 anos de carreira. O que esse disco diz sobre a mulher e a artista que você é hoje e que talvez os outros trabalhos ainda não tivessem revelado?
Aos 61 anos, sinto que este é o meu primeiro álbum dessa fase da maturidade. Certamente estou mais madura e me sinto em um lugar de olhar para a vida de outro jeito. Já estou há algum tempo neste mundo e as letras refletem isso. É como se eu tivesse dado a volta ao mundo e chegado a este ponto chamado Agudo Grave.
Meus álbuns sempre tentam, mesmo sem uma intenção explícita, falar de mim, mas acredito que este seja meu disco menos romântico e mais existencial. Ele reflete a pessoa que venho me tornando e como o que acontece no mundo e no Brasil me afeta. Sempre me expus muito com opiniões, e acho que esse é o meu jeito de estar presente.
A maturidade mudou a forma como você se posiciona?
Sim. Eu tento ser menos impulsiva e espero o tempo necessário antes de responder a alguma coisa com raiva ou indignação. Sempre fui impulsiva, tanto para o bem quanto para o mal. Então, tenho tentado dar esse passo atrás.
Mas também tenho pressa de muitas coisas. Não deixo de dizer aquilo que é importante e dou muito valor às amizades. Inclusive às novas, o que contraria o mito de que não se faz amigos depois dos 50. Tenho feito amigos até mais novos do que eu e tenho sido feliz desse jeito.
No álbum, você colabora com a Maria Beraldo, que, justamente, é mais nova do que você. Como essa troca influenciou o projeto?
Quando convido a Maria, eu estou dizendo que, apesar do tempo de estrada, continuo querendo o frescor e o risco. Não me sinto bem parada no mesmo lugar. Quando você me procurar, certamente estarei tentando achar um novo lugar; isso virou a minha marca. Estou sempre atenta e curiosa com o que passa pelo meu caminho, buscando o que nunca fiz.
O universo musical da Maria parece extremamente diferente do meu, mas descobrimos vários pontos de contato. Ela me contou que viu o meu espetáculo Totatiando sete vezes, o que me mostrou o quanto ela respeitava meu caminho. Entendi que a melhor pessoa para estar com a gente não é necessariamente a mais famosa, mas aquela que tem excelência e gosta da nossa trajetória.
Foi renovador para mim vê-la tão estimulada com a minha jornada. Eu estava entregue e aberta para ver como o novo poderia chegar, e ela trouxe camadas, arranjos e silêncios que fizeram muita diferença.
ZÉLIA DUNCAN
Você, então, é alguém aberta a essas trocas intergeracionais? Deixa-se afetar por elas?
Com certeza. Para mim, o legal é continuar se deixando influenciar. Não importa se sou mais velha; se você tem algo a me dizer agora, você vai me influenciar. E eu sou uma ótima estudante.

O título do disco, Agudo Grave, sugere um encontro de opostos. Como você equilibra essas dualidades que, imagino, também sejam parte de quem você é?
Muitas vezes, aos trancos e barrancos (risos). Lido com os meus extremos encarando e mergulhando neles, aceitando que sou um ser humano imperfeito. E acho que há coerência na minha imperfeição.
Vivemos uma era de apologia ao vazio e de falsos profetas que usam a fé para estimular o não pensamento. Eu tento me posicionar diante disso, estar em contato com a realidade. Fui uma adolescente que sempre se sentiu muito inadequada, mas consegui encontrar o meu lugar no mundo.
Por que você se sentia inadequada?
Fui uma adolescente de voz grossa que atingiu a altura de 1,71 metro muito rápido. Eu me sentia fisicamente inadequada. Depois, ainda me descobri LGBT+. Ou seja, eu era toda errada para os padrões da época.
Mas consegui me encontrar, e aquela voz que antes soava estranha e incomum acabou virando a minha razão de viver.
E hoje, aos 61, como tem sido a sua relação consigo mesma? Como lida com o espelho, com as mudanças, com a passagem dos anos?
Eu gosto do tempo, então, tento fazer as pazes com as marcas que ele traz. Mas é claro que tenho meus momentos. A primeira vez que vi meu pescoço enrugado em uma foto, falei: "Uau! O que houve aqui?" (risos).
Ao mesmo tempo, tenho uma vida intensa e não quero ser ingrata com a minha luta, pois lutei muito para viver do que eu vivo hoje. Posso não gostar de estar com rugas, mas isso é tão pequeno perto das coisas que tenho feito e de tudo o que sou. Não quero jamais ser aquela pessoa que amaldiçoa as próprias marcas, sabe?
Tem gente que me fala a fatídica frase, que eu nunca sei se é mesmo elogiosa: "Você está tão bem para a sua idade". Eu agradeço, mas não quero parecer mais nova; quero que vejam que estou saudável. Acho que a coisa mais importante é você se sentir bem com quem você é e arcar com as consequências das suas escolhas.

E como você cuida da sua saúde nessa fase 60+?
A minha prioridade hoje é buscar me sentir forte para passar pelo tempo. Eu malho regularmente, gosto de praticar esportes, adoro tomar vacinas e tenho a sorte de nunca ter bebido ou fumado. Sem nenhuma dose de moralismo, isso é algo que me ajudou a vida inteira e que me ajuda até hoje.
Fora esses cuidados básicos, eu me preocupo só em viver o agora. Tenho tatuado no pulso a frase "este exato momento", que diz um pouco sobre como eu levo a minha vida. Tenho meu trabalho, minha casa, minha mãezinha saudável com 90 anos, minha companheira, meus amigos... Está tudo bem, sabe?
Há alguns anos, você passou por um câncer de tireoide, em uma parte do corpo que é fundamental para a voz, o seu instrumento de trabalho. Como essa experiência te afetou?
Mudou totalmente a minha vida. Foi um susto imenso, acho que mais pelo lugar do que pela doença. Eu estava muito bem, tinha acabado de correr a maratona de Tóquio, estava começando o meu namoro com a Flávia, quando, de repente, tive que lidar com toda essa fragilidade de precisar abrir a minha garganta para tratar uma doença.
Eu me senti castigada, sem saber o que fiz para merecer aquilo. Me afetou demais o câncer ser nesse lugar.
ZÉLIA DUNCAN
Quando me operei, tive que lidar com a recuperação da garganta mas, principalmente, com a recuperação da cabeça, pois o emocional foi o que mais me pegou. Cantar sempre foi uma coisa natural para mim, eu fui uma garota que acordava cantando. E, de repente, eu acordo e tenho um curativo na garganta. Parecia que aquele curativo era no meu corpo inteiro.
Mas, três meses depois, eu estava de volta ao palco. Foi uma explosão de sentimentos, eu chorava como uma criança no camarim. A minha voz seguiu a mesma, absolutamente reconhecível, grave como sempre foi. Essa voz que me salva em todos os sentidos.
Mudando para os assuntos do coração, como a sua relação com a Flávia influencia a sua vida e o seu trabalho?
A Flávia completa tudo na minha vida. Eu sempre quero a opinião dela em tudo o que faço. Temos uma troca constante, vivemos uma parceria total.
Tanto que ela fez a direção de arte do meu disco e do meu livro, Benditas Coisas Que Eu Não Sei. Fora essa parte mais prática, muitas músicas são feitas para ela. Eu me desmancho de amor por ela nas minhas canções.

Você pertence a uma geração que enfrentou muita repressão em relação à orientação sexual. Como foi transformar isso em orgulho e visibilidade?
Foi um caminho longuíssimo, marcado por muito medo e vergonha na juventude. Descobri que gostava de meninas com 16 anos e me senti muito à margem. Eu só comecei a mudar quando comecei a conviver com os meus iguais.
Digo que o gueto me salvou, pois os bares e boates LGBT+ eram os lugares onde eu podia ser eu mesma.
Hoje, fico emocionada ao ver meninas jovens namorando livremente em espaços públicos. Isso era impensável na minha época.
Você se tornou uma voz da comunidade LGBT+. Como encara essa responsabilidade?
Eu percebi isso quando as pessoas começaram a ir no meu camarim para dizer que se identificavam comigo ou para me agradecer por alguma música. Entendi que sou responsável pelo que jogo no mundo e fiquei ainda mais corajosa.
Visibilidade e orgulho são os pilares da minha vida, e hoje a minha luta é contra a homofobia, contra a misoginia e contra o racismo. São lutas que se encontram.
ZÉLIA DUNCAN









