
Emanuelle Araújo se aproxima dos 50 anos – comemorados em julho – com a segurança de quem aprendeu, ao longo do tempo, a transformar arte e autoconhecimento em caminhos inseparáveis. Enquanto interpreta Marta em Nobreza do Amor, novela da TV Globo, a baiana também vive a intensa rotina da música com o lançamento de um novo disco.
Natural de Salvador, Emanuelle iniciou sua trajetória ainda na infância. Ao longo da carreira, participou de 10 novelas e duas minisséries na emissora, entre elas Órfãos da Terra (2019), Gabriela (2012), Cordel Encantado (2011) e A Favorita (2008). Fez filmes, peças de teatro, participou de conjuntos musicais como Banda Moinho e Banda Eva, e, em abril deste ano, lançou seu terceiro álbum solo, Corra para o Mar.
Após 12 anos de TV Globo, a atriz conta que fez uma pausa de quase sete anos para se dedicar a outros projetos:
— Mergulhei profundamente no streaming, protagonizei duas séries, muitos filmes. Vivi muito o cinema nacional, tive experiências no teatro musical. O fato de eu não estar em uma novela nos últimos seis anos, quase sete, me fez estar em muitos outros lugares, o que foi ótimo. E, de certa forma, também me deu muita saudade. Eu adoro fazer novela, sinto muito prazer com isso, mas também tenho essa vontade de sempre diversificar.
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A novela das 18h, uma fábula afro-brasileira dos anos 1920, marca o retorno da baiana para as telinhas. Emanuelle interpreta Marta, uma professora de etiqueta e dona de hábitos cosmopolitas. Ela conta que tem sido interessante construir uma personagem que, ao mesmo tempo em que demonstra traços de modernidade e certos pensamentos progressistas, carrega as limitações impostas às mulheres daquele contexto histórico.
— Ela é uma mulher que tem uma cabeça à frente do seu tempo, que tem uma inteligência de perceber que pode ir além, se dedicando, por exemplo, a hábitos que não eram da época para as mulheres, como leitura, como até se dá o direito de vestir calças, que era só masculino naquele tempo. Mas, mesmo com essa cabeça mais cosmopolita, que a situação financeira dela permite, ainda se vê de mãos atadas por ser uma mulher — pondera.
Em entrevista a Donna, Emanuelle embarca em reflexões sobre o feminino, carreira, envelhecimento e autoconhecimento.
Confira a entrevista:
Quais paralelos tu traças entre a Marta e as mulheres de agora, do nosso tempo?
O que eu acho mais interessante é perceber que a nossa luta é árdua. Sempre existiu e continua existindo. Porque, às vezes, a gente esquece que hoje, graças às deusas, nós estamos em um momento em que podemos berrar sobre um assunto, principalmente sobre todas essas coisas terríveis que são feitas contra o nosso feminino.
Inclusive, sobre a violência, que é algo que a gente precisa estar falando o tempo inteiro. E, às vezes, o fato de estarmos falando parece que estamos melhorando, que estamos à frente, mas é tão importante a gente falar de histórias lá atrás para a gente perceber que essa luta é antiga, que a gente continua tendo que se posicionar, e tudo isso gera em nós mulheres um ato constante de observação, de atenção, prevenção, um estado de alerta.
Acho que fazer uma mulher de uma outra época, me fez perceber os avanços, o que conquistamos com a nossa luta, e o quanto que existe um feminino ancestral, aquele que nunca se perdeu, que é a nossa percepção, a nossa intuição, a nossa inteligência, a nossa bravura. Sempre que me aparecem personagens de outra época, já fiz algumas, esses aspectos mais profundos do feminino, como um todo, não só da psique da personagem, ficam muito fortes em mim.

O que tu entendes hoje, com essa tua bagagem de vida e personagens, sobre o que é ser mulher?
Estamos no momento dessa discussão. De quem somos biologicamente, geneticamente, na nossa psique, no nosso entendimento. E eu acho que essa é uma pauta bem importante, inclusive da liberdade de gênero, da liberdade de se colocar como se é. Isso é algo que eu defendo muitíssimo.
Porém, temos que falar do arquétipo feminino, não exatamente do ser mulher, nascida mulher geneticamente — porque eu acho que você pode se sentir mulher, se saber mulher —, é o espírito do feminino, que muitas vezes homens e outras pessoas escolhem como posição no mundo. Acho que, aí dentro, tem algo que é muito importante que é sabedoria. É uma palavra que eu acho bonita, porque envolve vários aspectos.
A sabedoria de estar, de ser, de conviver, de observar, de compartilhar, de até nesse compartilhar e nesse observar, conseguir se posicionar. E eu acho que isso é ancestral. Eu uso isso muito na Marta, por exemplo.
Comportamento
Tu circulas por muitas formas de arte. Como foi teu processo de te entender como artista, dentro desse leque?
Dei sorte, e acho que isso é coisa do destino, porque eu comecei numa companhia de teatro, ainda muito novinha, criança, com 10 anos de idade. Já era uma companhia onde as artes eram integradas.
Era, em princípio, de teatro, então eu posso dizer que comecei como atriz, mas muito rapidamente a gente já tinha espetáculos musicais, e aí eu comecei a cantar também. A gente desenvolvia trabalhos de dança, então comecei a dançar. Essa vivência de grupo, ainda mais criança, no nascedor da minha artista, exercitou muito em mim esse desejo da interação das artes.
Então sempre fiz espetáculos. Às vezes só de dança, às vezes só de música, ou só de teatro... e às vezes com todas essas artes integradas. Desde muito nova eu não tenho essa separação de ser atriz ou cantora, eu fazia de tudo.
Com 15 anos, comecei a cantar profissionalmente. Foi na Bahia, no nascer do Axé Music, eu comecei a ter bandas, e comecei a participar de outros grupos de teatro profissionais. Então essa coisa de conciliar não é de agora, vem desde quando eu comecei, e talvez por isso seja tão natural.
As minhas carreiras são, de fatos, separadas, em um sentido de gestão. Se estou fazendo uma novela, todo meu trabalho de logística é tratado de uma forma. Se, como agora, estou lançando um álbum novo, com show marcado, tem toda a gestão da parte de cantora. Mas é o que me faz feliz poder conciliar as duas carreiras.
De que forma o “ser cantora” atravessa o “ser atriz” e vice-versa?
Uma ajuda a outra. Quando estou num personagem, estou vivendo uma persona e uma psique que não é minha, e tenho que ter um entendimento de uma mulher que não tem nada a ver comigo. Claro que eu empresto uma coisa ou outra de mim, mas a Marta, por exemplo, tem uma realidade muito diferente, tenho que mergulhar nessa realidade, pesquisar.
Esse monte de coisa que vou pesquisando me alarga e me faz ter um entendimento maior do que o entendimento que eu tenho sobre mim mesma.
Na música, é o contrário: sou eu, absolutamente eu, é a minha maior verdade. Ainda mais esse trabalho que estou fazendo agora, que é um trabalho que reverencia a Bahia, que reverencia as minhas raízes baianas na música. Ali é o maior entendimento sobre quem eu sou, de onde eu parti. Então, para você conseguir viver outra pessoa, acho importante você entender quem você é.
Acaba que uma coisa vai ajudando a outra, sabe? E, além disso, eu gosto muito dos bastidores das duas coisas, que também são completamente diferentes. Acabo me preenchendo com esses lugares diferentes e gosto de ter essa pluralidade de experiências.

Te ouvindo falar, assim, é impossível não perceber que a arte faz parte de ti. Mas, para ouvir de ti, qual é o papel da arte na tua vida?
Existência. A arte, para mim, é existir, é a forma que eu me expresso, é a forma como eu me comunico, é como raciocino. A arte é, de fato, uma extensão de mim e também uma provocação diária dos meus sentimentos, da minha visão sobre o mundo. Eu não consigo nem pensar o que seria de mim sem arte, porque é mesmo inerente ao meu caminho, às minhas escolhas.
A arte, para mim, é existir, é a forma que eu me expresso, é a forma como eu me comunico, é como raciocino.
EMANUELLE ARAÚJO
E o que mais tem para saber sobre ti, como mãe, como amiga, e os outros papéis que tu exerces?
Eu não sou muito diferente, a não ser quando eu estou no personagem, porque aí é a outra pessoa mesmo. Mas aqui falando com você, ou na minha música, onde sou eu mesma, não sinto muita diferença. Claro que todos nós temos formas de nos apresentar em público, e temos as nossas reservas do dia a dia. Eu sou, antes de tudo, uma pessoa muito reservada, o que pode não parecer, porque sou artista e todo artista gosta de aparecer, gosta de aplausos, mas existe algo em mim que é quase tímido. Gosto de preservar esse lugar do mistério.
Existe algo em mim, também, que é muito simples. No sentido de viver a vida, o cotidiano, os rituais. Sou uma mulher que gosta de rotina, gosta de dia a dia, gosta de convivência íntima, pessoal. Talvez o que diferencia um pouco é que o que eu faço é para muitos, para o público.
Minha arte é uma arte democrática inclusive, eu espero sempre que alcance todas as faixas, todas as classes, toda a diversidade que existe nesse mundo. Porém, existe algo em mim que é para poucos, que é muito dentro de uma faixa reservada.
Em algum momento manter essa parte reservada foi um desafio para ti? Porque vivemos em um momento de muito barulho e exposição em que, às vezes, não sobra espaço para o mistério.
Durante um tempo foi, mas isso é o legal de amadurecer. Hoje eu já respeito demais esse meu aspecto. Eu não me ultrapasso. Tenho muitos movimentos, inclusive dentro desse movimento das redes sociais, que hoje faz parte da nossa vida.
Porque, hoje, não tem como você não estar se comunicando nas redes sociais, nas plataformas digitais de música e de vídeo. Então, você, de alguma forma, tem que se mexer um pouco. E eu procuro saber, procuro me misturar, mas respeito o meu limite. Essa é a característica da maturidade. No entendimento de que eu tenho as minhas reservas e eu não vou além.
Assumo o ônus e bônus disso. E é legal que as pessoas entendam que aquele é o meu limite, mesmo que, com isso, eu não alcance a quantidade de views ou sei lá, não importa. O que mais acho importante é eu passar para as pessoas que me acompanham a minha verdade. Isso também é uma forma de você ser honesto com o seu público.
Falando em maturidade, daqui umas semanas tu vais fazer 50 anos. O que a idade significa para ti?
Eu tive filho com 17 anos, muito nova, foi uma gravidez precoce. Não vou romantizar isso, porém foi muito importante para mim. É algo que eu acredito ter sido do meu destino e a maternidade é o maior valor que tenho. Mas isso me fez viver uma juventude cercada de muitas responsabilidades, de muitas arestas, para além de uma arte que comecei muito jovem. Diante dessa responsabilidade, eu meti a cabeça no trabalho, porque sempre quis ser independente.
Então, fazer 50 (anos) está sendo a minha libertação total. Minha filha está com 32 anos, é uma mulher madura, independente, uma profissional, uma psicanalista super dedicada. Acho que a gente precisa sempre falar sobre questões que são meio universais, envelhecer é universal, todos nós envelhecemos. Cada um escolhe como envelhecer, então eu tenho muito cuidado de falar da minha experiência, porque ela é unicamente minha.
Ser jovem é uma coisa linda, maravilhosa, só que, pela minha experiência e pelo meu caminho, a maturidade está sendo um deleite.
EMANUELLE ARAÚJO
Eu digo que acho que nós somos muito presos à juventude, como se fosse o único valor, como se a juventude fosse o grande valor da vida. E, de fato, ser jovem é uma coisa linda, maravilhosa, só que, pela minha experiência e pelo meu caminho, a maturidade está sendo um deleite.
O passar dos anos, para mim, está sendo um entendimento maior sobre quem eu sou, sobre as minhas possibilidades, minhas conquistas e sobre o que eu ainda desejo. Porque eu ainda me considero jovem. (...)
Não considero ser estático como algo bom. Se a gente ficasse jovem a vida toda, ia ser uma droga. A gente, de fato, percebe que, na transformação do tempo, existe um ouro precioso que chega com isso. É de uma preciosidade.
E tu falaste de te sentir livre, jovem, nessa idade e de ter muitos planos. O que tu ainda queres realizar, seja na vida profissional, ou na vida pessoal?
Tenho muitos sonhos, tenho muitas expectativas de coisas na vida, tenho muitos ideais ainda, muitos projetos na cabeça, então eu acho que tenho muita coisa ainda para viver. A minha trajetória, já é longa. Cinquenta anos ainda é pouco, mas já é longa porque eu comecei muito cedo.
Tem muita coisa que eu já vivi, porém eu ainda tenho muitos sonhos e muitas expectativas e o que eu mais penso é sobre essa troca potente com as pessoas do meu trabalho. Que eu consiga ter sempre saúde, que eu consiga ter sempre cabeça boa, paz de espírito, para estar vivendo a minha arte na maior plenitude.
E viver a minha arte não é individual, não é para mim mesma. Viver a minha arte é poder me expressar, ter bons espaços, bons projetos, bons trabalhos.










