
Durante décadas, a Fórmula 1 (F1) foi tratada como algo técnico, masculino e pouco acessível para quem não cresceu acompanhando corridas. Hoje, esse cenário mudou: 42% da base global de fãs da categoria é feminina, segundo dados divulgados pela própria F1 em 2025. Entre o público feminino abaixo dos 25 anos, o crescimento foi superior a 50% desde 2018. Entre fãs que passaram a acompanhar a F1 há menos de um ano, três em cada quatro são mulheres.
A transformação não aconteceu por acaso. Nos últimos anos, a F1 deixou de apostar apenas em velocidade, engenharia e tradição e passou a investir em narrativas, redes sociais, entretenimento e identificação emocional. A marca mudou sua linguagem — e, junto com ela, ampliou o público que se reconhece nesse universo.
Hoje, a F1 existe muito além de corridas como a deste domingo (24), no Canadá. O paddock virou cenário de trends no TikTok, vídeos de bastidores, podcasts, editoriais de moda e fandoms que acompanham pilotos diariamente pelas redes sociais. Essa expansão da categoria como produto cultural ajudou a aproximar públicos historicamente afastados do automobilismo.
Da velocidade ao entretenimento
Para Erika Prado, engenheira da Fórmula 4 e fundadora da comunidade Girls Like Racing, criada para reunir mulheres fãs de automobilismo e atrair novas interessadas, essa mudança também reflete uma transformação geracional.
— Carrinho era coisas de menino. Isso já não existe mais. Há tempos as meninas começaram a desenvolver hobbies diferentes da forma como acontecia antes — avalia.
Mas é fato que essa mudança cultural coincidiu com uma reformulação importante dentro da modalidade. Antes da chegada da Liberty Media — empresa que comprou os direitos da F1 em 2017 com o objetivo de popularizá-la especialmente nos Estados Unidos — a presença digital da categoria era mais limitada e centralizada. A aproximação com o público acontecia principalmente pelas transmissões de TV, em um cenário de queda de audiência e dificuldade para conquistar jovens.
A solução encontrada pela nova gestão foi transformar a F1 em um produto de entretenimento digital. A categoria passou a flexibilizar sua produção de conteúdo, incentivar bastidores, aproximar pilotos dos fãs e investir fortemente em redes sociais e streaming. Equipes começaram a publicar o cotidiano dos boxes, pilotos passaram a compartilhar a própria rotina e o esporte ganhou força em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube.

Em análise sobre o fenômeno, a consultoria Red C Research resume a estratégia em uma frase: “Eles priorizaram a narrativa, não a velocidade”. O texto também destaca a série F1: Drive to Survive, lançada pela Netflix em 2019, como um dos motores dessa transformação.
Ao mostrar rivalidades, conflitos internos, pressão psicológica e bastidores das equipes, a série aproximou o público de um esporte que antes parecia distante. Mais do que explicar regras, F1: Drive to Survive transformou pilotos em personagens e corridas em episódios de uma temporada. O sucesso em especial entre o público feminino motivou a Netflix a replicar o modelo em F1 Academy, transformando a categoria que, desde 2022, forma mulheres piloto em uma espécie de reality show.

Novas fãs
Mas por que as mulheres gostaram tanto? Para Luiza e Giovana Schenato, irmãs criadoras do Be Fast Podcast, a internet ajudou especialmente mulheres jovens a entrarem em contato com o esporte sem depender do ambiente tradicional do automobilismo. Antes, o interesse pela F1 passava pela família ou pela TV de casa. Agora, ele pode surgir de maneira aleatória no feed.
Os fãs mais novos não têm vergonha de dizer que conheceram o esporte por um edit (vídeos dinâmicos nas redes sociais)
LUIZA SCHENATO
uma das criadoras do Be Fast Podcast
Esse novo consumo também mudou a relação emocional com a F1. Em vez de acompanhar apenas resultados e desempenho técnico, fãs passaram a criar conexões com personalidades e histórias. Moda, música, lifestyle e celebridades ganharam espaço importante na construção da imagem do esporte diante delas. Apesar disso, fãs argumentam que associar o crescimento feminino apenas ao glamour em torno do esporte é uma avaliação que derrapa em estereótipos sobre mulheres.
— Claro que existe um universo de moda e lifestyle em volta da Fórmula 1, mas eu vejo isso mais como complemento do que como motivo principal. Se tu gosta de moda, vai acompanhar o que os pilotos e as namoradas estão usando. Mas não é por isso que tu vai assistir corrida — declara a fã Maria Eduarda Boff.
As criadoras do Be Fast Podcast concordam. Segundo Luiza e Giovana, existe um estigma de que novos públicos acompanhariam o esporte apenas pela estética ou pela vida pessoal dos pilotos, sem interesse real pelas corridas. Na prática, segundo elas, acontece exatamente o contrário.
A permanência feminina no público da F1 passa justamente pela complexidade fascinante do automobilismo. O interesse pode até começar por um vídeo, um piloto ou uma série da Netflix, mas se sustenta pela dinâmica das equipes, pelas estratégias e pelo senso de comunidade criado ao redor do esporte.

Espaços femininos
Com mais mulheres acompanhando F1, surgiram também mais espaços criados por elas: podcasts, páginas, grupos de discussão e comunidades voltadas especificamente para fãs mulheres. Mais do que comentar corridas, esses ambientes funcionam como espaços de acolhimento em um esporte que historicamente não havia sido pensado para elas.
A comunidade Girls Like Racing, por exemplo, começou com um grupo de WhatsApp e hoje reúne centenas de mulheres interessadas em automobilismo e promove ações em corridas pelo Brasil, não só da F1.
— Ali é um ambiente seguro. Faltava conteúdo sobre automobilismo de um ponto de vista feminino — explica Erika.
No Be Fast Podcast, a motivação surgiu de uma busca semelhante: criar uma comunidade de mulheres que acompanhassem a F1 e se identificassem com aquela forma de consumir o esporte. Embora o acesso à categoria tenha se ampliado, muitas ainda relatam experiências de descredibilização e a sensação constante de precisar provar conhecimento para serem reconhecidas como fãs legítimas.
Nesse cenário, ver outras mulheres produzindo conteúdo, ocupando espaços e formando comunidades também se torna uma forma de fortalecer e sustentar esse interesse ao longo do tempo.
No fim, os 42% de presença feminina mostram que a F1 deixou de ser um clube fechado para se tornar um produto cultural e digital mais igualitário para homens e mulheres. Ao trocar o foco exclusivo na velocidade pelas narrativas, a categoria não apenas atraiu novas fãs pelas telas – ela também abriu espaço para que mais mulheres se sentissem parte desse universo.
Cinco motivos mais inusitados
Em seu blog, a canadense especialista em história do automobilismo Elizabeth Blackstock especula outros motivos mais inusitados pelos quais a F1 caiu no gosto das mulheres. Confira:
- Pressão gera identificação: Elizabeth argumenta que pilotos de F1 vivem “duplos padrões” parecidos com os enfrentados por mulheres: qualquer atitude pode ser criticada. Se demonstram emoção, são frágeis; se são confiantes, são arrogantes. Essa vigilância constante gera identificação.
- É fácil começar: A F1 tem meandros complicados, mas tem regras bastante simples e poucas corridas ao ano, o que é ótimo para engajar novos fãs. São 10 equipes com dois pilotos cada. A corrida dura menos de duas horas, e quem cruza a linha de chegada primeiro vence. Para começar a assistir, basta saber isso.
- Experiência sob medida: O esporte oferece diferentes níveis de envolvimento, permitindo que cada fã construa uma experiência bastante particular. Há quem adore mergulhar em estratégias de corrida, ou na engenharia, na história, na política das equipes ou até nas picuinhas entre os pilotos.
- Sem más memórias: Muitas mulheres carregam experiências negativas com ambientes esportivos masculinos, especialmente da escola. Como a F1 não fazia parte da vivência tradicional de muitas delas, o esporte surge como um espaço novo, menos carregado dessas memórias e estereótipos.
- Problema era a exclusão: O interesse feminino por corridas nunca foi inexistente. Historicamente, mulheres foram afastadas do automobilismo, desacreditadas ou reduzidas a estereótipos. O crescimento atual mostra mais abertura e espaço para que elas participem como fãs legítimas.
*Com orientação e supervisão de Caue Fonseca
