— Eu tô quase rindo de nervoso — admite Benício, 11 anos, enquanto tenta manter os olhos na mãe, Caroline Fontanella, 44, para dar conta da inusitada missão de entrevistá-la em frente às câmeras.
Ela, por sua vez, sente a voz vacilar já na primeira pergunta feita por ele e pelo filho mais velho, Heitor, de 15 anos.
— Tá dando vontade de chorar — diz, sorrindo timidamente como quem tenta segurar o turbilhão de emoções que está prestes a preencher o estúdio de gravação.
Os três parecem acostumados à proximidade, mas não exatamente a esse tipo de troca. Há intimidade nos gestos, nos olhares, nos "eu te amo" sussurrados entre uma pergunta e outra. Ainda assim, algo ali é novo.
A conversa da família faz parte de uma experiência proposta por Zero Hora para o Dia das Mães. Filhos foram convidados a entrevistar suas mães, fazendo perguntas que nunca tinham feito. Como respostas, ouviram coisas que também não tinham sido ditas por elas.
Sem um roteiro rígido, o que se buscou foi a troca genuína entre mães e filhos. O resultado são conversas atravessadas por suspiros, choros, risos e silêncios carregados de significado, em uma manifestação do que é o amor para mães e filhos de diferentes gerações.
Comportamento
Traduzir o mundo para uma criança

Em uma dessas entrevistas, a euforia e a impaciência típicas da infância deram lugar, aos poucos, à entrega. É verdade que, antes de começar a conversar com a mãe, a pequena Alice, seis anos, parece mais interessada em patinar com seus tênis de rodinha.
Mexe, gira, testa o próprio equilíbrio. A mãe, a jornalista Camila Severo Pretto, 44, observa sem pressa, esperando o tempo da filha. Até que Alice senta, olha e pergunta:
— Mamãe, o que é ser mãe?
— Ser mãe é a melhor coisa do mundo. Eu amo ser tua mamãe. Tu sabe, né? — Camila devolve a pergunta, recebendo de Alice uma tímida e risonha balançada de cabeça. — Tu ficou nove meses aqui no forninho. A gente já te amava desde a barriguinha — completa.
Alice escuta, absorve e conduz a conversa por caminhos próprios. Por alguns minutos, rompe o arco emocional e decide falar de comida. Quer saber o que a mãe comia quando estava grávida, o que comia depois que ela nasceu, qual é hoje sua comida favorita. Envolvida pela espontaneidade da filha, Camila entra na brincadeira:
— A mamãe não conseguia parar de comer mingau de bolacha Maria quando tava grávida de ti. A mamãe esquentava um pouquinho o leite e enchia um potão de bolacha Maria. A mamãe comeu isso a gravidez inteira.
Alice se revira na cadeira, às gargalhadas, ouvindo atentamente as preferências gastronômicas da mãe. Depois, volta a perguntar tópicos mais "maduros", como se ser mãe já havia deixado Camila cansada.
Ela responde que sim, mas que isso não é necessariamente ruim, pois muitas coisas das quais gostamos eventualmente nos deixam cansados. A pequena pensa um pouco e devolve:
— É, também acho. Concordo muito contigo.
Há uma espécie de tradução no diálogo das duas. Camila ajusta o tom, encontra imagens que fazem sentido para a filha, busca adequar as respostas à capacidade de entendimento dela. Não há choro nem arroubos de emoção. O amor reside no ato de decodificar a vida para uma criança.
Entre o cansaço e o orgulho

Em outra conversa, a dinâmica muda. Cadeiras giram, mãos curiosas mexem nos microfones e a implicância característica de irmãos marca os minutos iniciais. "Para quieto", "olha o que tu está fazendo", dizem uns aos outros. Antônia, sete anos; Joaquim, nove; e Vicente, 12, três dos quatro filhos da influenciadora digital Aline Barbosa, 36, do perfil @mãecrespa.
Ainda assim, quando a caçula assume a missão de iniciar a entrevista, o clima se reorganiza:
— Mãe, o que é ser mãe… hããã... pra ti?
— Ser mãe é a minha vida. Eu nunca pensei que eu fosse ser mãe, mas vocês transformaram a minha vida. Ser mãe é o papel que eu desempenho melhor — responde Aline, embargando a voz pela primeira vez.
Mãe de quatro filhos — além dos três entrevistadores, tem também Laura, de 17 anos —, ela aprendeu na prática, com as vitórias e derrotas da maternidade real, aquilo que não teve tempo para planejar. A primeira gravidez, aos 19 anos, aconteceu de forma inesperada, mas cada filho veio para fazê-la melhor, responde ela quando questionada sobre ter imaginado que seria mãe de quatro.
Ao longo da interação, Aline desabafa sobre a solidão de carregar sozinha grandes responsabilidades, o medo de não conseguir dar conta e as muitas vezes que precisou deixar de fazer algo que queria por causa da maternidade.
Porém, a cada resposta, faz questão de ponderar que nada disso é um peso, que os filhos são seu maior presente, que não se arrepende de nenhuma renúncia. Preocupa-se com o que sua sinceridade pode despertar nos pequenos, mas eles demonstram entender exatamente o que a mãe diz.
Então, as distrações cessam e os três entregam-se ao momento de conexão proposto. A última pergunta é feita por Antônia, que questiona se a mãe sabe que está fazendo um bom trabalho. Aline desmonta:
— Eu achei que eu não conseguiria. Fui mãe muito jovem, não sabia nada, e hoje eu vejo o quanto fiz um bom trabalho. Vejo isso todos os dias quando olho para vocês.
Em meio às lágrimas, ela recebe o olhar carinhoso dos filhos. As picuinhas fraternas saem de cena para dar lugar à cumplicidade — o alicerce da família construída por Aline.
O amor que se mostra no cuidado

Em outra casa, a base parece ser o cuidado. Quando chega ao Grupo RBS, a aposentada Vera Weber, 94 anos, é amparada pela bengala e pelo braço firme da filha caçula, a farmacêutica Nórlan Weber, 53, que ajusta os passos ao ritmo da mãe. Ao lado vem o filho de Nórlan, Felipe, de 13 anos, que acompanha o percurso atentamente.
A dinâmica de zelo se repete dentro do estúdio. Vera tem uma limitação auditiva importante, e as perguntas da filha e do neto precisam ser ditas em volume mais alto. Por vezes, repetidas e explicadas de outra forma. Mas não há pressa. Há paciência e acolhimento.
— Mãe, tu lembra o que sentiu quando ficou grávida de mim? — pergunta Nórlan.
Vera pensa por alguns segundos antes de responder, como quem busca a palavra certa em um lugar mais profundo da memória.
— Achei uma coisa maravilhosa. Era mais uma vida que estava pra nascer — sintetiza.
As respostas da idosa não são longas, mas carregam uma sabedoria notável. Quando é questionada pela filha sobre o maior desafio da maternidade, Vera não enumera dificuldades práticas. Ela vai direto ao essencial:
— Criar os filhos para a vida. Para serem honestos, humildes e verdadeiros.
Felipe entra na conversa, curioso sobre as histórias da avó quase centenária. Pergunta, então, como ela era quando tinha a idade dele.
— Eu era muito moleca — inicia Vera. — Gostava de tudo que era jogo. Andava de bicicleta, de cavalo. Adorava jogos. Até hoje eu gosto.
Há uma leveza inesperada na resposta da idosa. Um traço de infância e molecagem que resiste à passagem do tempo e leva o neto a questioná-la sobre o que gosta de fazer em família e qual a sua relação com as redes sociais. Animada, Vera diz que gosta de reunir a família para conversar e jogar cartas. E que adora navegar nas redes sociais no seu tablet.
Mas, ao ser perguntada sobre o que é a vida para ela, a idosa silencia. Pensa um pouco, volta a ficar mais séria. É como se, a essa altura, preferisse os temas leves aos profundos. Ainda assim, responde com lucidez:
— A vida é a coisa mais linda. Eu gosto de viver.
Ao fim da entrevista, Vera pergunta se respondeu bem. Nórlan e Felipe dizem que ela foi maravilhosa. Vera sorri e deixa o estúdio amparada, novamente, pela bengala e o braço da filha.
Felipe outra vez assume a retaguarda na condução avó, pronto para intervir caso seja necessário. Os três deixam o Grupo RBS e voltam para o lar onde vivem juntos, guiados por um amor que se expressa pela dedicação.
Mais forte do que qualquer dor

Em outra família, o vínculo se revela pela força de seguir em frente. Há 11 anos, a terapeuta integrativa Caroline Fontanella, 44 anos, perdeu o companheiro. A vida se reorganizou em torno dos dois filhos, Heitor, de 15, e Benício, de 11, que viraram parceiros inseparáveis da mãe.
Algo visível ao longo de toda a entrevista, marcada pela emoção desde os primeiros instantes. Por isso, já depois de alguns minutos de conversa, quando Heitor aborda o tópico familiar mais sensível, a mãe está à flor da pele.
— Como tu te sentiu sobre a gente depois que o papai partiu? — pergunta.
Caroline respira e responde:
— A mãe sentiu uma tristeza enorme de saber que ele não ia mais estar aqui vendo vocês crescerem, mas também sentiu uma força gigante, que vinha em cada sorriso de vocês, em cada olhar, em cada carinho que a mãe ia recebendo ao longo dos dias, tendo vocês do lado o tempo todo.
A conversa segue para temas como os sonhos de Caroline, as mudanças trazidas pela maternidade, o medo de falhar como mãe e o orgulho que sente dos filhos. Em sussurros entre uma resposta e outra, ela lembra aos meninos o quanto os ama. Heitor demonstra o mesmo, mas em forma de pergunta.
— Mãe, como tu conseguiu, mesmo depois do falecimento do papai, continuar sendo essa mulher resiliente, forte, feliz, que nunca baixou a cabeça para nada e sempre continuou amando e cuidando da gente? — questiona ele, arrancando lágrimas da mãe e da equipe que acompanhava a gravação.
— Porque eu amo vocês. O amor que eu tenho por vocês é maior que tudo, maior do que qualquer dor que surja na minha vida. Sempre vai ser. Ele transborda e é mais forte que tudo.
O silêncio que se forma em seguida não é desconfortável. O estúdio é preenchido pelos olhares carinhosos entre mãe e filhos e por tudo aquilo que não precisa ser dito. Benício, então, faz uma pergunta que parece resumir toda a proposta:
— Mãe, tu acha que os filhos deveriam parar mais vezes pra conversar assim com as mães?
Ela não pensa duas vezes:
— Sim, o tempo todo. Eu não peço pra vocês conversarem comigo no carro, no almoço, o tempo todo? A gente gosta de ter vocês com a gente assim, olhando no olhinho, ouvindo a voz.








